A lei não une o homem a Deus; Cristo une
Em 1860, Ellen White chamou a lei de elo de ouro que une o homem a Deus. A Bíblia reserva essa função a um só Mediador: Cristo Jesus, homem, não o mandamento.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Em 1860 saiu em Battle Creek, Michigan, o segundo volume de Dons Espirituais (Spiritual Gifts), impresso pela casa editora que James White dirigia. O primeiro volume, de 1858, contava o grande conflito entre Cristo e Satanás. O segundo muda de tom. É autobiográfico: Ellen White narra sua experiência cristã, suas visões e suas viagens a serviço do que o grupo chamava de mensagem do terceiro anjo. É a história de um movimento contada por dentro, pela mulher que seus membros já tratavam como mensageira do Senhor.
O ano pesa. Em 1860, os guardadores do sábado reunidos em Battle Creek adotaram o nome Adventistas do Sétimo Dia. O nome carregava duas bandeiras: a volta iminente de Cristo e o sétimo dia. Desde o fim da década de 1840, o sábado deixara de ser uma prática entre outras e virara marca de identidade. Nas visões de Ellen White, a arca do santuário celestial guardava as tábuas da lei, e o quarto mandamento aparecia cercado de luz. A lei, e dentro dela o sábado, era a fronteira entre o povo fiel e o resto.
Na página 177, o trecho vem na sequência de uma fala atribuída a um anjo. O alvo é um homem que se opôs à lei: "O pobre e tolo homem não sabe o que está fazendo. Ele levantou seu braço mirrado contra a Onipotência. Ele desafiou a lei de Deus." Logo depois vem a frase do elo de ouro. E em seguida o desfecho: o transgressor está prestes a encontrar o grande Legislador por causa da lei quebrada, e a ira de Deus, que há muito dorme, em breve cairá sobre ele com terrível justiça.
O raciocínio é linear. A lei é o elo entre a terra e o céu. Quem a quebra rompe o vínculo. Quem rompe o vínculo fica exposto à ira. O leitor de 1860, que acabara de assumir o nome do sétimo dia, sabia exatamente qual mandamento estava em jogo.
O absurdo
A ponte entre a terra e o céu trocou de engenheiro. Saiu a cruz, entrou a tábua de pedra. O lugar que o Novo Testamento reserva a uma Pessoa, o único Mediador entre Deus e os homens, passa a ser ocupado por um documento, belo e santo, mas documento. E o elo de ouro, na frase seguinte, revela a outra face: é o mesmo elo que arrasta o transgressor ao tribunal. A corrente que deveria unir vira corrente que prende. Eis as palavras exatas:
"A lei de Deus é o elo de ouro que une o homem finito ao Deus infinito. Ela liga a terra ao céu e o homem a Deus."
Fonte: Ellen G. White, Dons Espirituais, vol. 2 (Spiritual Gifts Vol 2, 1860), p. 177.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, Dons Espirituais, vol. 2, p. 177.
Por que isso é grave
A frase desloca a mediação de Cristo. Não nega Cristo; faz algo mais sutil: dá a outro a função dele. Se a lei é o elo que une o homem finito ao Deus infinito, Cristo vira coadjuvante, alguém que talvez ajude a cumprir o mandamento, mas não o vínculo em si. O centro da ligação com Deus passa a ser o que o homem guarda, e não quem Deus enviou. É a cruz rebaixada a auxílio técnico de um contrato.
A frase inverte o evangelho. No evangelho, Deus reconcilia pecadores que quebraram a lei. Na página 177, quem quebrou a lei está desligado, e o que resta é a ira adormecida prestes a acordar. Não há ponte para o transgressor, porque a ponte é justamente aquilo que ele transgrediu. O elo de ouro só serve a quem já está em ordem. Para todos os demais, o que sobra é o Legislador com a lei quebrada na mão. Uma religião assim tem tribunal, mas não tem mediador.
A frase fere a autoridade da Escritura. Ela não aparece como opinião de uma pregadora, e sim como parte de uma fala atribuída a um anjo, dentro de um livro de visões. Uma função que a Bíblia nunca dá à lei chega aos crentes com o selo de revelação celestial. Quem lê é convidado a aceitar como palavra do céu aquilo que o Novo Testamento contradiz. O cânon ganha um anexo, e o anexo corrige o texto.
No chão de 1860, a frase vira distintivo denominacional. Se a lei é o elo, e se o mandamento em disputa é o quarto, então o sábado é o fio que segura o crente ao céu. A observância deixa de ser fruto da comunhão com Deus e passa a ser a própria comunhão. A porta do céu ganha fechadura semanal, e a chave está no calendário.
O veredito das Escrituras
A Bíblia não diminui a lei. "Por conseguinte, a lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom." (Rm 7:12). E ainda: "A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma" (Sl 19:7). Ninguém precisa rebaixar a lei para refutar a página 177. A questão não é se a lei é boa. É se a lei faz o que a frase diz que ela faz. E aí a Escritura responde com outra Pessoa.
Paulo escreve: "há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" (1Tm 2:5). Um só. O elo entre o Deus infinito e o homem finito não é uma tábua, é um homem, o Deus que se fez carne. E o próprio Jesus fecha a questão: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim." (Jo 14:6). Não diz ninguém vem ao Pai senão pelo mandamento. O caminho tem nome, e o nome não é Sinai.
A lei não pode ser o elo porque não tem poder de dar vida. "Porque, se fosse promulgada uma lei que pudesse dar vida, a justiça, na verdade, seria procedente de lei." (Gl 3:21). Paulo considera a hipótese e a descarta. A lei mostra o abismo; não o atravessa: "pela lei vem o pleno conhecimento do pecado." (Rm 3:20). Por isso a página 177 termina em ira. Uma lei tomada como vínculo só consegue fazer o que ela faz de fato: acusar. Ela revela o transgressor, mas não o leva de volta a Deus.
Para o transgressor, e todos o somos, a boa notícia não é um elo que precisa ser mantido intacto, mas um Mediador que o une a Deus apesar da lei quebrada. Cristo não é um fio de ouro que se rompe quando o homem falha. É o Filho que carregou a condenação que a lei anunciava e que agora vive para interceder pelos seus. A lei continua santa, justa e boa; o vínculo com o céu, porém, está numa Pessoa. Quem se apoia nele não depende da força do próprio braço mirrado, mas da fidelidade daquele que venceu.