Cristo é igual ao Pai por natureza, não por decreto
Ellen White descreve o Pai decretando a igualdade do Filho diante dos anjos. A Bíblia responde: o Verbo era Deus desde o princípio e nunca precisou de nomeação.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
A frase está na página 12 de História da Redenção (The Story of Redemption), livro de Ellen G. White que começa a história bíblica por um ponto que a Bíblia não narra: o céu antes da criação da terra. A obra é uma compilação póstuma, organizada a partir de relatos que a autora publicava desde 1858, quando lançou o primeiro volume de Dons Espirituais. Ali, e depois nas versões ampliadas, ela descreve cenas celestes que afirmava ter visto em visão. O leitor adventista recebe o livro como a moldura do grande conflito entre Cristo e Satanás.
A cena é uma assembleia. "O grande Criador reuniu a hoste celestial", diz o texto, para que, diante de todos os anjos, pudesse "conferir honra especial a Seu Filho". O Filho está assentado no trono com o Pai, e a multidão dos anjos está reunida em volta. É nesse ambiente, com plateia formada, que o Pai faz o anúncio que interessa aqui.
Logo depois vêm as consequências práticas do anúncio. A palavra do Filho "devia ser obedecida tão prontamente quanto a palavra do Pai". O Pai "havia investido" o Filho "de autoridade para comandar a hoste celestial". E o Filho devia operar em união com Ele na criação da terra, que ainda estava por vir. No enredo do livro, é essa cerimônia que desperta a inveja de Lúcifer e abre a rebelião no céu.
O que o trecho sustenta, portanto, é um roteiro: houve um dia, dentro da história do céu, em que o Pai determinou que o Filho seria igual a Ele, e os anjos foram convocados para tomar conhecimento. A igualdade entra na narrativa como anúncio, e a autoridade entra como investidura. Isso combina com o modo de pensar de muitos dos pioneiros adventistas, que viam o Filho como alguém que recebia do Pai a honra que tinha. A frase guarda esse vocabulário mesmo quando parece exaltar Cristo.
O absurdo
O Filho eterno aparece aqui como um nomeado. O trono vira gabinete de posse, os anjos formam o auditório, e o Pai lê o ato que eleva o Filho à igualdade consigo mesmo. É a divindade de Cristo tratada como título entregue em cerimônia, com testemunhas presentes para que ninguém alegue desconhecer a nomeação. Quem precisa de decreto para ser igual a Deus ainda não era igual antes do decreto. Eis as palavras exatas:
"O Pai então deu a conhecer que fora por Ele ordenado que Cristo, Seu Filho, fosse igual a Ele; de modo que onde estivesse a presença do Filho, era como Sua própria presença."
Fonte: Ellen G. White, História da Redenção, p. 12.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, História da Redenção, p. 12.
Por que isso é grave
O primeiro golpe está no verbo. O que é "ordenado" foi conferido, e o que foi conferido não pertence à natureza de quem recebe. Um rei pode ordenar que seu embaixador seja recebido como se fosse ele mesmo, mas o embaixador continua sendo súdito. A frase de Ellen White confirma essa lógica ao dizer que, onde estivesse o Filho, "era como" a presença do Pai. Esse "como" descreve uma procuração. A igualdade vira cargo, e cargo se dá por decisão de quem está acima.
O segundo golpe está no calendário. Se a igualdade foi anunciada num momento da história celeste, então existiu um antes, em que o Filho ainda não era igual ao Pai. Cristo passa a ter uma carreira, com promoção e cerimônia. A distância entre o Criador e a criatura, que a Escritura mantém absoluta, encolhe até virar diferença de posto. O Filho fica a um degrau dos anjos que o assistem e dá um passo acima deles diante de todos. É justamente o degrau que Lúcifer, no mesmo livro, julga poder disputar.
O terceiro golpe atinge o evangelho. Só Deus salva (Is 43:11). Se o Filho é Deus por nomeação, a cruz passa a ser obra de um representante autorizado, e o pecador fica pendurado na palavra de um delegado. O "quem me vê a mim vê o Pai" depende de que o Filho tenha a mesma natureza do Pai. Se Ele apenas representa o Pai, quem o vê enxerga uma imagem oficial, e a encarnação deixa de ser Deus conosco para ser Deus mandando alguém em seu lugar.
O quarto golpe atinge a autoridade da Escritura. A Bíblia não descreve essa assembleia, nem esse decreto, nem essa plateia de anjos. A cena existe só porque a autora afirmou tê-la visto. Um capítulo inteiro é acrescentado à história do céu, e é esse capítulo, e não o texto sagrado, que passa a definir como o leitor entende a relação entre o Pai e o Filho. A visão preenche o silêncio da Bíblia e, ao preenchê-lo, contradiz o que a Bíblia de fato diz.
O veredito das Escrituras
João começa pelo mesmo lugar que Ellen White, antes da criação, e chega ao oposto: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." (Jo 1:1). O verbo é "era", e não "passou a ser" ou "foi ordenado que fosse". No ponto mais recuado que a linguagem alcança, o Verbo já é Deus. Nenhuma assembleia vem depois para completar o que já estava pleno.
Paulo fecha a porta da nomeação: "pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus" (Fp 2:6). A igualdade é o ponto de partida do Filho, é aquilo de que Ele abre mão ao se esvaziar, e não uma honra que recebe para exercer. Paulo pensa a humilhação de Cristo a partir de uma igualdade que Ele já possuía. E o próprio Jesus ora olhando para trás, para além de qualquer cerimônia: "e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo." (Jo 17:5). A glória que Ele pede de volta é a que tinha junto do Pai, e não uma glória que o Pai lhe tivesse atribuído.
Por isso a honra devida ao Filho não é protocolo celeste. Jesus diz "a fim de que todos honrem o Filho do modo por que honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou." (Jo 5:23). O Filho é honrado como o Pai porque é o que o Pai é. E quando Filipe pede para ver o Pai, a resposta é identidade, e não procuração: "Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?" (Jo 14:9). Quanto à cena da assembleia, a Escritura já avisou sobre ensinos construídos assim, com gente "baseando-se em visões, enfatuado, sem motivo algum, na sua mente carnal" (Cl 2:18). O que não está escrito não pode corrigir o que está.
A boa notícia é mais firme do que qualquer decreto. O Cristo em quem o pecador confia nunca foi promovido, e por isso nunca pode ser rebaixado. Ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13:8). Quem se apoia nele se apoia no próprio Deus, que veio salvar em pessoa. Não há assembleia de anjos entre o Pai e o Filho, e não há intermediário entre o crente e Deus quando o crente está em Cristo.