2300 Tardes e Manhãs

Cristo recebeu o reino na ascensão, não em 1844

Ellen White põe em 1844 a chegada do Filho do Homem ao Ancião de Dias. O Novo Testamento responde: Cristo já recebeu toda autoridade ao subir aos céus.

Por Rodrigo Custódio ·

Cristo recebeu o reino na ascensão, não em 1844

O momento

A frase está em A Grande Esperança (The Great Hope), a versão condensada de O Grande Conflito, cujo texto de referência é a edição de 1911, a última revista pela própria Ellen G. White. O trecho pertence à parte do livro que explica o que teria acontecido no céu em 1844. Ali a autora cita Daniel 7:13-14 e avisa o leitor de que aquela vinda não é a segunda vinda de Cristo à terra, mas uma chegada à presença do Ancião de Dias.

O pano de fundo é conhecido. O movimento milerita leu Daniel 8:14, "até duas mil e trezentas tardes e manhãs", como o anúncio da volta visível de Cristo, e fixou a data em 22 de outubro de 1844. Milhares venderam bens, fecharam lojas, deixaram as colheitas no campo. O dia passou e o céu não se abriu. O episódio entrou para a história com o nome que os próprios envolvidos lhe deram: o Grande Desapontamento.

Um grupo recusou abandonar o cálculo. Segundo o relato posterior de Hiram Edson, a nova compreensão surgiu já na manhã seguinte: a data estava certa, o lugar é que estava errado. Cristo não teria vindo à terra, mas passado a outro compartimento do santuário celestial. Nos anos seguintes a ideia ganhou forma escrita, recebeu o apoio de Ellen White e se tornou um dos pilares da doutrina adventista do santuário.

O trecho em questão é uma peça dessa construção. Daniel 7 oferecia uma cena em que o Filho do Homem "vem" sem descer à terra — e isso servia sob medida. Se houve uma vinda em 1844, ela seria esta. O parágrafo seguinte do livro diz o que Cristo teria ido fazer lá: "a obra do juízo investigativo" e a expiação "por todos os que se mostram com direito aos seus benefícios". A cena da coroação de Daniel vira o ato inaugural do juízo investigativo.

O absurdo

A coroação do Filho do Homem remarcada para depois de um desapontamento. Daniel viu o Rei chegar ao trono do Ancião de Dias e receber um reino eterno; o livro coloca essa posse no calendário de 1844, como uma cerimônia adiada por dezoito séculos e reagendada para salvar uma conta. O cálculo falhou na terra e foi reaberto no céu, e o trono de Cristo virou o lugar onde a data encontrou abrigo. Eis as palavras exatas:

"É esta vinda, e não a sua segunda vinda à terra, que foi predita na profecia para ocorrer no fim dos 2300 dias, em 1844."

Fonte: Ellen G. White, A Grande Esperança (The Great Hope, 1911), p. 480.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, A Grande Esperança, p. 480.

Por que isso é grave

A frase adia a entronização de Cristo. Se a chegada ao Ancião de Dias, com a entrega de "domínio, e glória, e o reino", só aconteceu em 1844, então o Cristo ressurreto passou mais de dezoito séculos sem aquilo que Daniel descreve como a sua investidura. Os apóstolos pregaram um Senhor já exaltado; a frase de Ellen White pede ao leitor que imagine os apóstolos adiantados em relação ao próprio céu.

O método inverte a ordem entre texto e conclusão. Daniel 7 não menciona 2300 dias; esse número está no capítulo seguinte, numa visão diferente, com outros símbolos. A frase costura os dois capítulos porque a data precisava de um acontecimento, e Daniel 7 tinha um acontecimento sem data. Não é a Escritura que produz 1844; é 1844 que escolhe, na Escritura, a cena que lhe convém. A profecia deixa de ser lida e passa a ser recrutada.

O evangelho sai ferido junto. No contexto imediato, a chegada ao Ancião de Dias inaugura a obra final do ministério de Cristo, e a expiação passa a valer para os que "se mostram com direito" aos seus benefícios. O crente que olha para a cruz ouve que a obra decisiva começou em 1844 e ainda está em andamento, examinando registros. A segurança deixa de repousar no que Cristo concluiu e passa a depender do desfecho de um processo aberto.

Por fim, a autoridade muda de mãos. A frase não apresenta uma leitura possível entre outras; declara o que "foi predito na profecia". Quem define o sentido de Daniel 7 é a mesma voz que precisa que o texto aponte para 1844. Quando a intérprete e o interesse coincidem, a Escritura já não julga a doutrina; confirma o que foi decidido antes de abri-la. É o oposto do princípio que a Reforma recuperou: a Bíblia explicada pela Bíblia.

O veredito das Escrituras

O próprio Senhor resolve a questão antes de subir aos céus. Ressurreto, no monte da Galileia, Jesus declarou: "Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra" (Mt 28:18). O verbo está no passado. Não há um resto de autoridade à espera do século XIX, nem um reino a ser entregue depois. O que Daniel viu ser dado, Cristo anuncia como já recebido. A investidura de Daniel 7 não aguardou 1844; estava consumada quando os discípulos ainda o viam com os próprios olhos.

Paulo coloca a entronização exatamente no ponto que a frase de Ellen White pula. O poder de Deus operou em Cristo "ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais" (Ef 1:20-22), acima de todo poder e de todo nome, "não só no presente século, mas também no vindouro" (Ef 1:20-22). E acrescenta: "E pôs todas as coisas debaixo dos pés" (Ef 1:20-22). Ressurreição, ascensão, trono: é essa a sequência apostólica. Pedro diz o mesmo no Pentecostes, em Atos 2:33-36, e Lucas mostra Jesus subindo e sendo recebido por uma nuvem (Atos 1:9). Daniel viu o Filho do Homem que "vinha com as nuvens do céu" e "dirigiu-se ao Ancião de Dias" (Dn 7:13-14). O Novo Testamento aponta o dia dessa chegada: foi quando a nuvem o encobriu no monte das Oliveiras.

Hebreus fecha a porta que a frase tenta manter aberta. Cristo, "depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas" (Hb 1:3). Primeiro a purificação, depois o assento. Quem se assenta terminou o serviço. O autor não descreve um Sumo Sacerdote que ainda entraria, dezoito séculos depois, para iniciar os últimos atos da sua obra; descreve um Filho entronizado porque a obra está feita. Pôr em 1844 a chegada ao trono é desmentir a ordem que o texto sagrado estabelece.

A boa notícia está no próprio versículo que a frase tentou datar. Daniel não viu um processo em aberto, mas um Rei cuja posse não se revoga: "o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído" (Dn 7:13-14). Esse reino não começou num outono do século XIX. Começou quando o Crucificado saiu do túmulo e subiu ao Pai. O crente não aguarda o resultado de um exame celestial para saber se Cristo reina a seu favor. Ele já reina, já intercede, já venceu. A segunda vinda, a que de fato ainda vem, não inaugura o reino: manifesta diante de todos o reino que já é dele.

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