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    Cronologia Profética ou Rotina Política? Desmontando o Alarmismo Apocalíptico
    Decreto Dominical

    Cronologia Profética ou Rotina Política? Desmontando o Alarmismo Apocalíptico

    Por que eventos políticos rotineiros nos EUA não são o "cumprimento de profecias" que muitos imaginam. Nos últimos meses, uma onda de fervor tomou conta de certos círculos religiosos, especialmente dentro da comunidade Adventista do Sétimo Dia. A retórica é urgente: "Isso não é teoria, é cronologia profética acontecendo em tempo real."

    13 de fevereiro de 20265 min min de leituraPor Rodrigo Custódio

    Por que eventos políticos rotineiros nos EUA não são o "cumprimento de profecias" que muitos imaginam.

    Nos últimos meses, uma onda de fervor tomou conta de certos círculos religiosos, especialmente dentro da comunidade Adventista do Sétimo Dia. A retórica é urgente: "Isso não é teoria, é cronologia profética acontecendo em tempo real."

    A narrativa gira em torno de ações recentes do governo americano — especificamente sob a administração de Donald Trump em 2025 e 2026 — alegando que a criação de escritórios religiosos e decretos sobre oração são sinais iminentes do fim dos tempos.

    No entanto, uma análise histórica sóbria revela que o que é vendido como um "sinal apocalíptico inédito" é, na verdade, a continuação de décadas de protocolo político padrão nos Estados Unidos. Onde o alarmista vê o fim do mundo, o historiador vê apenas a repetição da burocracia de Washington.

    O Mito do "White House Faith Office"

    Em fevereiro de 2025, o alarmismo disparou com a notícia de que o governo Trump criou um escritório na Casa Branca exclusivo para questões religiosas. Para muitos, isso foi visto como a união final entre Igreja e Estado, um precursor da perseguição religiosa.

    A realidade, contudo, é muito menos sensacionalista. Escritórios de parceria baseada na fé existem na Casa Branca há mais de 20 anos, atravessando administrações tanto republicanas quanto democratas:

    • 2001 (George W. Bush): Criou o White House Office of Faith-Based and Community Initiatives, com centros correlatos em 11 agências federais.

    • 2009 (Barack Obama): Instituiu o White House Office of Faith-based and Neighborhood Partnerships, focando na cooperação comunitária.

    • 2018 (Donald Trump - 1º Mandato): Criou a White House Faith and Opportunity Initiative.

    • 2021 (Joe Biden): Restabeleceu o escritório de parcerias de vizinhança e fé.

    A religião na esfera pública americana é anterior a qualquer um desses escritórios. O lema "In God We Trust" tornou-se lei federal em 1956, e a expressão "Under God" foi adicionada ao juramento à bandeira em 1954. Portanto, apresentar a manutenção ou renomeação desses escritórios em 2025 como uma novidade profética é, no mínimo, um erro histórico; no pior dos casos, é uma desonestidade intelectual para com os fiéis.

    A Comissão de Liberdade Religiosa e a "Hipocrisia" Institucional

    Em maio de 2025, a assinatura de uma ordem criando uma Comissão de Liberdade Religiosa foi outro ponto de pânico. A narrativa sugere que isso é uma ferramenta para impor dogmas.

    Ironicamente, a própria Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) tem um longo histórico de colaboração com tais iniciativas, apoiando ativamente a Casa Branca nessas questões há décadas:

    • 1998: A liderança adventista apoiou a criação da Lei de Liberdade Religiosa Internacional (IRFA) com Bill Clinton.

    • 2005: O líder mundial da IASD, Jan Paulsen, foi recebido no Salão Oval por George W. Bush para discutir proteção de consciência.

    • 2015: Representantes oficiais da igreja dialogaram com Barack Obama sobre minorias religiosas.

    • 2017: A igreja esteve presente no Rose Garden apoiando medidas de Donald Trump.

    • 2021: Manteve diálogo diplomático com a administração Biden.

    Em 2025, a igreja continua acompanhando a nova comissão. A instituição fundada por Ellen White mantém uma união diplomática e histórica com o governo americano. Trata-se de lobby religioso e defesa de interesses, não do cumprimento de apocalipses.

    O Conselho da Paz e o Pânico Recorrente

    A especulação de janeiro de 2026 sobre um "Conselho para a Paz Mundial" envolvendo o Papa gerou previsões de um decreto dominical iminente. Mas a história mostra que encontros papais pela paz são eventos diplomáticos comuns, e não sinais do fim:

    1. 1986 (Assis): João Paulo II reuniu líderes de todas as grandes religiões para orar pela paz. Adventistas pregaram que o fim estava próximo. Nada aconteceu.

    2. 2014 (Vaticano): O Papa Francisco reuniu os presidentes de Israel e da Palestina para plantar uma oliveira e rezar nos jardins do Vaticano. O pânico se instalou novamente entre os apocaliptistas. Mais uma vez, o mundo continuou.

    3. 2021 (Iraque): Francisco encontrou-se com o Grão Aiatolá Sistani, unindo cúpulas católica e xiita contra o extremismo. Novamente, profecias de "fim imediato" falharam.

    Se o Papa participar de uma nova comissão em 2026, será apenas a repetição de uma agenda diplomática que o Vaticano persegue há décadas. A única coisa que se repete com certeza é a decepção daqueles que marcam datas baseados em manchetes de jornal.

    O Dia Nacional de Oração: Uma Lei, Não um Sinal

    Por fim, o anúncio de Trump convocando os EUA a serem uma "Nação sob Deus" e proclamando o dia 7 de maio de 2026 como Dia Nacional de Oração foi vendido como a prova definitiva da profecia.

    A verdade é muito mais burocrática: O Dia Nacional de Oração é uma lei federal estabelecida em 1952 e ajustada em 1988. Todos os presidentes, sem exceção, são obrigados por lei a proclamar esse dia. Trump já o fez em 2017, 2018, 2019 e 2020. Fazer isso novamente em 2025 e 2026 não é um "sinal", é o cumprimento de uma obrigação legal anual.

    Conclusão

    É tentador olhar para as notícias e tentar encaixá-las à força em interpretações proféticas antigas. Isso gera cliques, visualizações e um senso de urgência. No entanto, quando analisamos os fatos friamente, a "cronologia profética em tempo real" se desfaz.

    O que estamos vendo não é o fim do mundo, mas o funcionamento normal da política e da religião civil americana. Tentar transformar burocracia, leis federais antigas e diplomacia padrão em sinais do apocalipse resulta apenas em ciclos contínuos de medo e, inevitavelmente, decepção.

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