Ellen White julgou o mesmerismo por visão, não pela Bíblia
Ellen White classificou o mesmerismo por visão, não pela Escritura. A Bíblia manda provar os espíritos e basta para ensinar e corrigir: toda revelação é julgada por ela.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Em 1851, James White imprimiu em Saratoga Springs, no estado de Nova York, um pequeno volume com o nome da esposa na capa: Esboço da Experiência Cristã e das Visões de Ellen G. White (A Sketch of the Christian Experience and Views of Ellen G. White). Foi o primeiro livro de Ellen White, a jovem de Portland, no Maine, que desde o fim de 1844 relatava visões ao pequeno grupo de ex-mileritas que guardavam o sábado. O folheto reunia a história da sua conversão e o conteúdo das visões recebidas até ali. Décadas depois, o material seria reaproveitado em Primeiros Escritos (1882).
As visões não eram aceitas sem contestação. Na América da década de 1840, o mesmerismo estava em voga. Era o chamado magnetismo animal, técnica derivada de Franz Anton Mesmer, exibida por demonstradores itinerantes que induziam transes com passes de mão e olhar fixo. Críticos do grupo sabatista, inclusive antigos companheiros do movimento milerita, diziam que os estados de êxtase da jovem eram exatamente isso: sugestão, nervos, influência de um operador. A acusação acompanhou os primeiros anos do ministério dela.
Na página 4 do livro, Ellen White narra um desses confrontos. Um médico, que ela descreve como mesmerizador célebre, afirmou que as visões dela eram mesmerismo, que ela era "um sujeito muito fácil" e que ele mesmo poderia mesmerizá-la e lhe "dar uma visão". A resposta dela veio em duas partes. Primeiro, a declaração de que o Senhor lhe mostrara em visão a origem do mesmerismo. Depois, o desafio: ela lhe deu liberdade para tentar. Ele tentou por mais de meia hora e desistiu.
O trecho sustenta duas coisas ao mesmo tempo. Diz de onde vem o mesmerismo, e diz para onde vão os que o praticam: "logo iria para lá, com aqueles que continuassem a usá-lo". A pergunta era sobre a natureza das visões. A resposta foi outra visão, seguida de uma sentença.
O absurdo
É um tribunal em que a ré, acusada de falso testemunho, chama como perito o próprio depoimento. O médico põe em dúvida a origem das visões, e a resposta é: "uma visão me disse". A moeda em disputa é usada para pagar a dívida. E, de quebra, a mesma visão classifica uma prática inteira como vinda do abismo e anuncia o destino eterno de quem a usa. Nenhum versículo entra na sala. Eis as palavras exatas:
"Eu lhe disse que o Senhor me havia mostrado em visão que o mesmerismo vinha do Diabo, do abismo sem fundo"
Fonte: Ellen Gould White, Esboço da Experiência Cristã e das Visões de Ellen G. White (A Sketch of the Christian Experience and Views of Ellen G. White, 1851), p. 4.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, Esboço da Experiência Cristã e das Visões de Ellen G. White, p. 4.
Por que isso é grave
A autoridade muda de endereço. A classificação do mesmerismo não repousa sobre nenhum texto. Repousa sobre "o Senhor me havia mostrado". A frase cria um veredito doutrinário que a Escritura não pronunciou nesses termos e ainda lhe acrescenta uma sentença: o operador e seus clientes "logo" iriam para o abismo. A visão legisla, julga e condena. A Bíblia fica no banco das testemunhas, sem ser chamada.
O argumento é circular por construção. O que estava em questão era justamente se os transes de Ellen White vinham de Deus ou de outra fonte. Responder com um transe é andar em círculo e chamar isso de chegada. Se a visão pode atestar a origem das visões, nenhuma visão jamais será reprovada. O critério virou espelho: a profetisa se examina e se aprova.
Depois vem o teste de laboratório, e ele também não prova nada. Um operador que falha por meia hora demonstra apenas que falhou. Não demonstra que o êxtase anterior veio do céu. A ausência de um transe induzido não certifica um transe espontâneo. Mas o relato apresenta o fracasso do médico como selo de autenticidade: o sinal passa a decidir a questão que só a doutrina pode decidir. A Escritura adverte exatamente contra isso (Dt 13:1-3). O prodígio que se cumpre não valida quem o anuncia.
E o efeito sobre o crente é o mais sério. Quem quiser saber o que pensar de uma prática espiritual aprende, por esse método, a consultar a visionária antes de abrir a Bíblia. A consciência passa a depender de revelações privadas, recebidas por uma pessoa e registradas num livro que não é o cânon. O rebanho troca a Palavra que todos podem ler por uma palavra que só uma pessoa ouviu.
O veredito das Escrituras
A Escritura não precisava de reforço visionário para tratar do assunto. Deuteronômio 18:10-12 já condena adivinhação, encantamento e feitiçaria, e o faz em texto público, aberto a qualquer leitor. A Palavra é "útil para o ensino, para a repreensão, para a correção" (2Tm 3:16), a fim de que o homem de Deus seja "perfeitamente habilitado para toda boa obra" (2Tm 3:17). Discernir uma prática espiritual é boa obra. Se a Escritura habilita perfeitamente, a visão não acrescenta. Quando se põe no lugar dela, desloca.
João dá a regra sem exceções: "não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus" (1Jo 4:1). A regra não isenta ninguém, nem os que dizem ter visto o céu aberto. A própria reivindicação "o Senhor me mostrou" é um espírito a ser provado, não uma régua para provar os outros. E o apóstolo explica o motivo da cautela: "porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora" (1Jo 4:1). Os bereanos examinaram as Escrituras para conferir até o que Paulo pregava (At 17:11). Nenhuma visão do século XIX está acima desse exame.
O critério bíblico é a lei e o testemunho (Is 8:20), não o resultado de uma sessão diante de testemunhas. Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras, mas nestes últimos dias falou pelo Filho (Hb 1:1-2). A fé foi entregue aos santos de uma vez por todas (Jd 3). Uma visão que classifica, sentencia e dispensa o texto não completa essa fé. Ela lhe faz concorrência. E, se um anjo do céu pregasse outro fundamento, Paulo manda não recebê-lo (Gl 1:8).
O crente não precisa viver sob o veredito de uma visionária para saber de que lado está diante das trevas. Cristo despojou os principados e potestades e triunfou sobre eles na cruz (Cl 2:15). A Escritura que aponta para Ele basta para ensinar, corrigir e guardar. A segurança do cristão não vem de uma experiência em que o operador desistiu depois de meia hora. Vem de um Senhor que venceu e de uma Palavra que qualquer um pode abrir e conferir.