
Minneapolis 1888 e os Desafios Teológicos
Entenda por que a Conferência de Minneapolis de 1888 revela problemas na teologia adventista sobre justificação pela fé. Analise questões fundamentais neste artigo.
Introdução
A Conferência Geral de Minneapolis de 1888 constitui um dos episódios mais significativos — e controversos — da história adventista, sendo frequentemente citada como ponto de inflexão para a teologia da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Este artigo examina criticamente o evento de 1888 e sua relevância teológica, especialmente em relação à doutrina da “justificação pela fé”, a tensão entre lei e graça, e o papel da autoridade profética na tradição adventista. Investigaremos, com base em uma análise das Escrituras e da hermenêutica reformada, se a suposta “reforma” promovida em Minneapolis representou, de fato, um retorno autêntico ao evangelho bíblico, ou se reforçou paradigmas teológicos problemáticos que ainda hoje permeiam o adventismo. Destacaremos o conflito doutrinário, a resposta institucional e as consequências desse evento, confrontando as alegações adventistas com a autoridade das Escrituras. Ao colocar em pauta esse episódio-chave, buscamos oferecer respostas sólidas a adventistas desejosos de fundamentar sua fé na verdade inegociável da Palavra de Deus.
1. Contexto Histórico e Desdobramentos da Conferência Geral de Minneapolis de 1888
A história adventista registra a sessão da Conferência Geral de 1888 como um marco tumultuado marcado por acirrados debates doutrinários. A controvérsia eclodiu principalmente na discussão acerca da justificação pela fé versus a ênfase tradicional adventista na lei, catalisada pelas mensagens inovadoras de Alonzo T. Jones e Ellet J. Waggoner — reformadores internos que desafiaram o status quo teológico do movimento.
1.1 Disputa sobre a Lei em Gálatas
O centro do conflito girou em torno da natureza da lei em Gálatas. Waggoner defendia que a carta de Paulo referia-se a toda a lei, tanto cerimonial quanto moral, o que colidia frontalmente com a posição adventista clássica de que Paulo teria em vista apenas a lei cerimonial. A obra de G.I. Butler, Law in Galatians, buscou salvaguardar o entendimento tradicional, sustentando que a lei em questão era “peculiarmente judaica” e não moral.
Este debate revela uma inclinação de grande parte do adventismo em proteger sua distintividade sabatista e seu “mandamento distintivo”, mesmo ao custo de ajustar a exegese bíblica ao paradigma denominacional.
Efetivamente, a ênfase excessiva na lei moral como centro da mensagem paulina em Gálatas contraria o espírito da Reforma Protestante, que sempre entendeu a carta como uma defesa radical da justificação exclusiva pela fé em Cristo (Gálatas 2:16; 3:10-14).
“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas sim mediante a fé em Jesus Cristo, temos também crido em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo...” (Gálatas 2:16)
A incapacidade institucional adventista de admitir o escopo total da lei em Gálatas reflete uma hermenêutica tendenciosa, motivada menos por honestidade exegética e mais por autoconservação denominacional.
1.2 O Papel de Ellen G. White e o Dom Profético
No auge do impasse, Ellen G. White interveio alegando orientações divinas, mas não solucionou definitivamente o conflito — antes, forneceu um aval posterior à mensagem de Jones e Waggoner. Em retrospectiva, observa-se:
O papel mediador de White dependeu menos de critérios bíblicos objetivos e mais de alegações proféticas subjetivas, o que expôs a Igreja Adventista à instabilidade doutrinária derivada do sola scriptura mitigado.
A contestação, seguida da posterior “reconciliação” mediante apelos aos escritos de White, criou um padrão recorrente: as tensões doutrinárias adventistas são decididas, em última instância, pela autoridade profética interna, e não prioritariamente pelas Escrituras (Isaías 8:20).
“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, jamais verão a alva.” (Isaías 8:20)
Este procedimento institucional representa um afastamento do cristianismo reformado clássico, no qual todas as doutrinas são julgadas exclusivamente pelas Escrituras.
2. Doutrina Adventista de “Justiça pela Fé” em Perspectiva Crítica
O conceito de “justiça pela fé”, central na retórica de Jones e Waggoner, foi amplamente abraçado pela liderança adventista após Minneapolis, mas nunca desatrelado dos paradigmas peculiares do adventismo — em especial, o Tema do Grande Conflito, que reconfigurou a substância teológica do termo.
2.1 Subversão Conceitual: Termos Bíblicos, Conteúdo Adventista
O slogan reformado “justificação pela fé”, ancorado em Romanos e Gálatas, foi assimilado formalmente, porém, no adventismo pós-1888, foi redirecionado:
Manteve-se o componente legalista implícito: a salvação é condicionada ao desempenho humano, especialmente em obediência ao sábado e à lei mosaica, reinterpretando a gratuidade plena da graça redentora.
O próprio Jones, posteriormente, enfatizou o papel da lei nas experiências de santificação e perfeição, tornando a justificação uma etapa a ser complementada pelo esforço humano.
O conceito de “obediência final” como critério de julgamento no adventismo permanece inconsistente com a mensagem paulina: “...e que, sendo justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus...” (Romanos 3:24)
“Porque, pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” (Efésios 2:8-9)
A assimilação adventista do léxico bíblico reformado — sem plena correspondência conceitual — constitui séria distorção teológica. A justiça pela fé, no evangelho bíblico, é total e definitiva em Cristo, não havendo espaço para suplementação por obras.
2.2 O Grande Conflito como Paradigma Interpretativo
A história adventista revela que, mesmo após 1888, o “Tema do Grande Conflito” de Ellen G. White continuou a nortear a leitura bíblica institucional:
O conflito cósmico entre Cristo e Satanás é colocado como chave hermenêutica suprema, subordinando a justificação à necessidade de vindicação do “caráter de Deus” e à obediência explícita da lei sabática.
A lógica do Grande Conflito relativiza o sacrifício completo de Cristo ao postular que a perfeição dos santos do tempo do fim é necessária para a vitória final sobre Satanás — algo ausente no Novo Testamento.
“Havendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santo dos santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou...” (Hebreus 10:19-20)
Note-se que, biblicamente, a consumação da obra de Cristo torna desnecessária qualquer colaboração humana adicional para a garantia de salvação e vitória escatológica. O adventismo, ao misturar paradigmas, preserva um semi-pelagianismo funcional que compromete a supremacia da cruz e da graça.
3. Tensão entre Autoridade das Escrituras e Tradição Profética Adventista
A sessão de 1888 expôs, de modo emblemático, o problema estrutural da autoridade dual no adventismo: Bíblia e Ellen White. O próprio desenrolar dos fatos de Minneapolis demonstrou os efeitos práticos da dependência institucional da profetisa.
3.1 Incapacidade de Julgamento Bíblico Autônomo
As partes envolvidas — Butler, Uriah Smith, Jones e Waggoner — recorreram não apenas às Escrituras, mas, em última instância, buscaram solução definitiva nos pronunciamentos de White.
A mensagem de White qualificou-se como “revelação divina” que validou um dos lados, sem que o conflito fosse resolvido exclusivamente pelo debate exegético imparcial.
“Examinai tudo. Retende o bem.” (1 Tessalonicenses 5:21)
Esse modelo se distancia das tradições reformadas e evangélicas, nas quais todo profeta deve ser julgado pela Palavra (Deuteronômio 13:1-3), e não servir de filtro último para discernimento doutrinário. O predomínio da tradição profética interfere, assim, na possibilidade real de reforma genuína dentro do adventismo.
3.2 Consequências Eclesiológicas e Teológicas
Os acontecimentos pós-1888 ilustram como a resolução das tensões internas do adventismo acaba por manter a estrutura profética acima da escriturística:
A oposição teológica, ao invés de produzir autocrítica robusta e alinhamento exegético com o evangelho, gera acomodação institucional ao redor do que Ellen White aprova ou reprova.
Apesar de usarem a terminologia da Reforma (justificação pela fé), a teologia subjacente é delimitada e revisada por uma tradição extra-bíblica que permanece normatizadora.
Na prática, isso reduz a suficiência das Escrituras e perpetua doutrinas que carecem de base clara no Novo Testamento, perpetuando sérias incongruências doutrinárias.
4. Análise Crítica das Consequências da “Reforma” de 1888
Muitos adventistas contemporâneos apontam a Conferência Geral de Minneapolis de 1888 como evidência de que a igreja abraçou plenamente o evangelho bíblico. Uma análise cuidadosa mostra, contudo, que:
A assimilação do discurso reformado foi, na melhor das hipóteses, superficial; na pior, instrumental para sanitizar o grande conflito doutrinário interno sem resolver suas contradições de fundo.
A partir de 1888, a ênfase em “justificação pela fé” foi sempre reinterpretada a partir da tipologia e do arcabouço escatológico adventista, evitando conflitos com o legalismo fundacional.
O resultado é uma teologia híbrida, oscilando entre linguagem graciosa e exigências legalistas, que não resiste ao escrutínio bíblico sólido.
“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (João 8:36)
A liberdade evangélica proclamada nas Escrituras está em nítido contraste com a complexidade salvífica adventista, que demanda adesão a preceitos distintivos (como o sábado como selo), alienando-se da centralidade da cruz, como única base de justificação, santificação e salvação consumada.
Conclusão
A rigorosa análise da história adventista, com foco na Conferência Geral de Minneapolis de 1888, desvela uma reforma inacabada e teologicamente insuficiente diante das exigências da soteriologia bíblica. As tensões em torno da “lei em Gálatas”, o papel ambíguo de Ellen G. White e a adaptação cosmética do discurso reformado evidenciam profunda dificuldade adventista em submeter integralmente suas doutrinas à autoridade das Escrituras.
Em síntese, os adventistas do sétimo dia permanecem reféns de um modelo interpretativo que, apesar de abraçar a linguagem da justificação pela fé, compromete-se funcionalmente com exigências legalista-escatológicas e suplementa a Palavra com tradição profética. À luz de textos fundamentais como Romanos 3:28, Efésios 2:8-9 e Hebreus 10:19-20, não há fundamento bíblico sólido para a teologia de “justiça pela fé” conforme veiculada pelo adventismo pós-1888.
Para o questionador adventista interessado em buscar o evangelho puro das Escrituras, o convite é claro: examine toda tradição, ensino ou revelação à luz da supremacia de Cristo e de Sua obra consumada em favor do pecador, rejeitando qualquer acréscimo humano que ofusque a glória exclusiva do Redentor. Que o modelo evangélico/reformado de “sola fide” oriente seu discernimento e conduza à plena liberdade em Jesus Cristo.
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