William Miller

Nenhuma visão decifra o túmulo de William Miller

Ellen White afirma que Deus entregou William Miller a Satanás e o escondeu na sepultura. A Bíblia guarda as coisas encobertas e mede tudo pelo evangelho.

Por Rodrigo Custódio ·

Nenhuma visão decifra o túmulo de William Miller

O momento

Primeiros Escritos (Early Writings) saiu em 1882 como uma coletânea. O volume reúne os textos mais antigos de Ellen White: as visões publicadas em 1851, o suplemento de 1854 e o primeiro volume de Dons Espirituais, de 1858, em que ela narra o grande conflito da queda até a restauração. Perto do fim dessa narrativa, na página 246, o relato chega a William Miller, o fazendeiro batista de Low Hampton, no estado de Nova York, que anunciara a volta de Cristo para por volta de 1843 e depois viu o movimento fixar o outono de 1844.

O desapontamento de outubro de 1844 rachou o movimento. Miller permaneceu ao lado de companheiros como Joshua V. Himes, que rejeitaram a tese da porta fechada e jamais aceitaram o sábado do sétimo dia. O pequeno grupo que daria origem aos adventistas do sétimo dia seguiu outro caminho: adotou o sábado, a nova leitura do santuário e a chamada terceira mensagem angélica. Miller morreu em dezembro de 1849, em Low Hampton, sem ter abraçado nenhuma dessas doutrinas.

A visão não pode ignorar esse fato incômodo. O fundador do movimento morreu fora da mensagem que o movimento dizia ser a continuação da sua. Ellen White resolve o problema narrando o que se passava no coração dele: o homem se inclinava para a verdade, olhava para os irmãos, via que eles se opunham a ela e hesitava em se separar de quem pregara ao seu lado. Em seguida vem a frase sobre a sepultura. Depois dela vem a comparação com Moisés, que errou às portas de Canaã, e a sentença final: outros o levaram a isso, outros devem prestar contas.

O trecho sustenta três coisas ao mesmo tempo. Preserva Miller como homem aprovado pelo céu. Transfere a culpa aos companheiros que ficaram com ele. E interpreta a morte dele como um gesto de Deus em favor da terceira mensagem. A biografia de um pregador passa a servir de argumento doutrinário.

O absurdo

A sepultura vira cofre-forte. Segundo a visão, Deus teria soltado Miller nas mãos de Satanás e no domínio da morte e depois trancado o corpo debaixo da terra, como quem tira uma criança da companhia de más amizades. Nenhum anjo desceu a Low Hampton para explicar o motivo daquele enterro, nenhum profeta das Escrituras falou dele, mas a visão abre o túmulo e lê lá dentro um recado divino sobre o sábado e a terceira mensagem. Eis as palavras exatas:

"Deus permitiu que ele caísse sob o poder de Satanás, sob o domínio da morte, e o escondeu na sepultura, longe daqueles que constantemente o afastavam da verdade."

Fonte: Ellen G. White, Primeiros Escritos (Early Writings, 1882), p. 246.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, Primeiros Escritos, p. 246.

Por que isso é grave

A frase se apropria do conselho secreto de Deus. A Escritura narra a morte de muitos homens, mas raramente diz por que Deus os levou naquela hora, e quando diz, é o próprio Deus falando pela sua Palavra inspirada. Aqui uma visão do século XIX declara o propósito oculto por trás da morte de um cidadão americano de 1849. A providência sobre um indivíduo, que o crente recebe em silêncio e confiança, é tratada como revelação pública. O que Deus guardou para si vira material de impressão.

A frase também inverte o sentido da morte do crente. A visão diz que Deus deixou Miller cair sob o poder de Satanás, sob o domínio da morte, e trata essa queda como proteção. O evangelho anuncia o contrário: Cristo, pela sua morte, destruiu aquele que tinha o poder da morte e libertou os que viviam escravizados pelo medo dela (Hb 2:14-15). Para quem está em Cristo, a sepultura não é território do diabo nem cela de isolamento. Entregar um servo de Deus a Satanás como medida de cuidado faz do inimigo um carcereiro a serviço do céu.

Há ainda o uso da frase. O homem estaria sendo afastado da verdade, e o contexto deixa claro qual verdade: a mensagem nova do sábado e do santuário. Quem resistiu a ela, mesmo o pregador que lançou o movimento, aparece como alguém arrastado para fora do caminho. A morte de Miller deixa de ser um fato da vida de um cristão e passa a funcionar como selo: até o fundador precisou ser recolhido para não atrapalhar. A doutrina ganha uma prova que não vem da Bíblia, e sim de um túmulo interpretado.

Por fim, a visão distribui responsabilidade eterna sobre gente real. Outros o levaram a isso, outros devem prestar contas. Não há nomes, mas a acusação cai sobre os companheiros de Miller, homens que continuavam vivos e pregando. Paulo mandou não julgar nada antes do tempo, até que o Senhor venha e manifeste os desígnios dos corações (1Co 4:5). A visão antecipa esse dia, fecha a conta de um morto e ainda abre a fatura dos amigos dele.

O veredito das Escrituras

Moisés definiu a fronteira: "As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre" (Dt 29:29). O motivo pelo qual Deus leva um homem num ano e não em outro está do lado das coisas encobertas. Quando os discípulos quiseram ler a cegueira de um homem como sentença, Jesus recusou a leitura (Jo 9:3). Quando lhe contaram a tragédia da torre de Siloé, ele não decifrou o destino dos mortos e mandou os vivos se arrependerem (Lc 13:4-5). Cristo não abria túmulos para explicar providências. Chamava quem estava de pé ao arrependimento.

O próprio Moisés, que a visão usa como paralelo, serve de lição. Deus o sepultou e ninguém soube o lugar da sua sepultura (Dt 34:6). O Senhor escondeu o túmulo, não escondeu Moisés dos irmãos para protegê-lo de uma doutrina. Quando Pedro quis saber o que seria de João, ouviu que isso não lhe dizia respeito e que devia seguir o Mestre (Jo 21:21-22). A curiosidade sobre o destino de outro discípulo não recebeu resposta, e sim uma ordem.

E a régua que a visão usa para medir Miller está errada. A pergunta não é se ele aceitou uma mensagem surgida depois de 1844, e sim se permaneceu no evangelho já entregue. Paulo foi taxativo: "ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema" (Gl 1:8). Nenhuma mensagem nova ganha o direito de chamar de desvio quem se recusa a recebê-la. Uma revelação que precisa interpretar a morte de um homem para se firmar confessa que não se sustenta sozinha diante do texto.

O que Deus revelou basta, e é bom. Quem vive, vive para o Senhor; quem morre, morre para o Senhor; na vida e na morte somos dele (Rm 14:8). Os que morrem no Senhor são chamados bem-aventurados, porque descansam das suas fadigas (Ap 14:13). O destino de William Miller está nas mãos daquele que venceu a morte, e não nas páginas de uma visão. Para o leitor adventista vale a mesma segurança: a salvação não depende de ter aceitado a mensagem certa no ano certo, e sim de estar em Cristo, que tem as chaves da morte e do inferno (Ap 1:18).

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