O Sábado

O sábado nunca foi dever de todos os seres criados

Ellen White fez do sábado dever de toda criatura. A Bíblia o chama sinal dado a um povo e sombra cumprida em Cristo, e proíbe julgar alguém por sábados.

Por Rodrigo Custódio ·

O sábado nunca foi dever de todos os seres criados

O momento

O trecho está em Cristo Triunfante (Christ Triumphant), coletânea de leituras diárias montada a partir dos escritos de Ellen G. White e publicada muito depois da sua morte, em 1915. Os compiladores não escreveram uma linha nova. Recortaram, ordenaram e distribuíram pelos dias do ano o que ela já havia dito. Por isso o texto chega ao leitor adventista de hoje como meditação matinal, lido entre o café e o trabalho, com a autoridade que a denominação atribui à sua fundadora.

O raciocínio da página é curto. Deus confiou o sábado a Israel como um sagrado depósito. Mas, diz o texto, o fato de a lei ter sido proclamada no deserto do Sinai, e não na Palestina, revelaria que Ele a destinava a toda a humanidade. A lei dos Dez Mandamentos seria tão antiga quanto a criação. Daí a conclusão: o sábado não tem relação especial com os judeus, mais do que com todos os outros seres criados, e sua observância é obrigatória para todas as pessoas.

Logo depois vem a frase de Jesus de que o sábado "foi feito para o homem", seguida de uma advertência: quem está em perigo de ser enganado neste ponto deve dar atenção à Palavra de Deus, e não às afirmações humanas. O leitor que discordar já sabe em que lado foi colocado.

A página responde a uma objeção antiga. O sábado do sétimo dia entrou no movimento adventista depois de 1844, pelo contato com batistas do sétimo dia e pelos folhetos de Joseph Bates. Desde então, os demais cristãos repetiam a mesma resposta: o sábado é judaico. E a objeção doía, porque a escatologia adventista fez do sábado o teste final da humanidade e da guarda do domingo a marca da besta. Um sábado de Israel não serve para provar o mundo inteiro. Era preciso universalizá-lo.

O absurdo

A areia do Sinai vira cartório. Porque Deus falou num deserto, e não dentro das fronteiras de Canaã, o endereço da proclamação passa a valer como jurisdição universal. O sinal entregue a um povo ganha validade para "todos os outros seres criados", uma expressão que não para na humanidade e avança sobre toda criatura. E a geografia faz o que o texto bíblico nunca faz: transforma um depósito confiado a Israel em dever imposto a cada pessoa da terra. Eis as palavras exatas:

"Portanto, a instituição do sábado não tem relação especial com os judeus, mais do que com todos os outros seres criados. Deus tornou obrigatória a observância do sábado para todas as pessoas."

Fonte: Ellen G. White, Cristo Triunfante, p. 738.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, Cristo Triunfante, p. 738.

Por que isso é grave

A primeira ferida é a da autoridade. "Todos os outros seres criados" é uma jurisdição que nenhum versículo concede. A Escritura não manda anjos guardarem o sétimo dia nem estende o mandamento a toda criatura. A frase não interpreta a lei. Ela a amplia. E quem acrescenta à Palavra se põe acima dela, justamente no parágrafo que termina exortando o leitor a preferir a Palavra de Deus às afirmações humanas.

A segunda é o método. O alcance de um mandamento passa a ser decidido pelo mapa, e não pelo texto. O próprio Decálogo diz a quem fala: abre-se com o Deus que tirou o seu povo da terra do Egito, da casa da servidão (Êx 20:2). O destinatário está na primeira linha. O argumento do deserto passa por cima do prefácio e lê a paisagem em vez da frase. Quando a areia vale mais que o versículo, qualquer doutrina encontra o seu mapa.

A terceira atinge o evangelho. Tornar o sábado obrigatório para todas as pessoas é converter em tribunal aquilo que o apóstolo proibiu que servisse de tribunal. O cristão gentio que descansa em Cristo e não guarda o sétimo dia passa a transgressor. No sistema que a página sustenta, ele é também candidato à marca da besta. A consciência libertada pela cruz volta a ser vigiada pelo calendário, e a comunhão entre os crentes se divide pelo dia da semana.

A quarta toca Cristo. A frase citada logo adiante, de que o sábado foi feito para o homem, Jesus a disse para libertar os discípulos do rigor dos fariseus. E a completou declarando-se Senhor também do sábado (Mc 2:27-28). Na página, a palavra que desatava vira corda. O Senhor do sábado é posto a serviço da obrigatoriedade do sábado, como se tivesse vindo reforçar o preceito, e não revelar a quem o preceito apontava.

O veredito das Escrituras

Deus mesmo diz por que deu o sábado e a quem: "Também lhes dei os meus sábados, para servirem de sinal entre mim e eles, para que soubessem que eu sou o SENHOR que os santifica" (Ez 20:12). O versículo tem destinatário e finalidade. O "lhes" tem nome e história. O "para que soubessem" mostra uma pedagogia: o dia ensinava àquele povo que a santidade vinha do Senhor, e não do próprio esforço. Nada ali abrange "todos os outros seres criados". O que Deus deu com endereço não se transforma em estatuto cósmico porque o dia da entrega aconteceu no deserto.

O Novo Testamento trata a questão ao contrário de Ellen White. Ela declara a observância obrigatória. Paulo proíbe o julgamento: "Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo" (Cl 2:16-17). Sombra não obriga. Aponta. Ninguém abraça a sombra de um amigo depois de ele chegar. E se ninguém pode julgar o crente por sábados, nenhum escrito pode declarar que Deus os impôs a todas as pessoas.

Aos gálatas, gentios que tinham começado a adotar o calendário da lei, o apóstolo não diz "muito bem". Ele se angustia: "Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós tenha eu trabalhado em vão para convosco" (Gl 4:10-11). O que a página chama de obrigação universal, Paulo trata como sintoma de perigo espiritual. Aos romanos, deixa a distinção de dias no campo da consciência de cada um (Rm 14:5-6). Onde a Escritura dá liberdade, ninguém tem autoridade para impor um jugo.

O descanso que o sábado prefigurava tem nome. Cristo chama os cansados e sobrecarregados e promete alívio (Mt 11:28). A carta aos Hebreus anuncia que resta um repouso para o povo de Deus, no qual se entra pela fé (Hb 4:9-10). O leitor adventista não precisa temer o dia errado nem carregar a suspeita de ser enganado por descansar no Filho. O sinal cumpriu o seu papel e a sombra alcançou o corpo. O repouso que Deus oferece a todos os seres humanos não está em um dia da semana. Está em Cristo, e está aberto a quem nele crê.

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