
Por Quem Jesus Morreu na Cruz?
Análise bíblica à luz da teologia reformada responde à pergunta por quem Jesus morreu na cruz, confrontando a doutrina adventista e revelando seus graves erros soteriológicos à luz das Escrituras.
Introdução
A questão crítica da aplicação dos benefícios do sacrifício de Cristo apenas aos “achados dignos” encontra-se no centro da doutrina distintiva do juízo investigativo sustentada pelo adventismo do sétimo dia. Segundo o pensamento adventista, a obra expiatória de Jesus não foi totalmente consumada na cruz, mas estaria condicionada a um processo celestial de investigação quanto à “dignidade” dos professos crentes ao longo da história. Neste artigo, será realizada uma análise crítica rigorosa dessa proposição sob a ótica da teologia bíblica e reformada, confrontando a exclusividade condicional dos benefícios do sacrifício de Cristo com o ensino inequívoco das Escrituras sobre a suficiência, eficácia e aplicação imediata da expiação. Examinar-se-á: (1) as premissas e implicações da doutrina adventista do juízo investigativo; (2) a ideia de dignidade como pré-requisito para a apropriação da expiação; (3) a soteriologia bíblica segundo a tradição evangélica reformada; e (4) uma argumentação escriturística conclusiva. Tendo em vista o impacto pastoral e existencial dessa doutrina, o artigo visa fundamentar uma resposta bíblica robusta àqueles que buscam a verdade sobre seu status diante de Deus.
1. A Doutrina Adventista do Juízo Investigativo e a “Dignidade” como Condição
O juízo investigativo, doutrina centralizada na escatologia adventista, propõe que desde 1844 Jesus Cristo realiza uma espécie de auditoria celestial dos professos crentes, para determinar a quem será concedida a aplicação efetiva dos benefícios de sua expiação. Tal noção, conforme delineada por Ellen G. White—autoridade profética no adventismo—assume que a obra expiatória está em “andamento” e que o perdão dos pecados depende de averiguação prévia do histórico moral individual:
"Attended by heavenly angels, our great High Priest enters the holy of holies, and there appears in the presence of God, to engage in the last acts of his ministration in behalf of man,—to perform the work of investigative Judgment, and to make an atonement for all who are shown to be entitled to its benefits.”—The Great Controversy (1888), p. 479.
Essa estrutura soteriológica implica as seguintes teses principais:
Os benefícios da expiação são condicionados à dignidade percebida do indivíduo.
A vida livre do pecado, ou perfeccionismo sinless perfectionism, é pré-requisito para a aplicação do perdão final.
O juízo de “quem é digno” antecede e define a real eficácia salvadora do sacrifício de Cristo.
É crucial observar que, dentro deste paradigma adventista, a certeza do perdão e da justificação é paradoxalmente adiada até o término de um processo investigativo. Tal estrutura promove insegurança espiritual e desloca a ênfase bíblica da graça para o mérito humano, ainda que disfarçado sob terminologias de santificação ou obediência perseverante.
2. Inconsistências Bíblicas e Teológicas do Condicionamento à “Dignidade”
A proposição adventista de que os benefícios do sacrifício de Cristo são conferidos apenas aos “achados dignos” é teologicamente problemática e hermeneuticamente insustentável à luz da revelação escriturística. A Escritura afirma com clareza que ninguém é digno em si mesmo diante de Deus devido à universalidade e profundidade do pecado:
"Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23).
"Como está escrito: Não há justo, nem sequer um; não há quem entenda, não há quem busque a Deus… todos desviaram…" (Romanos 3:10-12).
O conceito de sinless perfectionism carece de respaldo neotestamentário. Apesar do chamado à santificação, a Bíblia reconhece a realidade da luta contínua contra o pecado na vida do crente (cf. Romanos 7:14-25; 1 João 1:8-10). O critério de “dignidade” embasado em desempenho ou perfeição contradiz frontalmente a doutrina paulina da justificação somente pela fé, sem obras da lei:
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).
Há, portanto, três graves inconsistências:
Confunde as obras da lei como base meritória da aceitação, contrariando Gálatas 2:16, onde a justificação é explicitamente desvinculada das obras.
Reduz a obra expiatória de Cristo a um processo inacabado, ignorando declarações inequívocas da consumação na cruz (João 19:30; Hebreus 10:14).
Introduz uma incerteza escatológica e psicológica, colocando o crente sob terror da aprovação futura e não sobre alicerces da confiança presente em Cristo.
Essas falhas teológicas comprometem não apenas a compreensão soteriológica, mas também o evangelho, essencialmente proclamador das “boas novas” de perdão e aceitação já realizadas para todo o que crê.
3. O Sacrifício de Cristo: Suficiência, Aplicação e Garantia Bíblica da Salvação
O sacrifício de Cristo representa, na teologia reformada e bíblica, uma obra completa, perfeita e suficiente, cujos benefícios são aplicados integralmente no momento da fé, e não como resultado de um processo de avaliação investigativa futura.
3.1 Consummatum est: “Está Consumado” (João 19:30)
A proclamação de Jesus na cruz, tetelestai (“está consumado”), marca o fim de qualquer necessidade de coadjuvação humana para legitimar a eficácia da expiação. Conforme Hebreus 10:14:
"Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados.”
O texto é claro ao afirmar que a obra expiatória não aguarda vivência meritória subsequente, mas confere aperfeiçoamento permanente a quem crê.
3.2 Apropriação da Salvação Mediante a Fé
A doutrina reformada sustenta que a fé é o instrumento de apropriação da obra de Cristo (Romanos 3:21-26; Gálatas 2:16). A justificação ocorre no ato da fé, sem mediações ou análises judiciais transcendentais futuras:
"Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo" (Romanos 5:1).
Note-se o tempo verbal: “tendo sido” justificados. O resultado é imediato—paz com Deus—oposto à incerteza e suspensão advinda da proposição adventista.
3.3 Reconciliação e Garantia Escatológica
A reconciliação com Deus, bem como a promessa de glorificação futura, são positivamente garantidas àquele em Cristo:
"Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira” (Romanos 5:9).
"Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).
Em nenhum momento o texto bíblico fundamenta a aplicação salvadora na análise posterior da vida, mas na vinculação ontológica “em Cristo”. O juízo final, para o crente, não é objeto de incerteza quanto ao status salvífico, mas ocasião da manifestação pública e definitiva daquilo que já foi juridicamente estabelecido na justificação.
4. A Má Hermenêutica Adventista e as Implicações Pastoralmente Nocivas
O método hermenêutico aplicado pelo adventismo para alicerçar o juízo investigativo e o critério de “dignidade” ignora princípios básicos de exegese histórico-gramatical e teologia bíblica da salvação.
4.1 Leitura Distorsiva dos Textos Apocalípticos e Tipológicos
Passagens como Daniel 8:14 e as tipologias do santuário levítico são frequentemente isoladas de seu contexto, produzindo dogmas baseados em cronologias debatidas e alegorias não apoiadas pelo cânon. Não há qualquer menção explícita a um juízo celeste investigativo de crentes na literatura paulina, sinóptica, ou joanina.
4.2 Abuso do Vocabulário “Blotting Out Sins” (Expiação Final)
A ideia de “borramento dos pecados” como evento futuro—dependente do resultado de um julgamento—entra em choque direto com a linguagem do Novo Testamento acerca do perdão:
"Nele, temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça" (Efésios 1:7).
O termo “temos” (echomen, presente contínuo) é incompatível com o já/não ainda adventista, que adia tal benefício para após 1844 ou para um evento escatológico do santuário celestial.
4.3 Efeitos Pastoralmente Nocivos: Suspensão da Esperança
Promove ansiedade constante quanto ao próprio status diante de Deus.
Invalida a “plena segurança” celebrada por Paulo (2 Timóteo 1:12; Hebreus 10:22).
Potencializa posturas perfeccionistas que resultam em desesperança frente ao fracasso moral inevitável.
Diante disso, a hermenêutica adventista, longe de conduzir à consolação genuína e à esperança eficaz no sacrifício de Cristo, produz um cristianismo de paranoia judicial e auto-exame escrupuloso, contra o espírito libertador do evangelho.
5. Uma Resposta Escriturística: Salvificidade, Dignidade e Mérito Exclusivamente em Cristo
A escritura sagrada atribui a totalidade da reconciliação, justificação e aplicação dos benefícios do sacrifício de Cristo única e exclusivamente à obra de Deus, por graça, mediante a fé naquele que já cumpriu perfeitamente toda a justiça:
Não é nossa dignidade, mas* a perfeição de Cristo* (Filipenses 3:9) que nos atribui justiça diante do Pai.
A “condicionalidade” para a salvação pertence à fé viva, não à avaliação meritória de performances humanas (João 6:37-40).
Em Cristo, todo crente está “completo” (Colossenses 2:10), não aguardando veredito celeste adicional, mas já recebido no Amado (Efésios 1:6).
"Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho... para resgatar os que estavam debaixo da lei, afim de que recebêssemos a adoção de filhos" (Gálatas 4:4-5).
"Assim, pois, já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8:1).
“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Romanos 8:33).
Essas passagens encerram, com autoridade divina e irrevogável, qualquer pretensão de subcondicionar a salvação dos crentes ao veredicto posterior de dignidade, seja ele administrativo, investigativo ou escatológico. O “mérito” válido perante Deus é inteiramente alheio ao crente: está fora de nós, em Cristo somente.
Conclusão
A análise rigorosa e exegética deixa claro que a doutrina adventista segundo a qual os benefícios do sacrifício de Cristo só são aplicados àqueles “achados dignos” representa um desvio significativo da teologia bíblica e reformada. O juízo investigativo, com sua dependência da observância à lei e “dignidade” individual, subverte os princípios essenciais do evangelho: a suficiência, perfeição e eficácia consumada da obra de Cristo, acessível mediante a fé, não por exame meritório ou performance moral.
A expiação de Cristo é completa, perfeita e já plenamente aplicável no momento da fé.
Nenhum ser humano pode apresentar-se como “digno”—apenas em Cristo somos declarados justos.
A justificação é ato jurídico imediato de Deus, e não resultado de processo investigativo futuro.
A segurança da salvação repousa unicamente na promessa e aplicação dos méritos de Cristo.
Apelo, assim, aos leitores adventistas ou questionadores: examinem, com honestidade, as Escrituras. Permita que a solene certeza do evangelho reformado aqueça e liberte sua consciência: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1). A dignidade que salva é apenas e exclusivamente a de nosso Salvador, não a de imperfeitos homens que, confiantes, repousam sua esperança sobre a rocha inabalável da obra concluída do Redentor.
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