Erros Teológicos

Negando a alma imaterial e imortal

Cottrell reduz o espírito humano a mero ar respirado — mas a Bíblia distingue espírito, alma e corpo, e o espírito retorna a Deus que o deu (1 Ts 5:23; Ec 12:7).

Por Rodrigo Custódio ·

Negando a alma imaterial e imortal

O momento

Em 12 de fevereiro de 1880, o Signs of the Times circulava em Oakland, Califórnia, já no sexto volume do semanário adventista. Na página 64 daquele número, um artigo assinado por R. F. Cottrell — colaborador assíduo do jornal — tomava como alvo nada menos que a existência da alma imaterial, consciente e imortal.

O título do artigo, "Erro profundamente arraigado" (título original em inglês, traduzido aqui), resumia a tese: a ideia de que o homem possui um espírito imaterial, consciente e imortal seria um engano antigo, tão entranhado na mente popular que impediria as pessoas de enxergar o que a Bíblia diria sobre o assunto.

Cottrell apresentava seu argumento como uma batalha contra o erro: se a mente dos homens fosse como papel em branco, escreveu ele, seria fácil nela escrever a verdade; mas as ideias falsas precisam ser desalojadas antes que a verdade encontre lugar. O problema, segundo ele, era a definição de "espírito": para o crente comum, uma entidade imaterial, consciente e imortal; para ele, apenas o fôlego de vida soprado nas narinas de Adão.

Cemitério rural do século XIX sob névoa

Cemitério rural do século XIX: na tese de Cottrell, o espírito humano seria só o fôlego que se dissipa no ar — sem alma consciente, sem imortalidade.

Não se tratava de um devaneio isolado de um colaborador. A negação da alma imaterial e consciente era — e continua sendo — peça central da teologia adventista, conhecida como "sono da alma": o homem morreria por inteiro, sem nada de consciente que sobreviva, aguardando a ressurreição como quem dorme sem sonhos. Cottrell apenas a defendia com franqueza rara: chamava a doutrina sustentada pela igreja cristã ao longo dos séculos de "falsa teoria".

O absurdo

O trecho mais explícito do artigo não deixa margem a dúvida. Cottrell zomba do crente que sustenta a existência de espíritos humanos desencarnados: para ele, trata-se de "uma espécie de entidade viva que a Bíblia não menciona". E o espírito que volta para Deus na morte, citado de Eclesiastes 12:7, seria "meramente o fôlego de vida" — o ar que Deus soprou nas narinas do homem.

A acusação se inverte de modo curioso: quem crê na alma imaterial, consciente, viva, ativa e imortal estaria com "a mente cheia de uma falsa teoria". Ou seja, a doutrina bíblica vira o erro profundo a ser desalojado; a novidade adventista vira a verdade a ser escrita no "papel em branco".

"espíritos humanos desencarnados, uma espécie de entidade viva que a Bíblia não menciona, e parece impossível fazê-lo ver que o espírito que volta para Deus que o deu (Ecl. 12:7) é meramente o fôlego de vida que Deus soprou em suas narinas. O espírito, no vocabulário dele, é uma entidade imaterial, consciente, viva, ativa e imortal; portanto, os mais claros testemunhos das Escrituras, que definem claramente o espírito do homem, não encontram lugar em sua mente, porque sua mente está cheia de uma falsa teoria."

Fonte: Signs of the Times, 12 de fevereiro de 1880 — Vol. 6, Nº 6, p. 64 (artigo "Erro profundamente arraigado", assinado por R. F. Cottrell).

Trecho original grifado em amarelo na página 64 da edição

O trecho original grifado em amarelo na página 64 da edição: Cottrell sentencia que "espíritos humanos desencarnados" seriam "uma espécie de entidade viva que a Bíblia não menciona".

Por que isso é grave

Reduzir o espírito humano a ar respirado não é detalhe teológico menor: é demolir a antropologia bíblica. Se o homem é só matéria mais respiração, então a promessa de Cristo ao ladrão na cruz — "hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23:43) — perde o sentido: na tese de Cottrell, naquele dia o ladrão não estava em lugar nenhum, consciente de nada, com ninguém.

A gravidade cresce quando se percebe o que a tese elimina junto: a consciência após a morte e a distinção entre o destino dos justos e o dos ímpios antes da ressurreição. O rico e Lázaro, na palavra de Jesus (Lc 16:19-31), estão conscientes, se reconhecem, sentem, pedem e argumentam — tudo depois da morte e antes da ressurreição final. Na doutrina do jornal, essa cena seria uma ficção impossível.

E há um problema lógico interno que o próprio Cottrell não resolve: ele cita Eclesiastes 12:7 — "o espírito volte a Deus, que o deu" — para provar que o espírito é só fôlego. Mas ar respirado não "volta a Deus": volta à atmosfera. Só retorna ao Doador aquilo que é pessoal. A Escritura que ele invoca como prova depõe contra ele.

Gravura de capela e cemitério do século XIX

Gravura de capela e cemitério do século XIX: para o jornal, na morte o homem se desfaria nos elementos originais — mas a Escritura diz que o espírito volta a Deus que o deu.

Por fim, a tese desarma a própria esperança cristã que pretende proteger. Se nada consciente sobrevive à morte, morrer deixa de ser "partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor" (Fp 1:23) para virar um apagão total — e a ressurreição, em vez de vitória sobre a morte, vira mera remontagem de peças.

O veredito das Escrituras

A Escritura distingue o que Cottrell funde. Paulo ora para que "o vosso espírito, e alma, e corpo" sejam conservados irrepreensíveis (1 Ts 5:23): três realidades nomeadas em sequência, não um corpo mais um sopro. E a Palavra de Deus é "apta para discernir... a divisão da alma e do espírito" (Hb 4:12) — se alma e espírito fossem a mesma coisa, não haveria divisão alguma a discernir.

Jesus manda temer não quem mata o corpo, mas "aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo" (Mt 10:28). Se o homem fosse só corpo mais respiração, o inferno ameaçaria apenas cadáveres — e a advertência de Cristo seria vazia. Há, portanto, uma "alma" distinta do corpo, passível de perecer no inferno: exatamente a entidade imaterial que Cottrell diz que a Bíblia não menciona.

João vê "debaixo do altar as almas dos que foram mortos por causa da palavra de Deus" — e elas clamam em alta voz, recebem vestes brancas e ouvem que descansem "ainda por um pouco de tempo" (Ap 6:9-11). Almas desencarnadas, conscientes, falando, vestidas, aguardando: a descrição bíblica é o retrato falado daquilo que o jornal declara inexistente.

Quanto a Eclesiastes 12:7, o texto diz que o espírito "volte a Deus, que o deu": o verbo voltar pressupõe origem e destino pessoais — o que Deus deu, a Deus retorna. E Pedro confirma que há espírito consciente após a morte do corpo quando registra que Cristo "foi pregar aos espíritos em prisão" (1 Pe 3:19). A "falsa teoria" não está na mente de quem crê na alma — está na pena de quem a nega contra a Escritura.

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