Erros Teológicos

Só o "remanescente" prega a verdade final

Só 'crentes no advento próximo' que guardam os mandamentos poderiam pregar a última mensagem, decretou o jornal. A Bíblia entrega o evangelho a todo o que invocar o nome do Senhor.

Por Rodrigo Custódio ·

Só o "remanescente" prega a verdade final

O momento

Em 19 de fevereiro de 1880, o Signs of the Times — o semanário adventista fundado por James White e impresso em Oakland, na Califórnia — publicou o seu volume 6, número 7. É o jornal missionário do movimento: saía toda semana pela Associação de Publicações do Pacífico e circulava pela costa oeste americana levando a teologia do adventismo então jovem.

Naquele número, no miolo do jornal, saiu o artigo intitulado (em tradução nossa) "A Advertência Final", assinado pelo élder R. F. Cottrell — pregador e escritor adventista, colaborador frequente do periódico. O tema eram as mensagens dos três anjos de Apocalipse 14: a "última advertência" que, segundo o jornal, teria de ser pregada ao mundo antes do fim.

Cottrell montava o cenário com solenidade: o fim estaria "mais evidentemente próximo" e a advertência prometida teria de ser ouvida antes dele. Ele perguntava: "Quem está proclamando a advertência prometida?" E respondia com números orgulhosos — haveria no mundo "cerca de duzentos mil adventistas", e a mensagem já era publicada em sete idiomas diferentes, espalhando-se da costa a costa da América e até na Europa, pela voz e pelo prelo.

Até aí, era apenas o entusiasmo missionário de um movimento em expansão. Mas o artigo não se contentava em anunciar a mensagem: ele a confiscava. No mesmo fôlego em que celebrava a expansão da obra, Cottrell definia de uma vez por todas quem poderia pregar a última mensagem de Deus — e, no mesmo gesto, desqualificava todos os demais cristãos do planeta. A frase que selava o monopólio saiu impressa na página 75, no meio do jornal.

Gravura do século XIX de um jardim murado com o portão trancado a cadeado

Gravura do século XIX de um jardim murado com o portão trancado a cadeado: a imagem do monopólio que o jornal reivindicou — a última mensagem de Deus guardada a sete chaves dentro do cercado denominacional.

O gesto era claro: cercar o evangelho com arame denominacional. A "advertência final" deixava de ser mensagem de Deus ao mundo para virar propriedade registrada de um grupo — e a página 75 do jornal virava a escritura desse cartório teológico.

O absurdo

Leia com atenção o que o jornal pôs no papel — não uma dúvida honesta, não uma hipótese, mas um veredito: a última advertência, a mensagem do terceiro anjo, seria "impossível" de ser pregada por qualquer um que não fosse "crente no advento próximo"; todos os outros "estarão longe" de pregá-la. E, dentre os próprios adventistas, só os guardadores dos mandamentos seriam "o povo descrito" em Apocalipse. Nem todo cristão, nem todo pregador do evangelho: só o "remanescente" certificado pelo jornal.

"É impossível que ela seja pregada por outros que não os crentes no advento próximo; todos os outros estarão longe de pregá-la. E, dentre os adventistas, nenhum pode ser o povo descrito senão aqueles que guardam os mandamentos de Deus bem como a fé de Cristo."

Fonte: Signs of the Times, vol. 6, nº 7, 19 de fevereiro de 1880 — p. 75.

Excerto original em inglês do artigo, grifado em amarelo na página 75

O trecho original em inglês, grifado em amarelo na página 75 da edição: o jornal decreta que a última advertência é "impossível" de ser pregada por quem não for "crente no advento próximo".

O recorte acima é a prova documental: não é paráfrase, não é interpretação — é o próprio jornal, em tinta e papel, declarando que a mensagem final de Deus tem dono, endereço e cartão de membro. Todos os outros cristãos, diz o impresso, "estarão longe" de pregá-la.

Por que isso é grave

A tese de Cottrell cria duas castas de cristãos: os habilitados e os desqualificados. E quem decide a habilitação não é a Bíblia — é o jornal. Todo cristão que pregou o evangelho ao longo de dezenove séculos, todo pastor que anunciou a Cristo crucificado e ressurreto, todo missionário que levou a cruz a terras distantes: segundo a página 75, "estarão longe" de pregar a verdade final. Só um movimento do século XIX, com duzentos mil adeptos, teria o selo.

Repare na lógica: a mensagem corre da costa a costa em sete idiomas — e o artigo não diz "somos os únicos que a pregam", diz "só nós PODEMOS pregá-la validamente". É a diferença entre missionarismo e exclusivismo: um anuncia, o outro confisca.

E o que qualifica o pregador, na tese do jornal? Guardar os mandamentos — ler-se: guardar o sábado — somado à crença no advento próximo. A habilitação para a última mensagem vira uma questão de obras da lei e de pertencimento a um grupo datado, não de fé em Cristo. O leitor adventista aprendia, em preto e branco, que o irmão batista, metodista ou presbiteriano que ama a Jesus e prega o evangelho estaria "longe" de pregar a verdade de Deus. Era a cisma institucionalizada como doutrina impressa.

Salão de pregação do século XIX com as cadeiras vazias

Salão de pregação do século XIX com as cadeiras vazias: na tese do jornal, todos os demais cristãos — por mais fiéis a Cristo que fossem — estariam "longe" de pregar a última mensagem.

Há a ironia que o artigo não percebe: Cottrell compara os adventistas a João Batista, "a voz do que clama no deserto". João apontava para fora de si — "eis o Cordeiro de Deus" — e diminuía para que Cristo crescesse. O artigo faz o caminho inverso: aponta para dentro do grupo, e a última mensagem deixa de ser sobre Cristo para ser sobre quem tem o direito de pregá-la.

Exclusivismo denominacional com pretensão de monopólio da verdade final tem nome na história da Igreja: seita. O remanescente bíblico nunca foi clube fechado com portaria — foi o povo que Deus preservou pela graça, não pela carteirinha.

O veredito das Escrituras

A Bíblia não conhece esse monopólio: "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Romanos 10:13) — e quem invoca, prega. A comissão é universal: "Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura" (Marcos 16:15). Não há asterisco denominacional na Grande Comissão, nem cláusula de exclusividade para movimentos do século XIX.

Deus, diz Pedro, "não faz acepção de pessoas, mas em qualquer nação aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável" (Atos 10:34-35). O jornal de 1880 fez exatamente a acepção que Deus não faz: mediu os pregadores pela régua do grupo e carimbou "longe" na testa de todo cristão fora do cercado.

Quanto a Apocalipse 14:12 — "aqui está a paciência dos santos: os que guardam os mandamentos de Deus e têm a fé de Jesus" —, o texto descreve os santos pela fé em Jesus, que define o povo de Deus em toda a Escritura. Nada ali limita a pregação a um movimento específico. Transformar a descrição dos santos em escritura de monopólio é torcer o texto até ele dizer o que o grupo precisa.

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16). "Todo o que nele crê" não cabe no cercadinho denominacional da página 75. A última mensagem de Deus é o evangelho — e o evangelho pertence a todo o que crê, não a quem o jornal habilitou.

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