Erros Teológicos

1844: Cristo não desceu, e o jornal admite

A revista confessa que os milleritas esperavam Cristo em chamas em 1844. Frustrados, culparam o santuário em vez do cálculo — mas Deuteronômio 18:22 já definiu o veredito.

Por Rodrigo Custódio ·

1844: Cristo não desceu, e o jornal admite

O momento

6 de maio de 1880, uma quinta-feira. Sai da prensa de Oakland, na Califórnia, o número 17 do sexto volume do Signs of the Times — o jornal semanal fundado por James White em 1874 como o órgão do movimento adventista na costa oeste americana.

A edição traz a continuação da série doutrinária "Sinopse da Verdade Presente", número 16, dedicada às 70 semanas e aos 2300 dias de Daniel. O texto não leva nome por extenso: fecha-se com as iniciais "U. S." — Uriah Smith, o redator-residente do jornal e autor da série. (As iniciais "J. N. A.", de Andrews, que aparecem na mesma página, fecham o artigo anterior, sobre espiritualismo — não este.)

O artigo reconstrói o argumento cronológico sobre o qual foi pregada a doutrina do advento de 1844: os 2300 dias de Daniel 8 terminariam no outono de 1844; nesse ponto, segundo a profecia, o santuário seria purificado; e essa purificação se daria pelo fogo, "na revelação do Senhor Jesus" — ou seja, na volta pessoal de Cristo.

Depois de quatro pontos de raciocínio — a terra, ou a Palestina, como santuário; a purificação pelo fogo; o sumo sacerdote terrestre entrando no santuário no décimo dia do sétimo mês para fazer expiação — o jornal chega ao ponto alto da reconstrução: a expectativa confiante de que Cristo desceria do céu em chamas no décimo dia do sétimo mês de 1844. Tudo isso está na página impressa 199 do volume.

Gravura do século XIX: três homens de chapéu caminhando por uma estrada de terra carregando vestes brancas de ascensão, em direção a uma casa de fazenda sob céu nublado de outono

Gravura de época: milleritas carregando as vestes brancas de ascensão sob um céu nublado de outono — a cena de 1844 que o jornal de 1880 reconstrói na página 199.

O absurdo

Leia com atenção o que o próprio jornal confessa, com todas as letras, na página 199 da edição de 6 de maio de 1880:

"Portanto esperávamos confiantemente que nosso grande Sumo Sacerdote desceria do céu em fogo flamejante e traria livramento ao seu povo, no décimo dia do sétimo mês daquele ano em que os 2300 dias deveriam terminar."

Fonte: Signs of the Times, vol. 6, nº 17, 6 de maio de 1880 — p. 199.

Recorte da página 199 do Signs of the Times de 6 de maio de 1880 com o trecho citado grifado em amarelo

O trecho original em inglês, grifado, na página 199 do Signs of the Times — a prova documental da confissão de 1844.

Por que isso é grave

Repare no advérbio: "esperávamos confiantemente". Não foi uma hipótese modesta, nem um estudo deixado em aberto: foi uma certeza anunciada ao público, com dia marcado — o décimo dia do sétimo mês, no ano em que os 2300 dias "deveriam" terminar. Quem fixa o dia da volta de Cristo já desobedeceu antes mesmo de errar o cálculo; errar o cálculo apenas carimba a desobediência.

Cristo não desceu. O jornal registra o desapontamento — "não precisamos mencionar quão doloroso foi o desapontamento" — e em seguida cataloga três classes de respostas surgidas entre os crentes. A primeira queria desmontar o cálculo das 70 semanas; a segunda queria reajustar os 2300 dias para uma data futura. E a terceira — a que o jornal apresenta como saída — sustentou que "as concepções primeiro nutridas a respeito do Santuário e de sua purificação estavam incorretas". Em bom português: em vez de admitir que o cálculo falhou, culparam o conceito. A data estava certa; o evento é que precisava ser redefinido. Nasce aí, no próprio relato do jornal, a doutrina do juízo investigativo: 1844 não foi a volta de Cristo em chamas — foi a entrada silenciosa dEle no compartimento celestial.

Esse é o padrão que Deus mandou rejeitar: errar a profecia e depois salvar a data mudando o evento. Note a blindagem que a terceira classe constrói: se o evento de 1844 foi invisível — um movimento de Cristo dentro do céu —, ninguém jamais poderá conferir se ele aconteceu. A data que deveria ter sido o teste da profecia vira, assim, uma tese infalsificável. Foi exatamente para esse tipo de remendo que Moisés entregou o teste de Deuteronômio 18:22.

Diorama em papel recortado de um acampamento de tendas brancas numa encosta verde, sob nuvens pesadas

Diorama do acampamento millerita: as tendas brancas das reuniões de 1844, sob nuvens pesadas — o cenário do desapontamento que o jornal tenta rebatizar de doutrina.

A consequência pastoral desse remendo é devastadora. Um movimento inteiro aprendeu, diante do fracasso, a lição errada: em vez de voltar à Escritura e reconhecer que ninguém sabe o dia, institucionalizou a data furada como dogma permanente. A partir daí, cada geração adventista herdou não apenas um erro de calendário, mas um método — o método de nunca admitir que a profecia falhou, apenas de rebatizá-la. Quem aprende a rebatizar o fracasso nunca mais precisa se arrepender dele.

E há um detalhe que o jornal deixa escapar sem perceber: ao insistir que "era bom então, e é bom agora" o argumento cronológico, ele confessa que as mesmas datas que produziram o desapontamento de 1844 continuam sendo pregadas como verdade em 1880. Trinta e seis anos depois, a máquina de marcar datas segue funcionando — só trocou o evento. A profecia que falhou não foi enterrada; foi promovida a doutrina.

O veredito das Escrituras

A Bíblia já definiu o teste, séculos antes: "Quando o profeta falar em nome do Senhor, e essa palavra não se cumprir, nem suceder assim; esta é palavra que o Senhor não falou; com soberba a falou aquele profeta; não tenhas temor dele" (Dt 18:22). Marcar data para a volta de Cristo, ver a data passar em branco e depois redefinir o evento é exatamente o padrão que Moisés mandou rejeitar. O veredito não muda porque o remendo é criativo.

Jesus foi explícito sobre datas: "Porém daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente meu Pai" (Mt 24:36). A ordem é clara — ninguém sabe. Quem anuncia o dia já violou a ordem antes de abrir o calendário; e quando o dia passa sem Cristo, a Escritura não pede uma nova teoria sobre o santuário: pede que se reconheça o falso profeta.

E Pedro adverte sobre a origem das profecias verdadeiras: "Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo" (2 Pe 1:21). Uma doutrina inventada para salvar uma data fracassada é profecia produzida por vontade de homem — e vontade de homem não sustenta doutrina, não sustenta igreja e não sustenta a consciência de ninguém diante de Deus.

Leia o próximo absurdo da série →