Santuário Celestial

Cristo repete no Céu o ritual de Arão

O jornal ensina que Cristo repete no Céu o ritual de Moisés e Arão. Hebreus responde: Ele serve no verdadeiro tabernáculo, superior e definitivo — a sombra nunca se repete.

Por Rodrigo Custódio ·

Cristo repete no Céu o ritual de Arão

O momento

10 de junho de 1880, uma quinta-feira. Em Oakland, na Califórnia, sai da prensa o número 22 do sexto volume do Signs of the Times, o semanário fundado por James White como órgão impresso do movimento adventista na costa oeste americana. O cabeçalho da edição registra, no estilo da época, "quinta-feira, 10 de junho de 1880".

Na página 259 daquela edição, o leitor encontrava a vigésima primeira entrega de uma série doutrinária intitulada "Sinopse da Verdade Presente, número vinte e um (O Santuário, continuação)", assinada com as iniciais "U. S." — Uriah Smith, um dos principais redatores e polemistas do jornal. A série vinha construindo, semana após semana, o arcabouço do que o adventismo chamaria de juízo investigativo: um ministério sacerdotal de Cristo no Céu, dividido em compartimentos e fases, com data marcada para começar.

O argumento daquela entrega girava em torno do capítulo 9 de Daniel. Segundo o artigo, o anjo Gabriel teria mostrado que, dos 2.300 dias de Daniel 8:14, apenas 490 anos pertenciam aos judeus e ao santuário terrestre. O restante do período se estenderia até 1844, quando então começaria a "purificação" de um santuário — não mais na terra, mas no Céu. A conta profética, assim fatiada, desembocava na data que o movimento precisava sustentar a qualquer custo.

Para fechar o argumento, Smith recorria a um periódico adventista mais antigo, o Escudo Adventista (número 1, página 75), e fazia suas as palavras dele: a unção do "Santíssimo" de Daniel 9:24 não se referia a nada feito por mãos humanas na terra, e sim ao verdadeiro tabernáculo, no Céu, onde Cristo entrara como sumo sacerdote. É nesse ponto — dentro da citação que o jornal adota como doutrina — que aparece a tese exposta neste artigo.

Gravura de maquete do tabernáculo do deserto com tenda, altar e candelabro em vitrine de museu

Maquete do tabernáculo do deserto em vitrine de museu do século XIX: o modelo terrestre que o jornal pôs Cristo repetindo no Céu.

Um detalhe do impresso merece registro: na frase central da citação, a composição tipográfica do século XIX deixou um ponto-final fora de lugar — "no Céu, o que. Moisés e Arão faziam em seu modelo" — erro que atravessou a digitalização até os dias de hoje. O sentido pretendido pelo jornal, porém, é inequívoco: o ministério celestial de Cristo seria a repetição, no Céu, do ritual que Moisés e Arão executavam no modelo terrestre. E Smith encerrava o raciocínio com a frase de efeito: "até aqui, confiamos, o assunto está claro para todas as mentes".

O absurdo

Leia com atenção o que o jornal estampou na página 259, apresentando como doutrina o trecho do Escudo Adventista que o próprio Uriah Smith subscreveu:

"Cristo deveria fazer no verdadeiro tabernáculo, no Céu, o que Moisés e Arão faziam em seu modelo."

Fonte: Signs of the Times, vol. 6, nº 22, 10 de junho de 1880 — p. 259.

Recorte da página 259 do Signs of the Times de 10 de junho de 1880 com o trecho citado grifado em amarelo

O trecho original em inglês, grifado em amarelo, na página 259 do Signs of the Times de 10 de junho de 1880 — a prova documental da tese.

Por que isso é grave

A frase parece apenas descritiva — fazer no Céu o que se fazia na terra. Mas ela inverte a lógica de toda a carta aos Hebreus. O jornal diz: o modelo terrestre dita, e o Céu repete. Hebreus diz exatamente o contrário: o tabernáculo terrestre era "cópia e sombra das coisas celestiais" (Hb 8:5). A sombra não dita o original; o original explica a sombra. Quando o jornal põe Cristo repetindo o ritual de Arão, ele transforma o original em copista da cópia.

"Tendo, pois, a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas" (Hb 10:1). Moisés e Arão não executavam o ritual definitivo — executavam a sombra dele, "o exemplo e a sombra das coisas celestiais" (Hb 8:5). Dizer que Cristo repete no Céu o que eles faziam na terra é pôr o corpo imitando a sombra: é como dizer que o sol gira em torno da sombra que ele projeta. A teologia do jornal anda de ponta-cabeça em relação à Escritura que ela mesma cita.

E há o problema da repetição. Os sacerdotes levíticos entravam no santuário repetidas vezes justamente porque "é impossível que o sangue de touros e de bodes tire pecados" (Hb 10:4) — o ritual se repetia porque não funcionava de uma vez. Cristo, ao contrário, "por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção" (Hb 9:12), e "com uma só oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados" (Hb 10:14). Um ministério celestial em modo de repetição do ritual levítico nega a finalidade da obra de Cristo: se ainda há repetição no Céu, a oferta única não bastou.

Interior de sinagoga antiga com arca da Torá, véu azul e velas acesas

Interior de sinagoga antiga com a arca e o véu: no impresso, o santuário do Céu vira repetição do ritual terrestre.

A consequência pastoral dessa tese é devastadora. Se Cristo está no Céu repetindo o ritual de Arão, então a expiação vira processo em andamento, o perdão vira pendência e a certeza da salvação vira espera ansiosa pelo fim de um serviço invisível. Mas a Escritura declara: "estas coisas vos escrevi para que saibais que tendes a vida eterna" (1 Jo 5:13) — saibais, no presente, não quando um ritual celestial terminar. "Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rm 8:1). Um sumo sacerdote ainda preso à repetição de rituais não pode oferecer descanso; o Cristo de Hebreus "assentou-se à destra da Majestade nas alturas" (Hb 1:3) — a postura de quem concluiu a obra e descansou nela.

O veredito das Escrituras

"Temos um sumo sacerdote tal, que se assentou nos céus à destra do trono da majestade, ministro do santuário, e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem" (Hb 8:1-2). O verdadeiro tabernáculo não é palco de reprise do ritual levítico: é a realidade eterna da qual Arão era apenas sombra. Cristo não repete Arão — Arão prefigurava Cristo. A cruz não foi o ensaio de um ritual celestial; foi o ato definitivo que tornou o ritual desnecessário.

"Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção" (Hb 9:12). Uma vez. Eterna. Quem ensina que Cristo repete no Céu o que Moisés e Arão faziam na terra prega um Cristo preso ao ciclo que a cruz encerrou — e sobre esse outro evangelho o apóstolo Paulo já pronunciou a sentença: "seja anátema" (Gl 1:8).

Leia o próximo absurdo da série →