O bode emissário virou Satanás
O jornal nega que Cristo seja o antítipo do bode expiatório e entrega o papel ao diabo. Isaías 53:6, porém, diz que o Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de todos nós.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 8 de julho de 1880, chegou às mãos dos leitores da Califórnia o número 26 do sexto volume do Signs of the Times, o semanário fundado por James White e impresso em Oakland. Era um jornal de páginas densas, publicado em plena era das campanhas evangelísticas de tendas, quando cada edição funcionava como um púlpito de papel para espalhar a doutrina do santuário.
Na página 307, o jornal trazia mais uma continuação do artigo "A purificação do santuário", uma série de estudos sobre o Dia da Expiação descrito em Levítico 16. O texto fecha, na página seguinte, com a assinatura "U. S.": Uriah Smith, o principal teólogo do movimento na época. Naquele trecho, Smith se dedica a responder a uma pergunta aparentemente técnica: quem é o antítipo do bode emissário, o bode "para Azazel" que o sumo sacerdote enviava vivo ao deserto?

Dois bodes num oásis do deserto: no ritual de Levítico 16, dois bodes eram apresentados diante do Senhor — um sacrificado, o outro enviado vivo para o deserto.
A resposta que qualquer cristão daria de imediato — Cristo, o Cordeiro que tira o pecado do mundo — é exatamente a resposta que o jornal rejeita. Smith apresenta uma lista de "razões muito fortes", numeradas de 1 a 4, para sustentar que o bode emissário não pode representar o Salvador. E, no lugar de Cristo, ele entroniza outro candidato.
O absurdo
Depois de expor as suas objeções, Smith formula a tese do artigo com todas as letras, sem rodeios e sem disfarce. É o parágrafo-síntese de toda a argumentação — e é também o parágrafo mais revelador da edição:
"Destas considerações, pensamos que deve ser evidente para todos que Cristo não pode ser o antítipo do bode expiatório levítico. Quem então pode ser? Respondemos: o diabo"
Fonte: Signs of the Times, vol. 6, nº 26, 8 de julho de 1880 — p. 307.

O trecho original grifado na página 307 da edição de 8 de julho de 1880, com a frase em que o jornal entrega ao diabo o papel do bode emissário.
Leia de novo, devagar: o jornal nega que Cristo seja o antítipo do bode emissário e declara, em resposta à própria pergunta — "quem então pode ser?" — que o bode representa o diabo. Não se trata de uma frase solta nem de um deslize de redação. É a conclusão deliberada de um raciocínio em quatro pontos, publicada como doutrina, num artigo assinado pelo principal teólogo do movimento.
Por que isso é grave
O bode emissário de Levítico 16 carregava simbolicamente as iniquidades do povo para fora do arraial, para "uma terra não habitada". Ao declarar que esse bode é o diabo, o jornal faz de Satanás o portador final dos pecados — e, com isso, desloca para o inimigo de Deus uma função que pertence exclusivamente ao Cordeiro. É uma inversão completa da economia da salvação: quem carrega o pecado, no imaginário do leitor, ocupa o lugar do substituto.
Pior: o próprio ritual desmente a tese. Em Levítico 16 havia dois bodes, e só um deles era sacrificado "para o Senhor" como oferta pelo pecado. O bode emissário jamais foi oferta expiatória — ele apenas levava para longe, já perdoadas, as culpas que o sangue do primeiro bode havia coberto. Smith confunde as duas funções e, para "proteger" Cristo de uma suposta indignidade do símbolo, acaba entregando ao diabo um papel redentor que a Bíblia jamais lhe deu.

Gravura de época de um acampamento religioso do século dezenove, com tendas dispostas ao redor do pavilhão central — o ambiente das campanhas em que essa doutrina era pregada.
E há um veneno mais sutil nessa doutrina. Se o diabo é quem afinal carrega os pecados, então a cruz fica incompleta: Cristo morre, mas os pecados só "somem" de verdade quando Satanás os leva para o deserto no fim. A obra de Cristo vira uma primeira etapa, e o diabo vira o executor da etapa final. É assim, gota a gota, que se esvazia a suficiência do Calvário — sem negá-la em voz alta, apenas repartindo com o adversário aquilo que pertence somente ao Salvador.
Para o leitor comum de 1880, o efeito era ainda mais corrosivo: em vez de olhar para Cristo como aquele que levou os seus pecados, ele era ensinado a olhar para Satanás como o destino final deles. O pecador arrependido aprendia a temer menos o pecado — afinal, no fim das contas, quem pagaria a conta seria o diabo.
O veredito das Escrituras
A Bíblia não deixa margem para essa troca de papéis. Isaías profetizou com clareza cirúrgica: "o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós" (Isaías 53:6). Não sobre o diabo — sobre Ele, o Servo sofredor. O versículo anterior já havia dito: "ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados" (Isaías 53:5).
João Batista apresentou Jesus ao mundo com estas palavras: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29). Pedro confirma: "levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça" (1 Pedro 2:24). E o autor de Hebreus fecha a questão: Cristo "foi oferecido uma vez para levar os pecados de muitos" (Hebreus 9:28) — uma vez, não em duas etapas; por Cristo, não pelo diabo.
Paulo resume o evangelho numa frase que não admite sócios na expiação: "Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus" (2 Coríntios 5:21). Deus fez Cristo pecado por nós. Não fez Satanás carregar nada. Atribuir ao diabo qualquer parte na remoção dos pecados é roubar de Cristo a glória exclusiva de Salvador e dividi-la com o acusador — exatamente o tipo de inversão que as Escrituras condenam do primeiro ao último livro.
O bode emissário, bem compreendido, aponta para Cristo justamente no que o jornal tentou negar: ele levava as iniquidades para longe, para uma terra não habitada, como figura daquele sobre quem Deus lançou todas as nossas culpas e que as removeu para sempre. "Quanto está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões" (Salmos 103:12). Quem as afastou foi o Senhor, por meio do Cordeiro — nunca por meio do diabo.