Cristologia

Cristo despeja os pecados sobre o diabo

Smith ensina que Cristo porá os pecados dos salvos sobre a cabeça do diabo. A Bíblia diz que Deus os lançou sobre Cristo na cruz — e que nEle já não há condenação.

Por Rodrigo Custódio ·

Cristo despeja os pecados sobre o diabo

O momento

Na quinta-feira, 15 de julho de 1880, circulou em Oakland, na Califórnia, o número 27 do sexto volume do Signs of the Times, o semanário fundado por James White. Exatamente uma semana depois de negar que Cristo fosse o antítipo do bode emissário, o jornal voltava ao tema — agora para concluir a série "A purificação do santuário" com a aplicação prática daquela tese.

Na página 319, o artigo de Uriah Smith — fechado na página seguinte com a assinatura "U. S." — descreve em quatro pontos a correspondência entre o ritual de Levítico 16 e os eventos finais: a grande oferta feita no Calvário, os pecados levados ao santuário pelo sangue de Cristo, e então o desfecho. É nesse terceiro ponto que aparece a frase que resume toda a doutrina: terminada a ministração, Cristo removerá os pecados do Seu povo do santuário e os colocará sobre a cabeça do diabo.

Gravura de um deserto desolado e pedregoso sob um céu carregado de tempestade

Gravura de um deserto desolado sob tempestade: a "terra não habitada" para onde o bode emissário era enviado, segundo Levítico 16:22.

O artigo ainda antecipa a objeção óbvia — a de que os pecados não podem ser sofridos duas vezes, e de que seria absurdo Satanás sofrer por pecados já expiados — e a rebate. Ou seja: o jornal sabia exatamente o tamanho do problema teológico que estava criando, e insistiu nele mesmo assim. A doutrina não é um acidente; é uma escolha deliberada, defendida contra as próprias objeções que ela levanta.

O absurdo

Eis a frase, ipsis litteris, no coração da página 319:

"ele removerá os pecados do seu povo do santuário, e os colocará sobre a cabeça do autor deles, o bode emissário antitípico, o diabo."

Fonte: Signs of the Times, vol. 6, nº 27, 15 de julho de 1880 — p. 319.

Recorte da página 319 do jornal de 1880 com a frase grifada em amarelo

O trecho original grifado na página 319 da edição de 15 de julho de 1880, em que o jornal descreve Cristo transferindo os pecados para a cabeça do diabo.

Note a sequência: Cristo termina a Sua ministração e, em vez de declarar os pecados perdoados e esquecidos, Ele os "remove do santuário" e os "coloca sobre a cabeça" do diabo. O Salvador vira uma espécie de transportador, e Satanás vira o depósito final da culpa dos redimidos. O artigo completa o quadro no ponto seguinte: "o diabo será enviado com eles para uma terra não habitada".

Por que isso é grave

Essa doutrina transforma a expiação num processo em duas entregas. Na primeira, Cristo morre e leva os pecados para dentro do santuário — onde eles ficam, aparentemente, aguardando despacho. Na segunda, Cristo os retira de lá e os despeja sobre a cabeça do diabo. Ora, se os pecados precisaram ser carregados mais uma vez, por outro portador, então a cruz não os removeu de verdade: apenas os transferiu de lugar. A obra consumada vira obra encaminhada.

Há ainda um problema lógico que o próprio artigo reconhece e não resolve: se Cristo já sofreu pelos pecados, como pode Satanás sofrer por eles depois? O jornal admite que "alguns estarão prontos para dizer" que isso é absurdo — e segue em frente mesmo assim. Quando uma doutrina precisa atropelar a própria objeção para sobreviver, é sinal de que ela já morreu na lógica antes de nascer na página.

Charge de época com um pregador apontando para a figura do diabo diante de uma multidão risonha

Charge de época: um pregador aponta para a figura do diabo diante de uma multidão risonha numa feira do interior — a sátira involuntária de uma doutrina que põe o Salvador a serviço do acusador.

E o mais grave: a doutrina dá ao diabo um papel na salvação. Se os pecados dos salvos terminam sobre a cabeça de Satanás, então Satanás participa — ainda que como receptáculo — do desfecho da redenção. O inimigo, que a Bíblia chama de acusador, vira peça do mecanismo da graça. É uma promoção teológica do diabo que nenhuma página das Escrituras autoriza.

Para o crente simples de 1880, a mensagem era devastadora: os seus pecados confessados não estavam perdoados e esquecidos — estavam estocados no santuário, à espera do dia em que Cristo os jogaria sobre o diabo. Perdão virava adiamento, e a certeza da salvação virava uma pendência burocrática celestial.

O veredito das Escrituras

A Bíblia declara encerrado o caso que o jornal reabre. O autor de Hebreus escreve que Cristo "se manifestou uma vez, no fim dos séculos, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo" (Hebreus 9:26). Aniquilar — não estocar, não transferir, não despachar depois. E prossegue: "havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus... porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados" (Hebreus 10:12-14). Sacrifício único, aperfeiçoamento definitivo, para sempre.

Isaías já havia registrado o destino dos pecados: "o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós" (Isaías 53:6). Sobre Ele — Cristo —, na cruz, de uma vez. Pedro confirma: "levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro" (1 Pedro 2:24). João acrescenta: "o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado" (1 João 1:7). Purifica — presente, completo, sem segunda remessa.

E quanto ao "esquecimento" divino, a promessa é explícita: "E jamais me lembrarei dos seus pecados e das suas iniquidades" (Hebreus 10:17). Pecados dos quais Deus não se lembra não precisam de bode emissário, nem de deserto, nem de diabo carregador. Miqueias celebrou: "lançarás todos os seus pecados nas profundezas do mar" (Miqueias 7:19) — no mar, não na cabeça de Satanás. "Quanto está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões" (Salmos 103:12).

Para quem está em Cristo, o veredito já foi lavrado e não cabe recurso do acusador: "Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8:1). Nenhuma — não "condenação pendente de transferência". A cruz não encaminhou os nossos pecados para outro portador; ela os cravou no madeiro, de uma vez por todas, no corpo do único Substituto que Deus aceita.

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