Decisões inalteráveis caindo sobre a humanidade
O jornal decreta que vereditos eternos inalteráveis já estão sendo selados sobre a humanidade. A Bíblia diz que hoje é o dia da salvação — a porta continua aberta.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 29 de julho de 1880, o Signs of the Times — o semanário fundado por James White e publicado em Oakland, na Califórnia — circulava com o volume 6, número 29. Na página 343, a "Sinopse da Verdade Presente nº 28" apresentava o artigo "O juízo" (título original traduzido), assinado apenas com as iniciais "U. S." no fecho da terceira coluna. O texto vinha logo depois da sinopse anterior, encerrada com a assinatura "J. N. A." — detalhe que importa, porque é fácil atribuir ao autor errado um artigo impresso em coluna corrida.
O artigo abre recapitulando o ensino comum de um dia de juízo: um período breve em que uma multidão indiscriminada de todos os que já viveram seria reunida diante do Juiz, para ouvir de seus lábios a decisão sobre o próprio caráter e receber de suas mãos a recompensa de suas obras. O autor, porém, não quer diminuir a solenidade do tema — quer, nas palavras dele, mover os leitores a "esforços novos e sinceros na obra de preparação". E o motor dessa urgência é a tese que ele apresenta como evidência: as decisões inalteráveis desse juízo já estariam passando sobre a raça humana.
Na sequência, o texto argumenta que a linha de separação entre justos e ímpios precisaria ser traçada antes do aparecimento do Salvador, e passa a tratar das duas ressurreições — a dos justos e a dos ímpios — citando passagens como João 5:28-29, Atos 24:15, 1 Coríntios 15:23 e Apocalipse 20. É nesse contexto, ainda na página 343, que aparece a frase que esta série registra: vereditos eternos, inalteráveis, já sendo selados sobre a humanidade enquanto ela segue vivendo sem saber.

Ilustração de uma oficina tipográfica do século dezenove, com prensa manual e caixas de tipos — o ambiente em que o jornal era composto em Oakland.
O absurdo
A frase é curta e o seu peso é enorme: o jornal afirma apresentar evidências de que as decisões inalteráveis do juízo já estão passando sobre a raça humana. Inalteráveis — isto é, decisões que não admitem revisão, recurso ou arrependimento posterior. Seladas. Carimbadas. Definitivas. E já em curso, agora, sobre pessoas vivas que continuam trabalhando, dormindo e acordando sem saber que o seu veredito eterno já teria sido lavrado.
Perceba o que isso significa na prática. Se os vereditos já são inalteráveis, então a porta da graça já se fechou para quem foi reprovado no exame — mesmo que essa pessoa ainda esteja viva, mesmo que ela ainda possa ouvir o evangelho, se arrepender e crer. A pregação se tornaria, para esses casos, um teatro piedoso: anunciar salvação a quem já teve o destino lacrado. Eis o texto, traduzido do original:
"conforme apresentamos evidências para mostrar que suas decisões inalteráveis já estão passando sobre a raça humana"
Fonte: Signs of the Times, vol. 6, nº 29, 29 de julho de 1880 — p. 343.

Recorte da página 343 com o trecho grifado em que o jornal declara que decisões inalteráveis já estariam passando sobre a raça humana.
Por que isso é grave
A primeira gravidade é pastoral: essa doutrina rouba a esperança de quem ainda pode ser alcançado. Um pecador que lesse esse jornal em 1880 e se perguntasse se ainda havia salvação para ele receberia, nas entrelinhas, a pior resposta possível — talvez o seu caso já estivesse decidido, e decidido sem volta. O evangelho, que é anúncio de porta aberta, vira loteria celestial com resultado antecipado.
A segunda gravidade é teológica: decisões inalteráveis sobre pessoas vivas contradizem o caráter de um Deus que "quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade" (1 Tm 2:4). Um Deus que sela destinos em segredo, sem apelação, enquanto convida publicamente todos a virem, estaria pregando um convite que ele mesmo já cancelou para parte dos convidados. Isso não é soberania; é contradição encenada.
A terceira gravidade é prática e atinge a própria missão da igreja: para que evangelizar, orar e pregar, se os vereditos já são inalteráveis? A urgência missionária, que o próprio artigo diz querer despertar, morre na tese que ele defende. Ninguém corre para resgatar quem já teve a sentença transitada em julgado. A doutrina do jornal sabota o mandamento que ela finge servir.

Porta de madeira de uma capela aberta para a luz do dia — a porta da salvação que a Bíblia declara ainda aberta.
O veredito das Escrituras
Paulo anuncia o tempo da graça no presente, sem asterisco e sem processo pendente: "Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação" (2 Co 6:2). Agora — não "foi decidido", não "será selado em auditoria". Enquanto o jornal decreta selos inalteráveis sobre a humanidade, o apóstolo proclama portas abertas: hoje ainda é dia de salvação para quem ouve e crê.
Jesus fez o convite universal sem exceções ocultas: "Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa" (Ap 3:20). Se alguém — qualquer um, agora, hoje. Uma teologia de decisões já seladas transforma o convite de Cristo em encenação: de que adianta bater a uma porta cujo destino já foi lacrado em segredo? O convite só é verdadeiro se a resposta ainda for possível — e ela é.
E a promessa de acolhimento é absoluta: "Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora" (Jo 6:37). De maneira nenhuma — nenhuma exceção, nenhum caso já decidido nos bastidores do céu. Quem vem a Cristo é recebido; o resto é invenção de tribunal. Some-se a isso a declaração de Pedro sobre a paciência divina: Deus "não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se" (2 Pe 3:9). Um Deus que não quer que ninguém se perca não sela perdição antecipada e inalterável sobre pessoas vivas.
Por fim, a porta continua aberta porque o convite final da Bíblia ainda está de pé: "E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida" (Ap 22:17). Quem quiser — o verbo está no presente, a oferta está no presente, a água é de graça. Não há selo inalterável entre o sedento e a fonte; há apenas a decisão dele de vir. O jornal anunciou vereditos fechados; a Escritura anuncia uma porta aberta. Fique com a Escritura.