Juízo preliminar desde 1844: Cristo ainda julgando
Um juízo preliminar em curso desde 1844 como encerramento da obra de Cristo como sacerdote. Mas Deus determinou um dia futuro para julgar o mundo com justiça.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 21 de outubro de 1880, o Signs of the Times de Oakland, na Califórnia — vol. 6, nº 39 — publicou na página 462 o artigo "O tempo do juízo de Apocalipse 14:7", assinado "U. S." — Uriah Smith, um dos editores do próprio jornal (o cabeçalho lista James White, J. N. Andrews e Uriah Smith como editores, com J. H. Waggoner como editor residente). Não era opinião marginal: era a teologia oficial, escrita por quem dirigia o periódico.
O artigo ensina que uma obra preliminar de juízo precisa ocorrer antes da vinda do Senhor, ligada à obra de Cristo. Essa obra — a purificação do santuário, o juízo preliminar — teria começado no fim dos 2300 dias de Daniel 8:14. Daniel 9, diz o autor, explica Daniel 8: o período começaria com o decreto para restaurar Jerusalém, no sétimo ano de Artaxerxes (ano 457 a.C., pelo cânone de Ptolomeu), e se estenderia até o mesmo ponto do ano 1844 d.C.
A tese central é a identidade entre dois eventos: "a hora do juízo de Deus e a purificação do santuário envolvem a mesma obra e ocupam o mesmo tempo". O encerramento da obra sacerdotal de Cristo determinaria para sempre quem é dele e quem não é; e a imortalidade seria conferida aos perdoados "num momento, num piscar de olhos", na segunda vinda. O juízo, portanto, não seria um dia futuro — seria um processo em curso desde 1844.
O artigo se despede pedindo ao leitor sincero que pondere essas coisas — e garante que a obra "não pode, pela própria natureza do caso, se estender por muito tempo; e a vinda de Cristo se segue imediatamente". Era 1880. O "período breve" que não podia se estender por muito tempo já dura mais de 145 anos — e o jornal segue esperando o "imediatamente".

Escrivaninha com balança, livros, lamparina e pergaminhos — ilustração atmosférica.
O absurdo
Um "juízo preliminar" em andamento desde 1844, apresentado como obra necessária para o "encerramento da obra de Cristo como sacerdote". Repare na arquitetura da tese: a obra sacerdotal de Cristo teria ficado em aberto na cruz, esperando um fechamento administrativo dezoito séculos depois; e o juízo — que a Bíblia marca para um dia futuro — vira um expediente celestial em curso, examinando casos um a um. Eis as palavras exatas do impresso:
"Esta obra está em andamento desde o fim dos dias em 1844. Ocupa um período breve, mas indefinido, imediatamente anterior à vinda de Cristo. É uma obra que demonstramos ser necessária como encerramento da obra de Cristo como sacerdote, e como o Juízo preliminar que deve anteceder de perto a sua manifestação."
Fonte: Signs of the Times, vol. 6, nº 39, 21 de outubro de 1880 — p. 462.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, edição de 21 de outubro de 1880, p. 462.
Por que isso é grave
O "período breve, mas indefinido" falsificou a si mesmo. Em 1880, o autor garantia que a obra não podia se estender por muito tempo e que a vinda de Cristo se seguiria imediatamente. Mais de um século e quatro décadas depois, o período "breve" continua em curso — e cada ano que passa torna a profecia de iminência mais constrangedora. Uma doutrina que promete o "imediatamente" há 145 anos não descreve o plano de Deus; descreve o fracasso de um cálculo.
A tese sugere que a cruz deixou a obra de Cristo inacabada. Se a obra sacerdotal precisa de "encerramento" em 1844, então por dezoito séculos ela esteve em aberto — Cristo intercedendo, mas sem concluir. Isso contradiz o brado da cruz: "está consumado" (Jo 19:30). Consumado não admite encerramento posterior; obra terminada não precisa de fase complementar. O "encerramento" de 1844 insinua que o Calvário foi insuficiente.
E o juízo preliminar torna o perdão provisório. Segundo o artigo, o encerramento da obra sacerdotal "determinará para sempre quem é dele e quem não é" — ou seja, até o seu caso ser examinado, o seu perdão está pendente de revisão. O crente que confessou, creu e foi perdoado vive sob veredito suspenso: perdoado hoje, talvez reprovado amanhã, quando o seu nome chegar à pauta. É a certeza da salvação substituída pela ansiedade do processo.
Por fim, o juízo é deslocado do futuro público para o presente secreto. A Bíblia anuncia um dia determinado, diante de todos; o artigo instala uma repartição celestial funcionando há décadas, sem que ninguém saiba quando o seu caso entra na pauta. O juízo deixa de ser o grande dia do Senhor e vira expediente administrativo — e o crente, em vez de aguardar o Juiz com esperança, aguarda o auditor com medo.

Tribunal antigo com cortinas de veludo vermelho — ilustração atmosférica.
O veredito das Escrituras
Hebreus 9:12 declara a obra sacerdotal consumada: Cristo "entrou uma vez no santuário... havendo obtido eterna redenção". Uma vez — não em duas fases separadas por dezoito séculos. E Hebreus 10:12 completa o quadro: "havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus". Assentado — a postura de quem terminou a obra. Sacerdote em expediente não se assenta; Cristo se assentou porque não há mais nada a encerrar.
Deus "tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo" (At 17:31). Um dia — determinado, futuro, público. Não um período de 180 anos de investigação sigilosa, mas um dia marcado no calendário de Deus. O juízo bíblico não é processo em andamento; é evento futuro, diante do trono, com o mundo inteiro presente. A tese do jornal troca o dia determinado pelo expediente interminável.
E a ordem bíblica é clara: "aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo" (Hb 9:27). Depois da morte, o juízo — não antes, numa repartição celestial, enquanto o homem ainda vive. O texto não conhece juízo preliminar em curso desde 1844; conhece morte uma vez e, depois, o juízo. A cronologia do jornal inverte a da Escritura.
A Bíblia não conhece "juízo preliminar". O que ela conhece é um Salvador cuja obra está completa — "está consumado" — e um Juiz cujo dia está marcado. Entre o "está em andamento desde 1844" do jornal e o "está assentado para sempre" da Escritura, não há conciliação possível: ou Cristo terminou a obra na cruz, ou ela segue em expediente no céu. A Escritura diz que Ele terminou — e se assentou.