Jornal concorda com incrédulo contra o inferno
O jornal aplaudiu um conferencista incrédulo que preferia a raça humana no esquecimento a admitir o tormento eterno. A Bíblia ensina juízo eterno e consciente.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 16 de dezembro de 1880, o Signs of the Times publicava na página 564 do vol. 6 nº 47 uma nota intitulada "Uma conferência infiel". O texto, sem assinatura, repercutia o relato de A. A. Phelps, editor do periódico Bible Banner, sobre uma conferência ouvida cerca de um ano antes em Little Rock, no Arkansas, proferida por um certo B. F. Underwood — conferencista abertamente incrédulo.
O jornal transcreve as palavras de Underwood sem censura: ele dissera que preferiria ir para o inferno com homens como Tyndale, Huxley e Spencer a ir para o céu com outra classe de pessoas — pois a presença de tais homens tornaria o inferno tão agradável que os melhores tentariam emigrar do outro lugar — e, quanto à ideia popular de inferno, preferiria que toda a raça humana afundasse no esquecimento a que uma parte dela sofresse tormento eterno. Até aqui, o registro de uma fala infiel.
O escândalo vem na linha seguinte, em voz editorial: "Com o último sentimento concordamos plenamente". O jornal que se apresentava como arauto da verdade bíblica declarava concordância total com o incrédulo — não com a sua fé, que ele não tinha, mas com a sua repulsa ao tormento eterno.
E o texto explica o porquê da concordância: Underwood teria confundido "o inferno teológico da tradição com o inferno bíblico de destruição" — e o dogma do tormento eterno, segundo o jornal, "provavelmente fez mais infiéis do que qualquer outro sentimento já promulgado". A culpa pela incredulidade do conferencista seria da doutrina do inferno, não da rebelião do coração.

Tipografia artesanal com pilhas de papel amarradas em diorama de papel — ilustração atmosférica.
O absurdo
Um jornal que se diz cristão aplaude um incrédulo declarado: diante da frase de que seria melhor a raça inteira desaparecer no esquecimento do que uma parte dela sofrer tormento eterno, a redação responde com um "concordamos plenamente". A aliança teológica se forma na hora — o cético e o jornal, de mãos dadas contra o inferno bíblico. Leia as palavras exatas do impresso:
"Eu preferiria que toda a raça afundasse no esquecimento, a que uma parte dela sofresse tormento eterno." "Com o último sentimento concordamos plenamente."
Fonte: Signs of the Times, vol. 6, nº 47, 16 de dezembro de 1880 — p. 564.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, edição de 16 de dezembro de 1880, p. 564.
Por que isso é grave
O primeiro problema é de companhia: o jornal escolhe o seu lado na controvérsia e o lado escolhido é o do incrédulo. Quando a questão é o tormento eterno — doutrina ensinada explicitamente por Cristo em pessoa —, a redação não fica com Jesus; fica com Underwood, conferencista que se declarava inimigo aberto do cristianismo. "Concordamos plenamente" não deixa margem para mal-entendido: é adesão integral ao sentimento do cético.
O segundo problema é a inversão da culpa. Segundo o jornal, o dogma do tormento eterno "provavelmente fez mais infiéis do que qualquer outro sentimento já promulgado" — ou seja, a culpa pela incredulidade de Underwood seria da doutrina bíblica, não do próprio Underwood, como se a pregação fiel fosse responsável pela rebelião de quem a ouve. A Escritura, porém, ensina o oposto: os homens se perdem por amarem mais as trevas do que a luz (Jo 3:19), não por terem ouvido falar demais do inferno.
O terceiro problema é o método: para "salvar" o inferno do descrédito, o jornal o redefine. O "inferno bíblico de destruição" substitui o inferno bíblico de tormento — e a troca é apresentada como fidelidade às Escrituras, quando é na verdade concessão ao ceticismo. Underwood rejeitava o tormento eterno por incredulidade; o jornal rejeita por doutrina. O resultado prático é o mesmo: o inferno de Jesus some do quadro.
E há a ironia final: o jornal lamenta que ministros cristãos, ao pregarem o tormento eterno, afastem "homens pensantes de impulsos generosos" — como se a generosidade humana fosse critério para medir a verdade divina, e como se a fidelidade à Escritura devesse ser calibrada pela reação dos ouvintes. A pregação apostólica nunca suavizou o juízo para não ofender os "generosos": Paulo pregou "acerca da justiça, do domínio próprio e do juízo vindouro" até Félix tremer (At 24:25). O evangelho que não faz tremer não é o evangelho.

Salão de conferências vazio do século XIX com palco e lampiões em aquarela — ilustração atmosférica.
O veredito das Escrituras
Jesus não deixou dúvida sobre a natureza do castigo final: "irão estes para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna" (Mt 25:46). Castigo eterno — as mesmas palavras, o mesmo "eterno", para o destino dos ímpios e para a vida dos justos. Quem nega o primeiro precisa, por coerência, negar o segundo.
O Apocalipse descreve o destino dos condenados sem eufemismo: "serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos" (Ap 20:10), e "a fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos" (Ap 14:11). Não há "esquecimento" no texto sagrado — há tormento consciente, contínuo e sem fim. A preferência de Underwood pela extinção universal é exatamente o contrário do que a Bíblia revela.
Quanto à acusação de que a doutrina do inferno "faz infiéis", a Escritura responde que a incredulidade nasce do coração, não da doutrina: "a palavra da cruz é loucura para os que perecem" (1Co 1:18). Os homens não rejeitam o evangelho porque o juízo é terrível demais; rejeitam-no porque amam o pecado. Suavizar o inferno nunca converteu ninguém — apenas produziu crentes confortáveis com um deus domesticado.
E sobre o "inferno bíblico de destruição", a Bíblia usa "destruição" e "perecer" para a ruína eterna dos ímpios — separação definitiva de Deus em tormento consciente —, nunca para aniquilação ou cessação da existência. O rico da parábola, no Hades, estava em tormento e pedia alívio (Lc 16:23-24): existia, sentia, sofria, lembrava. O jornal de 1880 preferiu a companhia do incrédulo à palavra de Cristo; a Escritura manda ficar com Cristo, ainda que o mundo inteiro prefira o esquecimento.