Só Deus é imortal; Satanás será destruído
O jornal ensina que só Deus tem imortalidade e que Satanás será aniquilado com suas obras. Mas a Bíblia diz que o diabo será atormentado de dia e de noite, para todo o sempre.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 3 de março de 1881, o semanário Signs of the Times, fundado por James White e publicado em Oakland, na Califórnia, trazia na página 98 a série "A Personalidade do Diabo". Tratava-se de uma sequência de cartas do pastor J. N. Loughborough, de Southampton, a um amigo em Somerset, respondendo a uma palestra de Robert Roberts, de Birmingham, na Inglaterra — publicada "a pedido", como informa o cabeçalho da série.
O cabeçalho da edição registra vol. 7, nº 9, com James White, J. N. Andrews e Uriah Smith como editores, e J. H. Waggoner como editor residente. O debate sobre a natureza do diabo ocupava, portanto, as páginas do órgão oficial do movimento — e o que ali se propagava era a doutrina da imortalidade condicional.
O contexto é este: Roberts negara a existência de um diabo pessoal, reduzindo-o ao pecado no coração humano; Loughborough cita longamente a palestra para responder ponto a ponto. No meio da citação, a tese que nos interessa: somente Deus teria imortalidade, e ele a concederia com base no princípio da obediência — a desobediência, que é pecado, ele não toleraria, visitando-a em cada caso com a morte. A própria referência bíblica citada na passagem está errada no original — o versículo sobre Deus ter imortalidade é 1 Timóteo 6:16, não 6:17 — detalhe que revela o cuidado do jornal com as Escrituras que invoca.
O resultado prático da doutrina é o aniquilacionismo: criaturas não seriam imortais por natureza; a imortalidade seria prêmio da obediência; os desobedientes — Satanás incluído, com suas obras — seriam simplesmente destruídos, visitados com a morte. Publicada no jornal oficial, a passagem normalizava para milhares de leitores a ideia de que o fim dos ímpios é deixar de existir.

Figura demoníaca se desmanchando em entulho diante de uma casa rural — ilustração de época em aquarela.
O absurdo
Só Deus seria imortal; a imortalidade seria concedida pela obediência; e a desobediência seria visitada com a morte em cada caso. Ou seja: nem Satanás escaparia — ele seria aniquilado com suas obras, em vez de sofrer o castigo eterno. As palavras exatas do impresso:
"'Somente Deus tem imortalidade' (1 Tim. 6:17); e ele a concede com base no princípio da obediência. A desobediência, que é pecado, ele não tolerará; em cada caso ele a visita com a morte."
Fonte: Signs of the Times, vol. 7, nº 9, 3 de março de 1881 — p. 98.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, edição de 3 de março de 1881, p. 98.
Por que isso é grave
O primeiro dano é direto à Escritura: a Bíblia declara o destino final de Satanás sem ambiguidade — ele será lançado no lago de fogo e enxofre, onde "de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre" (Ap 20:10). Atormentados, não aniquilados. Para todo o sempre, não até se apagarem. A doutrina do jornal contradiz o versículo na lata.
O segundo dano é à doutrina do juízo. Jesus disse que o fogo foi "preparado para o diabo e seus anjos" (Mt 25:41) — e o chamou de "fogo eterno". Fogo eterno que aniquila em vez de atormentar é contradição em termos: se o castigo termina na extinção, não é eterno. O aniquilacionismo esvazia o terror do juízo e, com ele, a seriedade do aviso de Cristo.
O terceiro dano é mais sutil: fazer da imortalidade um prêmio da obediência transforma a vida eterna em salário. Se Deus "concede" imortalidade "com base no princípio da obediência", então a eternidade se conquista — e estamos de volta à salvação por obras, agora disfarçada de escatologia. A Bíblia diz que a vida eterna é dom de Deus (Rm 6:23), não contraprestação por bom comportamento.
E há a simetria perversa da tese: se os ímpios simplesmente deixam de existir, o pecado mais hediondo e a rebelião mais antiga terminam no mesmo nada — o alívio da não-existência. O diabo, que engana as nações há milênios, receberia como "castigo" o descanso da extinção. É a justiça divina reduzida a um desligar de interruptor — e um evangelho que não precisa de cruz, pois não há ira eterna da qual salvar.

Cemitério sob a lua cheia, com capela na colina — arte de época em recorte de papel.
O veredito das Escrituras
Apocalipse 20:10 é o golpe fatal na tese: "E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre." Três marcas de eternidade consciente: atormentados (não extintos), de dia e de noite (sem pausa), para todo o sempre (sem fim). Nenhuma leitura honesta extrai aniquilação desse versículo.
Jesus confirma com as próprias palavras: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos" (Mt 25:41). O fogo é eterno e foi preparado para o diabo — o destino do diabo é o fogo eterno, não a extinção. E o mesmo capítulo contrasta os destinos: "irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt 25:46). O paralelismo é proposital: se a vida dos justos é eterna, o tormento dos ímpios também é.
Apocalipse reforça: "a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite" (Ap 14:11). Fumaça que sobe para sempre pressupõe fogo que nunca se apaga e vítimas que nunca deixam de existir. A Bíblia não conhece aniquilação; conhece castigo consciente e sem fim — por isso mesmo a cruz foi necessária.
Quanto à imortalidade "concedida pela obediência", a Escritura responde que a vida eterna é dom, não salário: "o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 6:23). Dom gratuito — recebido pela fé, não conquistado pela obediência. O jornal trocou o dom pelo prêmio, a graça pelo desempenho, e o tormento eterno pelo nada. Em cada troca, perdeu o evangelho.