Sodoma vira modelo do aniquilacionismo
Loughborough reduz o fogo eterno a cinzas de Sodoma e Gomorra. Mas Judas diz que elas sofreram a pena do fogo eterno, postas por exemplo do juízo final.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 24 de março de 1881, o semanário Signs of the Times — volume 7, número 12, publicado em Oakland, na Califórnia — estampou o artigo "O pecado é eterno?", assinado por J. N. Loughborough, de Southampton, na Inglaterra. O cabeçalho da edição lista como editores James White, J. N. Andrews e Uriah Smith, com J. H. Waggoner como editor residente.
Loughborough responde à pergunta do título com a tese do aniquilacionismo: o pecado não é eterno porque os pecadores não serão punidos eternamente — serão destruídos por completo. A sorte final dos ímpios seria a redução a cinzas, e o "modelo" dessa destruição estaria no Gênesis: Sodoma e Gomorra, consumidas pelo fogo que desceu do céu.
O artigo cita Lucas 17:29-30 — "choveu do céu fogo e enxofre, e destruiu-os a todos" — e 2 Pedro 2:6 — "reduzindo a cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra" — para concluir que o fogo eterno é um fogo que aniquila, não um tormento sem fim. O "eterno", na leitura de Loughborough, descreveria a origem do fogo (que desceu do Eterno), não a duração da pena.
É a velha tentativa de domesticar o inferno: trocar a punição consciente e eterna por uma incineração definitiva, depois da qual nada resta — nem o pecador, nem o sofrimento, nem o problema do mal. O juízo final viraria uma grande queima de lixo cósmica, e a justiça de Deus se satisfaria com cinzas.

Ruínas carbonizadas de quarteirão de tijolos do século XIX após grande incêndio, vigas enegrecidas fumegantes e paredes desabadas — ilustração atmosférica de época.
O absurdo
O truque do artigo está na palavra "exemplo". Pedro diz que Sodoma e Gomorra foram postas "por exemplo" dos que viveriam impiamente — e Loughborough lê "exemplo" como "modelo exato": se as cidades viraram cinzas e o fogo se apagou, então o juízo final também se apaga. Mas um exemplo ilustra, não esgota; a sombra não tem o tamanho do corpo. Sodoma ilustra a certeza do juízo, não o seu limite. Leia as palavras exatas do impresso:
"Obtemos uma visão clara do destino final dos ímpios no caso de Sodoma e Gomorra. ... "Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre, e destruiu-os a todos. Assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar." Lucas 17:29, 30. ... "Reduzindo a cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra, condenou-as à ruína, tornando-as exemplo para os que vivessem impiamente." 2 Pedro 2:6."
Fonte: Signs of the Times, vol. 7, nº 12, 24 de março de 1881 — p. 135.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, edição de 24 de março de 1881, p. 135.
Por que isso é grave
O próprio texto que Loughborough cita o refuta — e ele o cita. Judas, versículo 7, diz que Sodoma e Gomorra "sofreram a pena do fogo eterno, postas por exemplo". O artigo menciona Judas de passagem, mas desvia do ponto: Judas chama de "fogo eterno" exatamente o fogo que caiu sobre as cidades. Se o fogo de Sodoma é "eterno" na boca do apóstolo, então "eterno" não pode significar "fogo que se apaga depois de incinerar". O exemplo prova o contrário do que o artigo quer.
Há também um problema de proporção. Sodoma foi juízo temporal sobre cidades; o juízo final é juízo eterno sobre pessoas. Jesus, no mesmo discurso citado pelo artigo (Lucas 17), fala do dia em que o Filho do homem se manifestará — e em Mateus 25 Ele mesmo define o resultado: "irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt 25:46). O mesmo adjetivo — "eterno" — qualifica o tormento e a vida. Se o tormento dos ímpios é temporário, a vida dos justos também é; o aniquilacionismo, levado a sério, incinera o céu junto com o inferno.
O artigo ainda redefine "vingança do fogo eterno" como mero poder de queimar combustíveis — como se a justiça divina fosse um fenômeno químico. Mas a Bíblia fala do fogo eterno como instrumento de uma Pessoa justa, não como acidente da natureza. A "vingança" pertence ao Senhor; o fogo é servo, não senhor. Reduzir o juízo a combustão é trocar teologia por física.
E o motivo de fundo é sentimental, não exegético: o inferno eterno parece cruel demais, então precisa ser abolido por decreto teológico. Mas quem define a justiça de Deus não é a nossa sensibilidade — é a Sua santidade. Um Deus que considera o pecado tão levianamente a ponto de resolvê-lo com cinzas não é mais misericordioso; é apenas menor. A cruz mostra o contrário: o pecado foi tão grave que custou o sangue do Filho. Quem acha o inferno exagerado ainda não entendeu a cruz.

Rua coberta de cinzas de cidade americana do século XIX após grande incêndio, vitrines arruinadas e lampião enegrecido — ilustração atmosférica de época.
O veredito das Escrituras
Jesus não deixou margem para o aniquilacionismo: "irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt 25:46). O paralelismo é intencional e inquebrável — a mesma palavra grega mede as duas eternidades. Quem corta a duração do tormento corta, com a mesma tesoura, a duração da vida. O artigo quer um inferno temporário com um céu eterno; o texto oferece os dois eternos ou nenhum.
O Apocalipse descreve a cena final sem anestesia: "o fumo do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite" (Ap 14:11). Fumo que sobe "para todo o sempre", sem repouso dia nem noite — isso não é cinza fria de cidade apagada, é tormento contínuo e consciente. E sobre a besta, o falso profeta e o diabo: "serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos" (Ap 20:10). Séculos dos séculos não é linguagem de incineração rápida.
Judas, citado pelo próprio artigo, sela o caso: Sodoma e Gomorra sofreram "a pena do fogo eterno" (Jd 7). O fogo que caiu sobre as cidades é chamado de eterno pelo apóstolo — não porque as chamas ainda ardam na planície, mas porque o juízo que ele anuncia é o eterno. Loughborough usou Judas como testemunha; Judas depõe contra ele.
Quanto ao "exemplo" de Pedro, a Escritura o explica: as cidades foram postas por exemplo "para os que vivessem impiamente" (2Pe 2:6) — exemplo da certeza e da severidade do juízo, não do seu prazo de validade. O dilúvio também foi exemplo, e nem por isso o juízo final será uma enchente. Exemplos ilustram o caráter de Deus, não o cronômetro do inferno. Sodoma prova que Deus julga; não prova que Ele apaga.