Cristologia

Cristo deixará de ser mediador

Pack anuncia que, selados os 144.000, Cristo deixa de ser mediador e sacerdote. Mas a Escritura afirma que Ele vive sempre para interceder pelos que se chegam a Deus.

Por Rodrigo Custódio ·

Cristo deixará de ser mediador

O momento

Na quinta-feira, 7 de abril de 1881, o semanário Signs of the Times chegava aos leitores de Oakland, na Califórnia, com mais um sermão impresso na página 160: "Uma Fome Iminente", assinado por Samuel W. Pack. Era a edição número 14 do sétimo volume do jornal que, semana após semana, formava a teologia do movimento adventista — e o tema desta vez era o dia em que Cristo deixaria de interceder pelos pecadores.

O cabeçalho da edição lista como editores James White, J. N. Andrews e Uriah Smith, com J. H. Waggoner como editor residente; o jornal era publicado semanalmente pela Sociedade Missionária dos Adventistas do Sétimo Dia. Nada do que ali se ensinava era opinião isolada de um colaborador: era a voz oficial do periódico, com a doutrina exposta diante de todos os leitores como verdade presente.

Pack abre o artigo com Amós 8:11-12 — a profecia de que viriam dias em que Deus enviaria "fome sobre a terra, não de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor" — e afirma que a profecia está prestes a se cumprir. A prova, para ele, é o esquema de 1844: naquele ano Cristo teria passado do lugar santo para o lugar santíssimo do santuário celestial, com o próprio sangue e o peitoral do juízo, dando início ao que ele chama de "juízo investigativo" — pelo qual, desde então, Cristo estaria decidindo quem é digno da vida eterna.

O artigo, porém, reserva o golpe para o desfecho do processo: selados os 144.000 nas testas com o selo do Deus vivo (Ap 7), Cristo "deixará de atuar como nosso mediador e sacerdote". Ele despirá as vestes sacerdotais e vestirá as vestes de realeza, para reger as nações com vara de ferro (Sl 2:7-9); então serão enviadas as sete últimas pragas — "a ira de Deus sem mistura, ou ira sem misericórdia" — e "não haverá mais misericórdia para os pecadores".

Interior vazio de uma igreja do século XIX, com altar de pedra e púlpito vago sob a luz da manhã

Interior de igreja do século XIX com altar de pedra e púlpito vazio sob a luz da manhã — ilustração atmosférica sobre o fim da mediação.

O absurdo

Numa única frase, Pack dá prazo de validade ao sacerdócio de Cristo: enquanto Ele é "nosso mediador", a misericórdia de Deus continua; selados os 144.000, a mediação cessa — e com ela cessa a misericórdia. Leia as palavras exatas do impresso:

"assim que os cento e quarenta e quatro mil forem selados nas suas testas com o selo do Deus vivo, Ap. 7, Cristo deixará de atuar como nosso mediador e sacerdote"

Fonte: Signs of the Times, vol. 7, nº 14, 7 de abril de 1881 — p. 160.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, edição de 7 de abril de 1881, p. 160.

Por que isso é grave

Um mediador com data para se aposentar transforma a graça em produto perecível. Se a intercessão de Cristo expira quando os 144.000 forem selados, então a salvação deixa de repousar na obra consumada do Calvário e passa a depender de um calendário: antes do selamento, há Advogado; depois, não há mais a quem recorrer. O crente que pecar um dia depois do prazo descobrirá que o céu fechou o atendimento — e nenhuma oração atravessa mais o véu.

O próprio artigo desenha esse cenário sem piedade: quando Cristo deixar a posição de intercessor, "o povo não saberá onde procurá-lo; ele não será mais nosso intercessor; e como ninguém pode aproximar-se do Pai senão por ele, suas orações e súplicas não serão ouvidas". Pense no peso disso: um Deus que planeja um futuro em que os pecadores clamam e Ele decidiu de antemão não ouvir. Isso não é o Pai das Escrituras, que "está perto de todos os que o invocam" (Sl 145:18); é um carrasco teológico inventado para dar susto no leitor.

E há a aritmética cruel do esquema: a "fome" da profecia de Amós — que no texto bíblico é juízo sobre um povo rebelde — vira aqui o destino programado de quem não se converter a tempo. Os que "não tiverem achado a palavra do Senhor antes do derramamento das sete últimas pragas não a acharão depois". A mensagem deixa de ser "arrependei-vos e crede" e passa a ser "apressai-vos antes que o Mediador peça demissão": evangelismo por pânico de prazo, não por convicção de pecado.

Por fim, o quadro destrói a própria ideia de sacerdócio eterno. Um sacerdote que um dia pendura as vestes para nunca mais vesti-las não é o sumo sacerdote "segundo a ordem de Melquisedeque" (Sl 110:4; Hb 7:17), cujo sacerdócio é justamente o que não passa de um para outro. Pack precisa de um Cristo que se aposenta porque precisa de um céu onde a data de 1844 continue fazendo sentido — e, no caminho, oferece aos leitores um Salvador descartável.

Balcão de correios do século XIX após o expediente, com caixas postais trancadas e cartas não reclamadas

Balcão de correios do século XIX após o expediente: caixas trancadas e cartas jamais reclamadas — como as orações que, para o jornal, ficariam sem resposta.

O veredito das Escrituras

A Escritura não conhece aposentadoria para o sacerdócio de Cristo. "Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem" (1Tm 2:5) — um só, sem sucessor e sem prazo. E Hebreus declara o porquê: "ele permanece para sempre" e por isso "pode salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles" (Hb 7:24-25). "Vivendo sempre" não admite intervalo: a intercessão de Cristo é tão contínua quanto a sua vida ressurreta.

João escreve aos crentes exatamente para o caso que Pack declara sem remédio: "Filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo" (1Jo 2:1). Temos — presente, agora, sempre. Um Advogado que abandona a causa no meio do processo não é advogado; e o Cristo da Bíblia jamais abandona os seus: "eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão" (Jo 10:28).

Quanto ao juízo, a Bíblia o situa no futuro como ato único e definitivo — "aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo" (Hb 9:27) — e não como auditoria em curso desde 1844 seguida da aposentadoria do Juiz. Não existe nas Escrituras nenhum período em que "não haverá mais misericórdia para os pecadores" enquanto o mundo ainda está de pé; pelo contrário, "eis agora o tempo aceitável, eis agora o dia da salvação" (2Co 6:2), e as misericórdias do Senhor "se renovam cada manhã" (Lm 3:22-23).

E a certeza que o artigo rouba é a que o evangelho entrega de graça: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2:8-9). Romanos 8:1 decreta que "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" — nenhuma, em nenhum calendário. O Mediador não pede demissão, o Sacerdote não pendura as vestes, e nenhum selamento apaga a promessa: Cristo vive sempre para interceder.

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