A lei condenatória no sermão do monte
Ellen White faz do sermão do monte o tribunal da lei moral: o desobediente seria condenado por Cristo. Mas Ele veio cumprir a lei — e o fim da lei é Cristo para justiça do que crê.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 5 de maio de 1881, o semanário Signs of the Times, fundado por James White e publicado em Oakland, na Califórnia, trazia na página 197 a seção da Escola Sabatina. O cabeçalho anunciava: "Lição para a Costa do Pacífico — 8 de maio. O sermão do monte. Mateus 5:13-27. Comentários da lição". Era a preparação semanal dos membros para o estudo do sábado seguinte — e a doutrina vinha embutida no material de estudo.
Os comentários são assinados "J. N. A." — J. N. Andrews, um dos editores correspondentes do jornal — com a indicação "Basileia, dezembro de 1880". Andrews servia então na missão europeia, na Suíça, de onde remetia colaborações regulares. A lição, portanto, não era improviso local: vinha da pena de um dos principais teólogos do movimento, escrita na sede da missão do continente europeu.
Comentando Mateus 5, os comentários recorrem a Ellen White como autoridade exegética. Citando o "Espírito de Profecia", vol. 2, páginas 214, 215 e 218, declaram que a missão de Cristo ao mundo seria "vindicar as reivindicações daquela lei sagrada" que o acusavam de transgredir. E avançam a tese que sustentaria todo o edifício legalista: se a lei de Deus pudesse ter sido mudada ou abolida, Cristo não precisaria ter vindo a um mundo caído para sofrer a consequência da transgressão do homem.
O texto ainda amarra Mateus 5:19 — "qualquer que violar um destes menores mandamentos e assim ensinar aos homens será chamado o menor no reino dos céus" — à conclusão de Ellen White: "Assim declarou o Salvador a validade da lei moral. Aqueles que desobedecem aos mandamentos de Deus e ensinam outros a fazer o mesmo pelo seu exemplo e doutrina são condenados por Cristo." O sermão do monte, o maior discurso de graça de Jesus, vira código penal: a lei permanece válida, e quem a desobedece é condenado pelo próprio Cristo.

Monte rochoso com ovelhas pastando em gravura do século XIX — ilustração atmosférica de época.
O absurdo
A lei moral é declarada permanentemente válida, e a desobediência a ela, crime julgado pelo próprio Cristo — que, em vez de Salvador, aparece no texto como o juiz que condena. O argumento ainda inverte a cruz: se a lei pudesse ser alterada, Cristo não precisaria ter vindo — ou seja, o Calvário existiria para provar que a lei é intocável, não para libertar o pecador dela. Leia as palavras exatas do impresso:
"Assim declarou o Salvador a validade da lei moral. Aqueles que desobedecem aos mandamentos de Deus e ensinam outros a fazer o mesmo pelo seu exemplo e doutrina são condenados por Cristo. — Espírito de Profecia, Vol. 2, pp. 214, 215, 218."
Fonte: Signs of the Times, vol. 7, nº 17, 5 de maio de 1881 — p. 197.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, edição de 5 de maio de 1881, p. 197.
Por que isso é grave
O raciocínio do artigo tropeça na própria lógica. "Se a lei pudesse ter sido mudada ou abolida, Cristo não precisaria ter vindo" — mas a Escritura diz exatamente o contrário: Cristo precisou vir porque a lei não podia salvar. "Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado" (Rm 3:20): a lei diagnostica, não cura. A cruz não prova que a lei é intocável; prova que o homem é incurável pela lei, e que Deus precisou fazer o que a lei jamais faria — justificar o ímpio pela fé.
Há ainda a inversão de papéis imposta a Cristo. O texto o apresenta "vindicando as reivindicações" da lei e condenando os desobedientes — mas Jesus declarou: "eu não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo" (Jo 12:47). Transformar o Salvador em promotor da lei é trocar o evangelho de lugar: em vez de o pecador ser salvo da condenação da lei, o pecador é condenado por Cristo em nome da lei. É o evangelho de cabeça para baixo.
E a sentença do artigo não poupa ninguém — nem os seus próprios leitores. "Aqueles que desobedecem aos mandamentos de Deus... são condenados por Cristo": ora, "todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3:23). Se a desobediência a qualquer mandamento atrai a condenação de Cristo, então todo leitor da lição, todo professor da Escola Sabatina, todo o movimento está condenado — porque ninguém guarda a lei. A doutrina que prometia exaltar a lei termina condenando os seus próprios defensores.
O método é tão grave quanto a tese: a Bíblia é interpretada por Ellen White, e a citação dela encerra o debate. O "Espírito de Profecia" não ilustra o texto — ele o define. Quando a lição precisa dizer o que Mateus 5 significa, não recorre aos apóstolos nem ao contexto: recorre às páginas 214, 215 e 218 de um livro de 1877. A autoridade final do estudo bíblico deixa de ser a Escritura e passa a ser a profetisa do movimento.

Corredor de prisão com celas trancadas a cadeado em ilustração de época — a lei transformada em cárcere, imagem atmosférica.
O veredito das Escrituras
Cristo definiu a sua relação com a lei antes que qualquer comentador o fizesse: "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir" (Mt 5:17). Ele veio cumprir — e cumpriu. Por isso Paulo pode escrever: "o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê" (Rm 10:4). Fim, aqui, é alvo alcançado e etapa encerrada: a lei conduzia a Cristo, e em Cristo ela encontra o seu cumprimento. O crente não vive mais debaixo da lei como carrasco; vive debaixo da graça como filho.
O sermão do monte não contradiz isso — confirma. Quando Jesus diz "ouvistes que foi dito... eu, porém, vos digo", Ele aprofunda a lei até o impossível: "sede vós perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus" (Mt 5:48). Nenhum ouvinte sai do monte confiante no próprio desempenho; todos saem esmagados pelo padrão — e é exatamente esse o propósito. A lei foi o nosso "aio", o tutor que nos conduziu a Cristo; "mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio" (Gl 3:25). O sermão expõe a falência para levar a Cristo, não para condenar por Ele.
Quanto à condenação, a Escritura é direta e contradiz o artigo frontalmente: "Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rm 8:1). O texto da lição diz que os desobedientes "são condenados por Cristo"; o apóstolo diz que não há condenação alguma para quem está nele. As duas frases não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo — e a do apóstolo é Escritura.
E João resume a dispensação inteira numa frase que o legalismo não consegue contornar: "a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo" (Jo 1:17). O sermão do monte é a carta magna do reino da graça — bem-aventurados os pobres em espírito, os que choram, os mansos — não um Sinai reeditado com trovões. Usá-lo como tribunal da lei é pregar Moisés no monte das bem-aventuranças.