Ímpios destruídos até sumir: fim do inferno
Loughborough prega que os ímpios não sofrerão tormento consciente eterno, mas serão totalmente destruídos, reduzindo o fogo eterno a mera aniquilação sem dor.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 2 de junho de 1881, o semanário Signs of the Times, fundado por James White e publicado em Oakland, na Califórnia, estampava na página 242 o terceiro capítulo da série "O pecado é eterno?". A edição era o volume 7, número 21 — e o autor, J. N. Loughborough, escrevendo de Southampton, na Inglaterra, ensinava sem rodeios o aniquilacionismo: os ímpios não sofreriam tormento consciente eterno; seriam simplesmente destruídos até deixar de existir.
A série já vinha de longe. O artigo abre lembrando que os capítulos anteriores haviam apresentado "testemunho das Escrituras" sobre o destino dos ímpios — e o terceiro entrega a conclusão do raciocínio: tomando "a construção literal destes e de textos semelhantes", os justos teriam por fim "um reino de felicidade eterna nesta terra renovada", mas os ímpios seriam "totalmente destruídos". O inferno, nessa teologia, não é lugar de castigo: é um processo de eliminação.
Para sustentar a tese, Loughborough recorre ao Salmo 37 — "os transgressores serão destruídos juntamente; o fim dos ímpios será cortado" — e ao profeta Naum, na profecia contra Nínive, com a descrição da vinda de Deus em juízo: montes que tremem, terra queimada na sua presença, fúria derramada como fogo. As imagens de destruição dos juízos temporais do Antigo Testamento são tomadas como retrato do juízo final: o que Deus fez com cidades ímpias, fará com os ímpios — destruição completa, sem resto e sem retorno.
O detalhe que revela o método está na moldura do artigo: ele se apresenta como leitura "literal" das Escrituras. A literalidade, porém, é seletiva — os textos de destruição são lidos ao pé da letra, enquanto os textos que falam de tormento eterno e consciente serão, nos capítulos seguintes da série, reinterpretados até caber na tese. O resultado é um inferno esvaziado por exegese: o fogo queima, os ímpios somem, e ninguém sofre para sempre.

Forja de ferreiro em gravura do século XIX, com bigorna, ferramentas e brasas — ilustração atmosférica.
O absurdo
O inferno é desligado por decreto: os ímpios não serão punidos para sempre — serão queimados até sumir, "totalmente destruídos", deixando de existir. O fogo eterno vira apenas o incinerador final da história, e a justiça de Deus, uma faxina cósmica sem dor e sem memória. Leia as palavras exatas do impresso:
"Se tomarmos a construção literal destes e de textos semelhantes, parece que os justos terão, por fim, um reino de felicidade eterna nesta terra renovada; mas que os ímpios serão totalmente destruídos."
Fonte: Signs of the Times, vol. 7, nº 21, 2 de junho de 1881 — p. 242.

Recorte grifado da página 242 com o trecho citado, edição de 2 de junho de 1881 — marca-texto sobre o original.
Por que isso é grave
A primeira vítima do aniquilacionismo é a seriedade do pecado. Se o destino final do ímpio é simplesmente deixar de existir — um apagão indolor após a queima —, então a rebelião contra o Deus santo termina em nada, literalmente. Não há proporção entre a ofensa e a pena: o pecador que desprezou a graça a vida inteira recebe, no fim, o mesmo que receberia se nunca tivesse existido. A justiça divina é reduzida a uma operação de limpeza, e o juízo final, a um descarte.
A segunda vítima é a urgência do evangelho. Jesus pregou o inferno como motivo para temer, fugir e arrepender-se — "temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno". Se o inferno é apenas aniquilação, o aviso perde o gume: por que tremer diante de um fogo que só apaga? O aniquilacionismo produz ouvintes tranquilos, não pecadores arrependidos — e um evangelho sem urgência é um evangelho sem conversões.
Há ainda a aritmética moral do absurdo. Na tese de Loughborough, o justo recebe "felicidade eterna" — infinita, sem fim — enquanto o ímpio recebe destruição — finita, com fim. O bem é eterno e o mal é temporário; a recompensa não tem limite e o castigo tem prazo. Mas a Bíblia usa a mesma palavra — eterno — para os dois destinos, na mesma frase, no mesmo versículo. Para sustentar a assimetria, o artigo precisa que "eterno" signifique duas coisas diferentes conforme o parágrafo — e uma palavra que muda de sentido por conveniência não significa mais nada.
E o método trai a si mesmo na moldura: o artigo se diz "literal". Mas a literalidade que destrói os ímpios é a mesma que, aplicada aos textos do tormento eterno, teria de concluir o contrário — por isso esses textos precisarão ser reinterpretados nos capítulos seguintes. Literal quando convém, figurado quando aperta: não é exegese, é marcenaria teológica, serrando cada texto até ele caber no móvel pronto da doutrina.

Fogueira se apagando à noite em arte de papel recortado, com espiral de fumaça sobre as montanhas — ilustração atmosférica.
O veredito das Escrituras
Jesus não deixou margem para a aniquilação — e usou a mesma palavra para os dois destinos: "E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt 25:46). O mesmo adjetivo qualifica o tormento e a vida, na mesma frase, no mesmo versículo. Se a vida dos justos não tem fim, o tormento dos ímpios tampouco tem — a gramática não permite que "eterno" signifique "sem fim" para uns e "com fim" para outros. Quem corta o inferno pela metade corta o céu junto.
Daniel já havia estabelecido o paralelismo séculos antes: muitos ressuscitarão "para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno" (Dn 12:2). Vergonha e desprezo eternos pressupõem quem sinta vergonha e desprezo — não há vergonha sem consciência, nem desprezo sem quem o experimente. Aniquilados não sentem vergonha; só seres conscientes, existindo, podem carregar desprezo eterno.
O Apocalipse descreve o destino final com tormento consciente e sem fim, sem deixar espaço para o apagão: "serão atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos" (Ap 20:10). E ainda: "a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite" (Ap 14:11). Atormentados — particípio presente, ação contínua. Dia e noite — sem intervalo. Pelos séculos dos séculos — sem término. Não há "deixar de existir" nesse quadro: há existência consciente sob juízo, para sempre.
Quanto aos textos de "destruição" citados pelo artigo, a Bíblia os usa no sentido de ruína — perda total do bem, não cessação da existência. O filho pródigo estava "morto e perdido", e voltou vivo; estava destruído, não aniquilado. Sodoma sofreu "o castigo do fogo eterno" (Jd 7) como exemplo — exemplo de juízo, não de apagão. Destruição, nas Escrituras, é o oposto da salvação: ruína completa da pessoa, consciente dela. O inferno não é o lugar onde os ímpios deixam de existir — é o lugar onde passam a existir para sempre sob a ira justa de Deus, da qual só a cruz livra.