Deus pode "descriar" quem falhar na provação
Andrews ensina que a imortalidade não foi dada na criação e que Deus pode apagar os perdidos da existência, negando o juízo consciente e eterno que a Bíblia afirma.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 16 de junho de 1881, o semanário Signs of the Times, publicado em Oakland, na Califórnia, pela sociedade missionária adventista, trazia no volume 7, número 23, mais um artigo doutrinário de peso. Na página 271, sob o título "O propósito de Deus ao criar o homem", a assinatura "J. N. A." fechava o texto — J. N. Andrews, um dos principais teólogos do movimento, expondo sem rodeios o mortalismo condicional adventista.
O argumento parte de uma premissa verdadeira para chegar a uma conclusão falsa. Andrews lembra que Deus criou o homem para o seu prazer, citando Apocalipse 4:10-11, e que a imensa maioria da humanidade fracassou: Adão e Eva rebelaram-se, Caim foi assassino, só uma família escapou do dilúvio, e desde os dias de Noé "a verdade e a justiça têm estado em minoria". Diante desse fracasso generalizado, o autor conclui que o homem precisava ser posto à prova, e que só um número suficiente de remidos encheria, ao final, a casa de Deus.
É então que vem o salto lógico. Se Deus tivesse dado ao homem, na criação, uma existência absolutamente interminável, Ele teria — nas palavras do artigo — "amarrado às próprias mãos": seria forçado a tolerar que os perdidos continuassem para sempre na sua "imortalidade de maldade". Para Andrews, isso seria absurdo, e até tolice atribuída a Deus. A saída que ele propõe: a imortalidade jamais foi dada na criação; ela fica retida até o fim da provação e é concedida depois, como dádiva, somente aos aprovados.
A conclusão é dita sem disfarce: "Aquele que criou, se julgar conveniente, pode descriar; e Aquele que deu ao homem existência para certo propósito pode tirar essa existência se esse propósito não for alcançado". O homem vira um rascunho descartável nas mãos do Criador: quem não passar no teste não será julgado para sempre — será simplesmente apagado da existência.

Oficina de oleiro do século XIX, com prateleiras de vasos de barro e a roda do oleiro — ilustração atmosférica de época.
O absurdo
Deus como autor de criaturas descartáveis: a alma humana não teria recebido existência duradoura, e o Criador poderia simplesmente "descriar" os que falhassem na provação — como quem amassa o barro de volta e joga fora o vaso. Leia as palavras exatas do impresso, em tradução:
"É razoável afirmar, o que as Escrituras certamente jamais afirmam, que Deus deu ao homem uma existência absolutamente interminável quando o criou, e então o pôs à prova para ver se ele responderia ao propósito para o qual foi criado? ... Devemos concluir que Aquele que criou, se julgar conveniente, pode descriar; e que Aquele que deu ao homem existência para certo propósito pode tirar essa existência se esse propósito não for alcançado."
Fonte: Signs of the Times, vol. 7, nº 23, 16 de junho de 1881 — p. 271.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, edição de 16 de junho de 1881, p. 271.
Por que isso é grave
A doutrina rebaixa a imagem de Deus no homem. Criado à imagem e semelhança do Criador, o ser humano vira no artigo um experimento condicional: existe por empréstimo, e o empréstimo pode ser cobrado com a própria existência. Deus deixa de ser o Juiz que retribui a cada um segundo as suas obras e vira um oleiro impaciente: em vez de julgar o vaso defeituoso, simplesmente o desfaz. A Escritura nunca apresenta o juízo final como reciclagem de barro, mas como retribuição consciente e pessoal.
O juízo é esvaziado por dentro. Se o ímpio deixa de existir, não há castigo consciente nem eterno — há apenas o nada. Ora, o próprio artigo diz que a justiça de Deus "exige que o pecado seja adequadamente punido" — mas que punição é essa que consiste em apagar o punido? A Bíblia fala de "vergonha e desprezo eterno" (Dn 12:2) e de um tormento cuja "fumaça sobe para todo o sempre" (Ap 14:11) — linguagem de duração consciente, não de apagamento. Aniquilar o réu não é puni-lo; é livrá-lo do castigo.
Há ainda a inversão da lógica das palavras de Jesus. Em Mateus 25:46, o mesmo adjetivo "eterno" qualifica os dois destinos na mesma sentença: "irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna". Se o "eterno" dos ímpios significa apenas "temporário, até serem apagados", então o "eterno" dos justos cai junto — é a mesma palavra, na mesma frase, na mesma boca. O aniquilacionismo serra o galho onde se senta: para encurtar o inferno, precisa encurtar o céu.
E o efeito pastoral é devastador nos dois sentidos. "Fugi da ira vindoura" perde o sentido se a ira vindoura é o nada: tirar o peso da eternidade do ímpio é tirar a urgência do evangelho. E tira também a seriedade da cruz: se o pior que aguardava o pecador fosse apenas deixar de existir, por que o Filho de Deus precisaria sofrer o abandono, a vergonha e a morte para livrá-lo? A cruz pressupõe um abismo real — e o artigo o preenche com vazio.

Gravura de época mostrando a roda de oleiro com um vaso em formação — ilustração atmosférica.
O veredito das Escrituras
O pregador declara o destino do homem sem margem para apagamento: "o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu" (Ec 12:7). O espírito volta a Deus — não é desfeito nem "descriado". Deus recebe de volta o que deu. A existência humana tem um destino diante do Criador, não um botão de desfazer nas mãos dele.
Daniel confirma que a existência continua dos dois lados da ressurreição: "muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno" (Dn 12:2). Vergonha eterna pressupõe consciência eterna; desprezo eterno pressupõe existência eterna. Ninguém sente vergonha sem existir, ninguém é objeto de desprezo sem estar lá. Os ímpios ressuscitam — e continuam.
Jesus fecha a questão com o paralelismo que o artigo não pode sustentar: "E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt 25:46). O mesmo "eterno" — aionios — para o tormento e para a vida, na mesma sentença. Encurtar um é encurtar o outro, e nenhum adventista está disposto a encurtar a vida eterna dos justos. A simetria das palavras de Cristo destrói a tese do apagamento: o inferno dura o mesmo "para sempre" que o céu.
E quanto ao verbo "destruir", que os aniquilacionistas brandem a partir de Mateus 10:28 — "aquele que pode destruir no inferno tanto a alma como o corpo" —, o grego apollymi não significa deixar de existir. É o verbo da ovelha, da dracma e do filho perdidos em Lucas 15: perdidos, arruinados, afastados — mas existentes. A "destruição eterna" de 2 Tessalonicenses 1:9 é explicada no próprio versículo: "banidos da face do Senhor" — exclusão consciente e permanente da presença de Deus, não apagamento. Deus não "descria" ninguém: Ele julga, e o juízo é consciente, pessoal e sem fim.