Perecer virou deixar de existir para sempre
Loughborough ensina que só os justos terão existência consciente eterna e que os ímpios perecerão até a extinção, negando o tormento consciente em nome da justiça.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 23 de junho de 1881, o semanário Signs of the Times, publicado em Oakland, na Califórnia, trazia no volume 7, número 24, o sexto capítulo da série "O pecado é eterno?". Na página 278, J. N. Loughborough — apresentado no cabeçalho como sendo de Southampton, na Inglaterra — assinava o artigo que levaria o aniquilacionismo adventista à sua formulação mais crua: os ímpios não sofreriam para sempre; eles simplesmente deixariam de existir.
O ponto de partida do texto é uma observação verdadeira. Loughborough nota que "há muita indagação no tempo presente" sobre o tema e que muitos estão repudiando a doutrina do tormento eterno consciente para os ímpios. Parte deles, diz o autor, aceita "a doutrina bíblica de nenhuma vida eterna fora de Cristo", enquanto outros querem provar, por vários caminhos, que toda a humanidade será salva. O artigo se propõe a responder com as Escrituras — e é exatamente aí que a resposta descamba para a heresia.
O argumento central é simples e, à primeira vista, piedoso: a vida eterna seria somente para quem crê; os demais "perecerão". O autor empilha textos para sustentar a tese: só Deus "tem imortalidade" (1 Tm 6:16); "daqui a pouco não existirá o ímpio" (Sl 37:10); os termos "imortal" e "imortalidade" jamais se aplicariam aos ímpios nem ao seu destino final. E então vem a conclusão lógica do sistema: se "vida" significa existência consciente, somente os justos terão existência consciente eterna.
A sentença final é impressa sem eufemismo na passagem que destacamos: os ímpios "perecerão e se tornarão extintos — 'Como se nunca tivessem existido'", citando Obadias 16. Nada de castigo eterno, nada de tormento consciente: extinção. O ímpio não sofre para sempre — ele some, como se jamais tivesse nascido, como pegadas que o vento apaga da areia.

Gravura de deserto com pegadas que se apagam na areia sob o vento — ilustração atmosférica de época.
O absurdo
Perecer vira sinônimo de nunca ter existido: para o jornal, a "vida" prometida no Novo Testamento seria existência consciente, de modo que só os justos existiriam para sempre — e os ímpios seriam extintos até o apagamento total, "como se nunca tivessem existido". Leia as palavras exatas do impresso, em tradução:
"não há proposição mais claramente declarada no Novo Testamento do que a de que os que creem em Cristo hão de obter a vida eterna, enquanto os que não creem nele não terão essa vida, mas perecerão. Se interpretarmos essa vida como significando existência consciente, então somente os justos terão existência consciente eterna, enquanto os ímpios perecerão e se tornarão extintos — 'Como se nunca tivessem existido.' Obad. 16."
Fonte: Signs of the Times, vol. 7, nº 24, 23 de junho de 1881 — p. 278.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, edição de 23 de junho de 1881, p. 278.
Por que isso é grave
A doutrina esvazia a justiça de Deus por dentro. A Bíblia apresenta o juízo final como retribuição consciente e pessoal — Deus "dará a cada um segundo as suas obras" —, mas o artigo troca a retribuição por um apagamento administrativo: o réu não é punido, é deletado. Ora, apagar o condenado não é fazer justiça; é dispensá-lo dela. Um tribunal que dissolve os réus em vez de sentenciá-los não é mais severo nem mais misericordioso — é apenas outro tribunal, com outro deus.
O texto ainda contradiz frontalmente as palavras de Jesus sobre a duração consciente do castigo. Em Mateus 25:46, o mesmo adjetivo "eterno" qualifica os dois destinos: "irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna". O Apocalipse fala de um tormento cuja "fumaça sobe para todo o sempre" (Ap 14:11) e de condenados que "serão atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos" (Ap 20:10). Fumaça que sobe para sempre pressupõe fogo que não se apaga; tormento dia e noite pressupõe alguém consciente para sofrê-lo.
Há também a deturpação do verbo "perecer". Na Bíblia, perecer não significa deixar de existir: a ovelha perdida estava perecida — e continuava existindo, perdida, até ser encontrada; o filho pródigo estava "perdido" — e estava vivo, numa terra distante. Perecer é ruína, perdição, estar perdido — não aniquilação. Quando João escreve que Deus amou o mundo "para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3:16), o contraste não é entre existir e não existir, mas entre a perdição consciente e a vida plena.
E a citação de Obadias 16 é arrancada do seu contexto com tesoura exegética. O profeta anuncia o juízo sobre Edom como nação: os edomitas beberiam o cálice da ira e seriam "como se nunca tivessem existido" — isto é, Edom deixaria de existir como povo, como reino, como nome entre as nações. É linguagem de juízo histórico nacional, não de metafísica da alma. Usar a queda de um reino antigo para apagar a eternidade do inferno é fazer o texto dizer o que ele jamais disse.

Deserto com bússola quebrada e pegadas se desfazendo ao vento — ilustração atmosférica.
O veredito das Escrituras
João declara o destino de quem não crê no presente contínuo: "a ira de Deus sobre ele permanece" (Jo 3:36). Permanece — não se dissipa, não se apaga, não se extingue com o suposto fim da existência do ímpio. A ira permanece porque o objeto da ira permanece: o pecador continua existindo debaixo dela. Extinção seria alívio, não ira.
Daniel reforça com a ressurreição dos dois lados: "muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno" (Dn 12:2). Vergonha eterna exige consciência eterna; desprezo eterno exige existência eterna. Os ímpios ressuscitam — e continuam, sentindo para sempre a vergonha do que fizeram com a graça que rejeitaram.
Jesus fecha a questão com o paralelismo que o aniquilacionismo não pode sustentar: "E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt 25:46). É a mesma palavra — aionios — para o tormento e para a vida, na mesma sentença, na mesma boca. Encurtar o inferno é encurtar o céu com a mesma tesoura, e ninguém que ame o evangelho aceita essa troca.
E o Apocalipse descreve o destino final com uma precisão que não deixa espaço para o apagamento: "serão atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos" (Ap 20:10). Quem é atormentado existe; quem é atormentado dia e noite está consciente sem interrupção; "pelos séculos dos séculos" não admite ponto final. A Bíblia não conhece ímpio extinto — conhece ímpio julgado, consciente e eternamente separado de Deus. É exatamente isso que torna a cruz tão urgente e a graça tão preciosa.