Negam que a justiça de Cristo seja imputada
O jornal cita Adam Clarke para negar que a justiça de Cristo seja imputada ao crente, golpeando o coração da justificação pela fé ensinada pelo apóstolo Paulo.
Por Rodrigo Custódio ·
O momento
Na quinta-feira, 14 de julho de 1881, o Signs of the Times de Oakland, na Califórnia, trazia no volume 7, número 26, página 303, uma seção intitulada "A lei moral". Ali, sob a autoridade de um nome respeitado — "o Dr. Adam Clarke fala assim das Escrituras" — o jornal publicava, com aprovação evidente, uma sentença teológica devastadora contra o coração da justificação pela fé.
A sentença, em tradução: "Dizer que a justiça pessoal de Cristo é imputada a todo crente verdadeiro não é escriturístico; dizer que ele cumpriu toda a justiça por nós, ou em nosso lugar, se por isso se entende o cumprimento de todos os deveres morais, não é escriturístico nem verdadeiro." E o contexto revela o motivo: "há uma multidão de deveres que a lei moral exige, os quais Cristo nunca cumpriu em nosso lugar, e nunca poderia". A tese é clara: Cristo morreu por nós, mas não obedeceu por nós.
Note o método: em vez de dizer em voz própria, o jornal toma emprestada a voz de Clarke — metodista, comentarista respeitado, morto havia quase cinquenta anos. É a terceirização da heresia: a tese polêmica vem assinada por outro, e o jornal apenas "cita". Mas citar com aprovação é endossar; publicar sem uma linha de refutação é pregar. O leitor de 1881 recebia a negação da imputação embrulhada em autoridade alheia.
E o alvo é o coração do evangelho: a imputação. Se a justiça pessoal de Cristo não é imputada ao crente, resta ao pecador apresentar a sua própria — e a "multidão de deveres" que Cristo "nunca cumpriu em nosso lugar" terá de ser cumprida por nós, um a um. A graça vira auxílio para a tarefa; a salvação, tarefa assistida. O evangelho de graça vira evangelho de prestação.

Balança de boticário com pesos sobre o balcão de madeira — gravura de época.
O absurdo
O jornal usa a autoridade de Adam Clarke para decretar que a imputação da justiça de Cristo "não é escriturística" — a palavra exata que Paulo usa em Romanos 4:5. Cristo teria morrido em nosso lugar, mas não vivido em nosso lugar; a Sua obediência não nos cobre, e cada dever moral continua pendente sobre a nossa cabeça. Leia as palavras exatas do impresso, em tradução:
"Dizer que a justiça pessoal de Cristo é imputada a todo crente verdadeiro não é escriturístico; dizer que ele cumpriu toda a justiça por nós, ou em nosso lugar, se por isso se entende o cumprimento de todos os deveres morais, não é escriturístico nem verdadeiro"
Fonte: Signs of the Times, vol. 7, nº 26, 14 de julho de 1881 — p. 303.

Recorte grifado da página impressa com o trecho citado, edição de 14 de julho de 1881, p. 303.
Por que isso é grave
Paulo usa a palavra exata que o jornal declara não-escriturística: "àquele que não pratica, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça" (Rm 4:5). Imputada — o verbo grego está no texto inspirado, aplicado à justificação do ímpio que crê. Dizer que a doutrina "não é escriturística" quando a Escritura a formula com o próprio termo é contradizer a Bíblia citando um comentarista. Entre Clarke citado e Paulo inspirado, o cristão não hesita.
A tese separa o que Deus uniu: a morte substitutiva, sim; a obediência substitutiva, não. Mas foi a vida obediente que qualificou o sacrifício — sem a obediência perfeita, a morte na cruz seria a de um pecador comum, incapaz de levar pecados alheios. "Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus" (2 Co 5:21). Feitos justiça de Deus — nele. Não "ajudados a nos tornar justos": feitos. É a grande troca: o nosso pecado imputado a Ele; a Sua justiça imputada a nós.
Romanos 5:19 fecha o paralelismo que a tese tenta quebrar: "como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos". Fomos feitos pecadores pela desobediência de Adão sem termos participado dela; somos feitos justos pela obediência de Cristo sem termos participado dela. A lógica é a mesma nos dois lados. Negar a segunda metade — a imputação da obediência — é serrar o galho em que a primeira metade se apoia.
E o resultado prático é o retorno à lei como regime: se Cristo "não cumpriu nenhum desses deveres por nós" e apenas "fornece graça para que o crente os cumpra", então cada mandamento volta a ser exigência pendente sobre o pecador, agora com assistência divina. Paulo, porém, queria ser "achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé" (Fp 3:9). A justiça do crente não é a que ele produz com ajuda — é a que ele recebe pela fé.

Veste branca de linho sobre cadeira de madeira junto à janela — foto de época.
O veredito das Escrituras
Romanos 4:5 pronuncia a palavra proibida: "a sua fé lhe é imputada como justiça". O verbo que o jornal diz não ser escriturístico está na Escritura, no capítulo que define a justificação. Não há como declarar a imputação "não escriturística" sem declarar Romanos 4 não-escriturístico — e ninguém ousou dizer isso em voz alta.
2 Coríntios 5:21 decreta a troca: "para que nele fôssemos feitos justiça de Deus". Feitos — não em processo de nos tornarmos, não auxiliados a alcançar: feitos, nele. A justiça do crente diante de Deus não é um projeto em andamento; é um status recebido, completo, vestido como roupa.
Romanos 5:19 ancora a doutrina na história da queda: "pela obediência de um muitos serão feitos justos". Se a desobediência de Adão nos constituiu pecadores por imputação, a obediência de Cristo nos constitui justos pelo mesmo princípio — e negar um é negar o outro. O jornal quer a morte substitutiva sem a vida substitutiva; Paulo não permite a divisão.
E Gálatas 2:16 dá o golpe final no regime de deveres: "o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo". Não pelas obras — nem pelas nossas, nem pelas nossas "com a graça de auxílio". Pela fé. A "multidão de deveres" que o jornal pendura sobre o crente foi cumprida por Outro, e esse Outro a oferece de graça a quem crê. É exatamente isso que a palavra "imputada" significa — e é exatamente por isso que ela está na Bíblia.