
A Expiação Continua Acontecendo ou Foi Consumada na Cruz?
No Adventismo do Sétimo Dia, a palavra expiação é definida de forma diferente daquela utilizada pelos cristãos. No cristianismo, a expiação refere-se à reconciliação entre a humanidade pecadora e Deus. Essa reconciliação é possível por meio do sacrifício expiatório de Jesus Cristo na cruz, conforme declarado em Romanos 3:23-25, Romanos 5:9-11 e Romanos 5:19. A expiação é a mensagem central da Bíblia.
Introdução
A questão “O sacrifício expiatório ainda está ocorrendo?” ocupa lugar central no debate teológico entre adventistas do sétimo dia e cristãos evangélicos, revelando diferenças fundamentais na doutrina da expiação. Enquanto o adventismo sustenta que a expiação permanece em andamento no céu, especialmente por meio do juízo investigativo, a tradição evangélica/reformada afirma, com base nas Escrituras, que a expiação foi cabalmente consumada na cruz. Este artigo se propõe a examinar criticamente as raízes, pressupostos e implicações da doutrina adventista da “expiação em dois estágios”, contrastando-a com a teologia bíblica da expiação. Serão analisadas as bases hermenêuticas, históricas e soteriológicas desse ensino, com a finalidade de expor suas inconsistências doutrinárias e oferecer uma defesa robusta da perspectiva bíblica reformada. Trata-se de um tema cuja compreensão é vital para uma fé cristã genuinamente centrada em Cristo e na suficiência exclusiva de Sua obra redentora.
1. Definições Divergentes de Expiação: Adventismo versus Cristianismo Bíblico
A análise do conceito de expiação nas tradições adventista e evangélica revela não meramente diferenças semânticas, mas profundas divergências dogmáticas e exegéticas. Para o cristianismo histórico, especialmente na tradição reformada, a expiação é definida como a reconciliação perfeita e definitiva entre Deus e o homem, realizada exclusivamente pela morte vicária e sacrificial de Cristo na cruz.
Expiação bíblica: Fundamenta-se na obra consumada de Cristo. Romanos 5:9-11 afirma:
"Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira... Pois se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida."
Expiação adventista: Fundamentada principalmente nas interpretações de Ellen G. White e autores pioneiros, propõe que há duas etapas distintas: a primeira realizada na cruz; a segunda em curso no céu, através do juízo investigativo e “expiação final”.
A formulação adventista, articulada por Uriah Smith e interpretada por Ellen White, distingue explicitamente entre o “sacrifício expiatório” da cruz e o “processo expiatório” contínuo no céu. Tal distinção contraria frontalmente a soteriologia neotestamentária, que insiste na unicidade, suficiência e perfeição do sacrifício de Cristo. Hebreus 9:26 refuta de modo cabal a noção de expiação inacabada:
"Agora, porém, ao se cumprirem os tempos, ele se manifestou uma vez por todas, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo."
Além disso, a teologia adventista subverte a própria linguagem bíblica ao afirmar que a cruz não marcou o cancelamento dos pecados, mas apenas tornou “possível” a salvação, transferindo a eficácia real da expiação para um processo ainda não concluído. Tal concepção esvazia o sentido da teleiotēs (perfeição/completude) recorrente na soteriologia joanina e paulina (tetelestai, Jo 19:30).
2. O Juízo Investigativo Adventista: Uma Revisão Crítica de sua Fundamentação
O coração da doutrina adventista de que a expiação ainda está em andamento reside no conceito do juízo investigativo, inaugurado em 1844, conforme interpretação de Daniel 8:14. Segundo o adventismo, desde então Cristo estaria realizando uma obra de “apagamento de pecados” no santuário celestial, examinando os registros da vida de todos os professos para determinar quem será salvo.
2.1 Fundamentação hermenêutica falha
A proposta do juízo investigativo, totalmente ausente do cânon neotestamentário, deriva de uma leitura alegórica e anacrônica dos rituais do Antigo Testamento e de equívocos escatológicos mileritas. Argumenta-se que o santuário terrestre em Levítico 16 tipificava o ministério celestial presente de Cristo, e que a cerimônia do Yom Kippur encontra seu antítipo no trabalho pós-cruz, não completado no Gólgota.
Porém, a própria epístola aos Hebreus insistentemente desfaz essa tipologia continuada, afirmando que Cristo “não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus” (Hebreus 9:24), e que, “havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus” (Hebreus 10:12).
Mateus 26:28 registra a autodeclaração de Cristo:
“Isto é o meu sangue da nova aliança, que é derramado por muitos para remissão de pecados.”
Não há menção a expiação futura ou progressiva.
1 João 1:7 assevera:
“O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.”
Aqui o tempo verbal usado aponta para ato consumado, não processo em aberto.
2.2 Implicações soteriológicas problemáticas
O juízo investigativo introduz — de maneira não bíblica — um período de provação após a cruz, no qual o crente jamais possui segurança da salvação. A ênfase recai sobre uma pseudo “sinergia” entre fé em Cristo e contínua obediência aos mandamentos, deslocando o status do salvo da posição de justificação objetiva para um estado instável de avaliação comportamental.
Subverte a doutrina bíblica da justificação: Romanos 5:1 declara:
“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.”
No juízo investigativo, tal paz é sempre condicional, um desafio à certeza expressa pelas Escrituras.
Contradiz a suficiência do sacrifício de Cristo: Ao exigir complementariedade na “aplicação” futura dos méritos de Jesus, nega-se sua própria auto-suficiência (Hebreus 10:14).
Promove soteriologia legalista: O crente é submetido à contínua fiscalização de sua conduta, sobrecarregado por um perfeccionismo inatingível.
Neste contexto, a doutrina do juízo investigativo é não apenas estranha ao evangelho paulino, mas incompatível com o ensino inequívoco de que a obra de Cristo assegura ao crente o perdão completo, irrestrito e irrevogável dos pecados.
3. A Inclusão de Satanás na Expiação: Análise da Tipologia do Bode Emissário
A doutrina adventista avança ainda mais em sua divergência ao incluir Satanás no processo expiatório, através da interpretação peculiar do bode emissário de Levítico 16 como “tipo” de Lúcifer, destinado a levar os pecados confessados para fora do arraial no fim dos tempos.
3.1 Fundamentos da doutrina adventista sobre o bode emissário
Fundamentalmente influenciada pelas obras de Ellen G. White (“O Grande Conflito”, p. 422) e pelo texto doutrinário das “28 Crenças Fundamentais”, essa perspectiva atribui a Satanás um papel de “portador final dos pecados”, em oposição ao ensino de que Cristo levou ele mesmo os nossos pecados em seu corpo (1 Pedro 2:24).
Problema hermenêutico: Nenhum texto do Antigo ou Novo Testamento legitima transferir a tipologia do bode emissário para Satanás. Pelo contrário, todo o sistema sacrificial aponta para Cristo como o único portador báraton (“carregador”) dos pecados.
Perversão da cristologia bíblica: Associar Satanás, ainda que de forma passiva, ao processo de expiação fere gravemente a unicidade e exclusividade da mediação de Cristo.
A literatura patrística e reformada rejeita categoricamente a possibilidade de “duplicidade” expiatória. O acesso ao Pai se dá somente mediante o sacrifício de Cristo (Hebreus 10:19-21), e não pela ação de qualquer outra criatura.
3.2 Implicações soteriológicas e doutrinárias graves
Introduz confusão quanto ao agente da salvação: O Novo Testamento é adamantino ao atribuir exclusivamente a Jesus “o poder de perdoar pecados” (Marcos 2:10).
Desvirtua a escatologia bíblica: O fim do diabo não será participar do plano redentivo, mas “o lago de fogo e enxofre” (Apocalipse 20:10).
Põe em xeque a natureza da obra salvífica: Se Satanás recebe parte dos pecados, a cruz não é mais central nem suficiente.
O ensino de que a expiação inclui Satanás atenta não apenas contra o bom senso hermenêutico, mas contra as bases fundamentais da fé cristã. Tal formulação representa, à luz bíblica, heresias gravíssimas de natureza cristológica e soteriológica.
4. Expiação Bíblica: A Suficiência e a Completude da Cruz
Ao se recorrer estritamente ao cânon sagrado, constata-se que a expiação, segundo o testemunho uníssono do Novo Testamento, foi definitivamente realizada na cruz, sem provisão para etapas sucessivas, processos investigativos ou intervenções paralelas pós-sacrifício.
Hebreus 9:22 sintetiza o princípio inegociável:
“Sem derramamento de sangue não há remissão.”
Ora, após a cruz, a Escritura não faz menção de novo derramamento de sangue.
Hebreus 9:26 reafirma:
“Mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas, se manifestou para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.”
O ensino adventista da expiação inacabada é, assim, frontalmente contradito.
Jeremias 31:34 e Hebreus 8:12:
“Perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados não me lembrarei mais.”
A lembrança ou armazenamento investigativo de pecados no céu é, portanto, antiética à Nova Aliança.
A doutrina reformada, por sua vez, sustenta que a unidade e eficácia do sacrifício de Cristo garantem a reconciliação definitiva, acessível ao crente pela fé, independentemente de posteriores escrutínios angelicais ou mediadores céus afora. O véu rasgado (Mateus 27:51) ilustra a abolição do sistema cerimonial e a inauguração do acesso livre e pleno ao Pai, consequência imediata da morte substitutiva de Jesus.
A implicação apologética é inequívoca: qualquer doutrina que subtraia a suficiência, exclusividade e completude do sacrifício de Cristo constitui negação do Evangelho, tornando-se, por definição, um outro evangelho, sujeito à condenação apostólica (Gálatas 1:8-9).
5. Contradições Proféticas e Autoria Doutrinária: O Problema Ellen White
Um dos aspectos mais graves do adventismo, quanto à questão da expiação, reside na autoridade exercida pelas declarações contraditórias de Ellen G. White. Em diversos escritos, White ora afirma que a expiação foi consumada na cruz, ora preconiza que apenas será finalizada após o juízo investigativo no céu, posicionamentos evidentemente irreconciliáveis.
Contradição hermenêutica e profética: Se admitida inspiração profética, as autocontradições de White invalidam seu magistério.
Critério reformado de autoridade bíblica: Um ensino profético genuíno jamais contradiz a revelação canônica.
Testemunho escriturístico: “À Lei e ao Testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, jamais verão a alva” (Isaías 8:20).
Ellen White reconheceu explicitamente que “tudo o que contradiz a Palavra de Deus procede de Satanás” (“O Grande Conflito”, p. 593). Portanto, as doutrinas adventistas sobre a expiação, por derivarem de inconsistências internas e por oposição frontal ao testemunho bíblico, carecem não apenas de legitimidade, mas configuram-se como perigosas distorções do evangelho.
O princípio sola Scriptura exige que toda doutrina seja escrutinada à luz das Escrituras. A doutrina da expiação “em dois tempos”, fundamentada em visões e elaborações pós-bíblicas, falha neste teste essencial e nunca poderia ser considerada parte do verdadeiro cristianismo.
Conclusão
A análise rigorosa da doutrina adventista do “sacrifício expiatório ainda em andamento” revela uma série de inconsistências doutrinárias e hermenêuticas, que a afastam dramaticamente do ensino central e inequívoco das Escrituras.
O adventismo redefine expiação de modo que subtrai a centralidade, unicidade e suficiência da cruz de Cristo, contrariando textos fundamentais como Hebreus 9:26, Romanos 5:9-11 e Mateus 26:28.
A inclusão do juízo investigativo, do perfeccionismo pós-conversão e até da participação de Satanás no processo, introduz elementos desconhecidos à teologia bíblica e incompatíveis com a justificação pela fé.
O recurso a Ellen White como intérprete final e corretora das Escrituras apenas agrava a falta de fundamento bíblico, colocando-se em oposição ao próprio critério interno do protestantismo: a autoridade exclusiva da Palavra de Deus.
O ensino bíblico é claro: a expiação foi completada na cruz, a reconciliação com Deus é plena e irrevogável para todos que creem em Jesus, e qualquer ensino que condicione a eficácia do sacrifício de Cristo a etapas, rituais ou julgamentos ulteriores é, em última análise, anátema para o evangelho.
Àqueles que estão questionando os ensinos adventistas, é urgente reexaminar à luz das Escrituras, buscando na suficiência de Cristo, não em processos humanos ou angelicais, a verdadeira paz com Deus. Pois está escrito:
“Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quanto aos que estão sendo santificados.” (Hebreus 10:14)
Aqui repousa a esperança cristã autêntica: em Cristo, tudo está consumado.
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