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    Guilherme Miller e as Consequências no Adventismo
    William Miller

    Guilherme Miller e as Consequências no Adventismo

    Conheça a história de Guilherme Miller e analise criticamente suas doutrinas e consequências no adventismo sob uma perspectiva bíblica evangélica.

    January 29, 20269 min min readBy Rodrigo Custódio

    O Início de uma Jornada Controversa: A Biografia de William Miller

    William Miller, nascido em 15 de fevereiro de 1782, em Pittsfield, Massachusetts, nos Estados Unidos, cresceu sob a educação de sua mãe, Dona Paulina, e de seu pai, um veterano de guerra. Sua educação foi atípica para a época, pois ele não frequentou faculdade ou universidade, estudando em casa até os 18 anos. Miller era um ávido leitor, o que lhe proporcionou acesso a bibliotecas particulares de indivíduos influentes, que reconheciam nele um jovem curioso e dedicado ao conhecimento.

    Desde cedo, Miller demonstrou uma busca intensa por conhecimento, característica que moldaria seu futuro. Ele vinha de uma família Batista, mas por volta de 1803, após se casar com Lucy Smith e se mudar para Putney, Vermont, onde ocupou diversos cargos públicos, Miller abandonou suas raízes Batistas para se tornar um deísta. Sua incessante busca por sabedoria o tornou uma pessoa influente em sua comunidade, levando-o a se juntar à Maçonaria, uma sociedade que prometia conhecimento, influência e poder, atraindo figuras como George Washington e Benjamin Franklin. As lojas maçônicas proliferavam na região da Nova Inglaterra, recrutando advogados, empresários, políticos e doutores.

    No entanto, o movimento maçônico da época enfrentou forte oposição do crescente avivamento cristão, resultando em conflitos e violência. Miller, então um maçom deísta com uma posição respeitável na sociedade, se viu no auge de sua vida. Contudo, essa fase seria drasticamente alterada pela Guerra de 1812.

    A Guerra de 1812 e a Reversão Espiritual de Miller

    A Guerra de 1812 entre americanos e britânicos foi um divisor de águas na vida de William Miller. Ele reuniu uma companhia de 30 homens e, após ser promovido a capitão no Regimento de Infantaria, lutou ao lado de americanos e indígenas. A vitória inesperada dos Estados Unidos na Batalha de Plattsburgh, contra todas as probabilidades, profundamente impactou Miller. Ele escreveu à sua esposa, expressando seu espanto: "Ao olhar para o que enfrentamos, percebíamos que seríamos derrotados, mas no entanto vencemos".

    Essa experiência de guerra, onde a morte era uma certeza e a vitória parecia impossível, transformou sua perspectiva pragmática e racional. Ele, que havia se afastado da fé, começou a questionar a ausência de uma intervenção divina. "Não é possível como é que a gente ganhou essa batalha... não era pra gente est nem vivo aqui", pensou Miller. A guerra o convenceu da existência e influência de Deus nos destinos humanos.

    Após a guerra, Miller se mudou para Low Hampton, Nova York. Essa nova percepção o levou a reconsiderar suas crenças e a voltar à Igreja Batista, convertendo-se ao cristianismo. A partir de então, Jesus Cristo passou a ser "quem iluminava o seu caminho". Sua característica obsessiva pelo conhecimento agora se voltava para as Escrituras, buscando respostas para as profundas questões existenciais. Em resumo, Miller deixou de ser um maçom deísta para se tornar um cristão convicto, buscando em Deus a fonte de todo o conhecimento.

    A Profecia de 2.300 Dias e o Início do Movimento Milerita

    Miller dedicou dois anos ao estudo intensivo da Bíblia, focando primariamente nos livros de Apocalipse e Daniel. Seu método de estudo envolveu a criação de três colunas de informações, através das quais ele interpretou a profecia de Daniel 8:14. Com base nesta metodologia, ele "descobriu" o seguinte:

    1. Primeira Coluna: A data do decreto do rei Artaxerxes para reconstruir Jerusalém em 457 a.C.

    2. Segunda Coluna: A tradução dos "2.300 dias" proféticos como "2.300 anos", aplicando o princípio de "dia por ano" (Números 14:34, Ezequiel 4:6). Além disso, ele equiparou a "purificação do Santuário" à volta de Cristo e ao fim do mundo.

    3. Terceira Coluna: A matemática de 2.300 anos menos 457 a.C., resultando em 1843 d.C. Esta conclusão o levou a proclamar que o fim do mundo e o retorno de Jesus Cristo ocorreriam em 1843.

    Essa descoberta o deixou "assustado e ao mesmo tempo motivado". Ele confiava plenamente em seus estudos, desenvolvendo uma teoria que considerava "complexa mas sólida". No entanto, Miller guardou essa informação por 13 anos, sem saber como comunicar uma mensagem tão impactante: "o mundo vai acabar, se prepare a única opção que você tem é entregar sua vida para Deus".

    Em 1831, Miller finalmente iniciou a divulgação dessa mensagem, começando em sua igreja local em Nova York. Suas palestras de seis dias impressionaram os membros, resultando no batismo de mais de 20 pessoas. Embora não fosse pastor ou teólogo com formação acadêmica, Miller desenvolveu uma inesperada habilidade de comunicação. A partir de 1834, convites para pregar se multiplicaram por todo o país. Ele se uniu a figuras-chave como Joshua Himes, seu editor e "marketeiro", e Joseph Bates, que se tornariam importantes líderes do movimento, atraindo "centenas de milhares de pessoas".

    Himes lançou o jornal "Sinais dos Tempos", que amplificou a mensagem de Miller. Eventos ao ar livre, em tendas, atraíam entre três a quatro mil pessoas por noite, enquanto o esperado retorno de Cristo em 1843 se aproximava.

    O Primeiro Desapontamento e a Intensificação do Milerismo

    A pressão sobre William Miller cresceu, e seus seguidores, conhecidos como "Mileritas", aumentavam diariamente. Ele havia estipulado um período entre 1843 e 1844 para a volta de Cristo, mas a data de 1843 se tornou o foco. A mensagem do "Segundo Advento" era simples: a) o fim do mundo estava próximo; b) somente a conversão a Jesus Cristo e a preparação para Sua volta poderiam salvar as pessoas.

    Líderes de outras denominações, como Batistas, Calvinistas e Ortodoxas, criticavam Miller por "distorcer a Bíblia completamente", acusando-o de não possuir formação bíblica. Esses grupos frequentemente atacavam as reuniões mileritas. Apesar das críticas e da falta de formação eclesiástica formal, o movimento crescia exponencialmente. Miller, no entanto, repetidamente encorajava seus seguidores a permanecerem em suas igrejas de origem, pois não tinha a intenção de fundar uma nova denominação, acreditando que Jesus voltaria em breve.

    Essa postura temporariamente acalmou os opositores, mas as críticas teológicas persistiam. Em 1836, mais de 40 ministros Batistas assinaram um termo de aceitação, dando suporte à mensagem do Segundo Advento. O movimento cresceu tanto que em 5 de maio de 1843, foi inaugurado o "Tabernáculo do Segundo Advento".

    Após muita pressão, Miller anunciou a data oficial para a volta de Cristo: 21 de março de 1843. Ele escreveu cartas encorajando seus seguidores, que recebiam essas mensagens com fervor. Contudo, "21 de março de 1843 veio [e] passou, e nada aconteceu".

    O impacto do primeiro desapontamento foi devastador. Com uma estimativa de "100.000 pessoas" envolvidas, a decepção era generalizada. "Jesus não veio em 21 de março de 1843 [...] muitos se decepcionaram". A moral do movimento caiu, e muitos abandonaram a causa.

    O Segundo Desapontamento: 22 de Outubro de 1844

    O revés de 21 de março de 1843 abalou a confiança no movimento milerita. Miller, desanimado, decidiu que não estabeleceria mais uma data para o retorno de Cristo. Entretanto, Samuel Snow, um dos patrocinadores de um jornal e um novo convertido à mensagem milerita, apresentou uma nova teoria. Após estudar as profecias e os cálculos de Miller, e após o primeiro desapontamento, Snow propôs uma nova data: 22 de outubro de 1844.

    Miller, inicialmente hesitante, reconsiderou à luz das evidências de Snow e afirmou ter cometido um "erro de cálculo", reconhecendo que Deus "havia apresentado uma nova luz". A nova data foi baseada na interpretação de Levítico e Habacuque, que postulam um período de "7 meses e 10 dias antes do julgamento final", coincidindo com o Yom Kippur, o Dia da Expiação, no calendário judaico. Miller expressou sua renovada esperança: "Vejo uma glória no sétimo mês que nunca tinha visto antes".

    Com a data de 22 de outubro de 1844 estabelecida, os mileritas intensificaram sua preparação. Muitos "começaram a se desfazer dos seus bens, incluindo casas, terrenos, fazendas, negócios, empresas, lojas, móveis, maquinários, animais, roupas", vivendo com o essencial. Além disso, alguns prepararam "roupões da Ascensão", vestimentas brancas que seriam usadas na volta de Cristo. Panfletos foram distribuídos, artigos de jornal publicados, e visitas de porta em porta foram realizadas para alertar as pessoas. Pastores aconselharam seus membros a se prepararem aguardando a segunda vinda em locais isolados ou em elevações naturais, para evitar ataques de grupos contrários.

    Finalmente, a "terça-feira mais aguardada do século XIX" chegou. "[M]ilhares de pessoas se reuniram como combinado", mas, como na ocasião anterior, "nada aconteceu". A madrugada de 23 de outubro de 1844 trouxe apenas "o silêncio normal e comum", sem "trombetas", "anjos", "tremores de terra", "raios" ou "nuvens".

    Implicações e o Legado do Grande Desapontamento

    O Grande Desapontamento de 22 de outubro de 1844 teve um impacto profundo na vida dos mileritas e na história religiosa dos Estados Unidos. A credulidade das pessoas, que venderam seus bens e aguardaram ansiosamente, contrasta com o fato de que "em nenhum momento os líderes do movimento [...] nunca se desfizeram das coisas deles". Pastores e teólogos de diversas denominações, como Batistas, Metodistas e Congregacionais, haviam alertado Miller sobre seus erros de interpretação, mas esses avisos não foram suficientes para dissuadir a maioria dos seguidores.

    A lição fundamental do Grande Desapontamento é a importância do "questionamento e estudo pessoal" das Escrituras, em vez de aceitar cegamente as interpretações de líderes religiosos. A região da Nova Inglaterra e Nova York, conhecida como "Burned-over District", foi palco do Segundo Grande Avivamento, gerando diversos movimentos religiosos, como o espiritismo, o mormonismo e o Christian Connection, todos demonstrando uma "grande necessidade de reavivamento" e "sedentos por respostas espirituais".

    Embora Miller parecesse sinceramente convencido de suas crenças, a história mostra que "o que você interpreta necessariamente não representa a realidade". O legado do Grande Desapontamento ressalta a necessidade de cautela ao interpretar profecias e a importância de uma análise bíblica sólida. A falha de Miller em prever a data da volta de Cristo levou à fragmentação do movimento milerita e ao surgimento de novas denominações, incluindo aquelas que reinterpretaram o evento de 1844, como o Adventismo do Sétimo Dia.

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