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O SÁBADO

Igreja Primitiva e a Guarda do Sábado ou Domingo

Análise crítica revela que fontes adventistas admitem origem do domingo no século II, não com Constantino. Descubra as contradições internas e surpreenda-se

Por Rodrigo Custódio · Publicado em 15/07/2026 · 12 min

Igreja Primitiva e a Guarda do Sábado ou Domingo

O problema

A apologética adventista popular ensina uma história simples: a Igreja Romana, sob Constantino, no século IV, mudou o sábado para o domingo. Antes disso, os cristãos guardavam o sábado — "quase em toda parte", como se costuma dizer.

A dificuldade é que essa história não é a que a própria Igreja Adventista do Sétimo Dia publica em suas obras eruditas. Não é o que diz o Comentário Bíblico Adventista. Não é o que diz Seventh-day Adventists Believe, a exposição oficial das doutrinas fundamentais. Não é o que dizem Samuele Bacchiocchi e Kenneth Strand, ambos publicados pela Review and Herald, a editora da denominação.

Este artigo não usa uma única fonte crítica externa. Tudo o que se segue vem da própria IASD.


Parte I — A data que a IASD realmente publica

O que diz a exposição oficial das doutrinas

Seventh-day Adventists Believe, publicado pela Associação Ministerial da Associação Geral (Review and Herald, 1988), afirma no capítulo sobre o sábado que não há evidência de adoração dominical semanal cristã antes do segundo século, mas que em meados daquele século alguns cristãos já observavam voluntariamente o domingo como dia de adoração — e que a igreja de Roma liderou essa tendência.

Referência: Seventh-day Adventists Believe... A Biblical Exposition of 27 Fundamental Doctrines, Ministerial Association, General Conference of Seventh-day Adventists (Washington, D.C.: Review and Herald, 1988), cap. 19, p. 259. Verificação: http://www.sdanet.org/atissue/books/27/27-19.htm

Leia de novo: meados do século II. Roma. Voluntariamente. Não é o século IV. Não é Constantino. Não é imposição imperial.

O que disse Questions on Doctrine

Trinta e um anos antes, a obra oficial que os líderes adventistas escreveram para responder aos evangélicos já dizia o mesmo: a mudança "foi introduzida em Roma por volta de meados do segundo século."

Referência: Seventh-day Adventists Answer Questions on Doctrine (Washington, D.C.: Review and Herald, 1957), pp. 166-167. Edição anotada: Andrews University Press, 2003, ed. George R. Knight — atenção, a paginação difere. Verificação: https://archive.gci.org/articles/sabbath-and-sunday-adventist-theories/

O que disse o erudito adventista mais citado sobre o assunto

Samuele Bacchiocchi foi o primeiro não-católico a doutorar-se na Pontifícia Universidade Gregoriana. Sua tese, From Sabbath to Sunday (1977), é a obra adventista mais citada sobre a origem do domingo. Sua conclusão: a mudança de sábado para domingo ocorreu algum tempo depois de 135 d.C., e originou-se em Roma, não em Jerusalém. Em correspondência posterior, foi mais direto: situava a origem da guarda dominical na época do imperador Adriano, em 135 d.C.

E — este é o ponto crucial para quem exige apenas fontes denominacionais — Bacchiocchi escreveu a mesma tese em capítulo de um livro publicado pela própria editora da igreja:

Referência: Samuele Bacchiocchi, "The Rise of Sunday Observance in Early Christianity", cap. 7 em Kenneth A. Strand (ed.), The Sabbath in Scripture and History (Washington, D.C.: Review and Herald, 1982), pp. 132-150. Verificação (resenha em periódico adventista peer-reviewed): https://digitalcommons.andrews.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1442&context=auss

O que disse o historiador da Andrews University

Kenneth A. Strand, professor de História da Igreja em Andrews, editou aquele volume. Em seu apêndice, ele afirma que a situação de Roma e Alexandria não era típica do restante do cristianismo primitivo: nessas duas cidades houve uma tentativa precoce de encerrar a observância do sábado do sétimo dia, ao passo que no resto do mundo cristão o domingo simplesmente surgiu ao lado do sábado, sem substituí-lo.

Strand também data com precisão: antes do século II, não há evidência clara em lugar algum de observância dominical semanal por cristãos; as primeiras referências vêm de Alexandria e Roma — os lugares onde a observância do sábado foi primeiro abandonada.

E sobre Constantino, Strand é explícito: o decreto de 321 foi apenas o primeiro de uma série de passos de regulação civil, e não tinha orientação particularmente cristã.

Referência: Kenneth A. Strand, "The Sabbath and Sunday From the Second Through Fifth Centuries", Apêndice B em The Sabbath in Scripture and History (Review and Herald, 1982), pp. 323-324, 328, 330. Verificação (reproduzido integralmente por artigo oficial adventista): https://sthelenaca.adventistchurch.org/about/worship-with-us/bible-studies/dr-erwin-gane/sabbath-changed-to-sunday/

O que admite o próprio Comentário Bíblico Adventista

Aqui é preciso honestidade — e a honestidade, neste caso, ainda favorece o argumento.

O SDA Bible Commentary, comentando Apocalipse 1:10, discute quando o termo "dia do Senhor" passou a significar domingo. Sua conclusão: a primeira evidência conclusiva desse uso não aparece antes da última parte do século II, no apócrifo Evangelho Segundo Pedro.

Referência: F.D. Nichol (ed.), The Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 7, comentário sobre Apocalipse 1:10 (Review and Herald; ed. revista de 1980). A paginação usual é pp. 735-736 — o próprio Seventh-day Adventists Believe cita "vol. 7, pp. 735, 736" na nota 14 do cap. 19. Confirme na edição impressa antes de publicar. Verificação: https://archive.org/details/SdaBibleCommentary1980 — e a mesma passagem foi reproduzida e atribuída ao Commentary pela revista oficial Ministry, out. 1960: https://www.ministrymagazine.org/archive/1960/10/the-sabbath-or-the-lords-day

O contexto importa, e é preciso declará-lo: o Commentary faz essa admissão para negar que Apocalipse 1:10 se refira ao domingo. O argumento é metodológico — não se interpreta uma alusão do século I com dados do século II. É uma admissão factual embutida num argumento contrário.

Mas a admissão continua sendo uma admissão. E ela é anterior a Constantino por mais de um século.


Parte II — O verso que se volta contra quem o cita

A carta de recomendação da própria acusação

A prova favorita da apologética adventista para o "sabatismo antigo" é Sócrates Escolástico, historiador do século V. A citação circula em milhares de sermões: quase todas as igrejas do mundo celebravam os mistérios sagrados no sábado, todas as semanas.

Seventh-day Adventists Believe cita exatamente essa passagem (Sócrates, História Eclesiástica 5.22), junto com Sozomeno (7.19), para sustentar que o sábado persistiu do século II ao V.

Só que a frase não termina ali.

Sócrates faz uma exceção explícita. Duas cidades, diz ele, não fazem isso — por conta de alguma tradição antiga. As duas cidades são Alexandria e Roma.

O nó

Junte as duas metades da argumentação adventista oficial:

Fonte adventista oficial

Afirmação

Seventh-day Adventists Believe, p. 259

O domingo começou em Roma, meados do séc. II

Bacchiocchi, em Strand (1982), pp. 132-150

O domingo começou em Roma, c. 135 d.C.

Strand (1982), pp. 323-324, 330

Roma e Alexandria abandonaram o sábado primeiro

Sócrates 5.22, citado por SDA Believe

Todos guardavam o sábado — exceto Roma e Alexandria

As duas cidades que Sócrates exclui são precisamente as duas cidades que os historiadores adventistas identificam como o marco zero do domingo.

Ou seja: a fonte usada para provar o sabatismo universal é a mesma fonte que documenta a exceção que os próprios eruditos adventistas chamam de origem da apostasia. O texto não prova que o domingo veio depois. Ele prova que o domingo já estava consolidado justamente onde a IASD diz que ele nasceu — e Sócrates escreve no século V, um século depois de Constantino, descrevendo uma tradição que chama de antiga.

A citação, lida por inteiro, não sustenta a tese popular. Ela sustenta a tese erudita adventista — que contradiz a tese popular.

O problema adicional de Sozomeno

Sozomeno (7.19) diz algo semelhante — e também registra a exceção de Roma. Ele acrescenta que em Constantinopla e quase em toda parte os cristãos se reuniam tanto no sábado quanto no primeiro dia da semana.

Isto é: a evidência patrística que a IASD invoca não descreve cristãos guardando o sábado em vez do domingo. Descreve cristãos guardando os dois. É exatamente o que Strand afirma no volume da Review and Herald: o domingo surgiu ao lado do sábado, não em substituição a ele.

Um documento que prova observância dupla não pode ser usado para provar observância exclusiva do sábado.


Parte III — A contradição interna

Ellen White

O Grande Conflito apresenta a mudança do sábado como obra do poder papal, enquadrada na profecia de Daniel 7:25 ("cuidará em mudar os tempos e a lei"), com Constantino como agente decisivo do processo — a lei dominical de 321 como o momento em que o dia pagão do sol foi exaltado.

Os eruditos da própria igreja

Bacchiocchi: 135 d.C., Roma, sob Adriano. Strand: século II, Roma e Alexandria, voluntário. Seventh-day Adventists Believe: meados do século II, Roma, voluntariamente, por antissemitismo. Strand sobre Constantino: a lei de 321 não era particularmente cristã em orientação.

O que sobra

A cronologia oficial da IASD, escrita por seus próprios doutores e publicada por sua própria editora, antecipa em quase dois séculos o marco que a pregação popular atribui a Constantino — e retira do papado a autoria original do domingo, transferindo-a para congregações gentílicas de Roma reagindo ao antissemitismo imperial.

A denominação resolve isso mantendo o enquadramento profético: foi apostasia, foi gradual, foi Roma — apenas mais cedo do que se pensava, e Constantino apenas deu força civil ao que já existia. É uma posição internamente coerente.

Mas ela não é a posição pregada nos púlpitos. E não é a posição de O Grande Conflito.

A igreja mantém, simultaneamente, uma história para o público e outra para a academia. A primeira precisa de Constantino como vilão datável. A segunda sabe que o domingo já estava em Roma quando Constantino nasceu.


Parte IV — Os Pais da Igreja, tratados pela própria IASD

O padrão de tratamento das fontes pré-constantinianas em publicações oficiais adventistas é revelador:

Justino Mártir (Primeira Apologia 67, c. 155 d.C.) — admitido. A Ministry Magazine (jan. 1977) reconhece Justino como a primeira evidência clara de adoração dominical cristã, vinda de Roma, em meados do século II. O artigo oficial de Erwin Gane o chama de o mais antigo relato de cultos dominicais cristãos. Verificação: https://www.ministrymagazine.org/archive/1977/01/sabbath-and-sunday-observance-in-the-early-church

Epístola de Barnabé (cap. 15, c. 130-138 d.C.) — admitido, mas desqualificado. Tratado como documento apócrifo/gnóstico ("a forjada Epístola de Barnabé"), mas sua existência como evidência de observância dominical alexandrina no início do século II não é negada.

Inácio de Antioquia (Magnésios 9) — contestado. A Ministry (out. 1960) argumenta que o grego original traz "vida" (zōē), não "dia" (hēmera).

Plínio, o Jovem (carta a Trajano, c. 112 d.C.) — minimizado. Reconhece-se a reunião "em dia fixo", mas argumenta-se que o texto não identifica qual dia.

O padrão: admite-se o que é datável e romano (Justino, Barnabé) e contesta-se o que é datável e não-romano (Inácio, de Antioquia). A admissão de Justino sozinha já encerra a tese de que o domingo é invenção do século IV — e ela vem da revista dos pastores adventistas.


Parte V — Os textos bíblicos, e um alerta de honestidade

A leitura adventista oficial de Atos 20:7 (reunião noturna, provavelmente noite de sábado pela contagem judaica; "partir o pão" ocorria diariamente conforme Atos 2:46) e de 1 Coríntios 16:2 (guardar dinheiro em casa, par' heautō, não coleta em culto) é defensável e está documentada em fontes oficiais:

Alerta metodológico: não foi possível verificar o texto literal nem a paginação do SDA Bible Commentary vol. 6 para Atos 20:7 e 1 Coríntios 16:2. Não atribua páginas do Commentary a esses versos sem conferir a edição impressa. As posições acima estão documentadas em Seventh-day Adventists Believe e na Ministry, não no comentário verso-a-verso. Uma citação falsa destruiria tudo o que este artigo constrói.


Conclusão

Nada aqui depende de fonte hostil. Cada peça é adventista:

  1. A editora da igreja publicou que o domingo nasceu em Roma no século II (Review and Herald, 1982; 1988; 1957).

  2. O erudito adventista mais citado datou a origem em 135 d.C. (Bacchiocchi, em volume da Review and Herald).

  3. O historiador de Andrews University confirmou Roma e Alexandria como origem, e declarou que a lei de Constantino não era cristã em orientação (Strand, 1982).

  4. O Comentário Bíblico Adventista admite que "dia do Senhor" já significava domingo no fim do século II (vol. 7, Apoc. 1:10).

  5. A revista dos pastores adventistas reconhece Justino Mártir (c. 155) como evidência clara de culto dominical (Ministry, 1977).

  6. A prova favorita do sabatismo antigo — Sócrates 5.22 — contém a exceção de Roma e Alexandria, exatamente as cidades que os eruditos adventistas apontam como berço do domingo. E Sozomeno documenta observância dupla, não exclusiva.

A conclusão não é que os adventistas mentem sobre a história. É mais interessante que isso: a IASD já corrigiu a própria história — na academia — e nunca informou os púlpitos.

A retórica do "sabatismo antigo universal" sobrevive não porque a evidência a sustente, mas porque a citação de Sócrates é quase sempre lida pela metade.


Referências completas

Fontes oficiais adventistas

  1. Ministerial Association, General Conference of Seventh-day Adventists. Seventh-day Adventists Believe... A Biblical Exposition of 27 Fundamental Doctrines. Washington, D.C.: Review and Herald, 1988. Cap. 19, p. 259; notas 14 e 31. http://www.sdanet.org/atissue/books/27/27-19.htm

  2. Seventh-day Adventists Answer Questions on Doctrine. Washington, D.C.: Review and Herald, 1957, pp. 166-167. Ed. anotada: Andrews University Press, 2003 (George R. Knight, ed.) — paginação diferente. https://archive.gci.org/articles/sabbath-and-sunday-adventist-theories/

  3. Nichol, Francis D. (ed.). The Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 7. Review and Herald, ed. rev. 1980. Comentário sobre Apocalipse 1:10 (pp. 735-736, a confirmar em edição impressa). https://archive.org/details/SdaBibleCommentary1980

  4. Bacchiocchi, Samuele. "The Rise of Sunday Observance in Early Christianity". Cap. 7 em Strand, Kenneth A. (ed.), The Sabbath in Scripture and History. Washington, D.C.: Review and Herald, 1982, pp. 132-150.

  5. Bacchiocchi, Samuele. From Sabbath to Sunday: A Historical Investigation of the Rise of Sunday Observance in Early Christianity. Roma: Pontifical Gregorian University Press, 1977, esp. pp. 223-232, 303-321.

  6. Strand, Kenneth A. "The Sabbath and Sunday From the Second Through Fifth Centuries". Apêndice B em The Sabbath in Scripture and History. Review and Herald, 1982, pp. 323-324, 328, 330. https://digitalcommons.andrews.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1442&context=auss

  7. Gane, Erwin. "Sabbath Worship Changed to Sunday Observance". St. Helena Seventh-day Adventist Church. https://sthelenaca.adventistchurch.org/about/worship-with-us/bible-studies/dr-erwin-gane/sabbath-changed-to-sunday/

Periódicos oficiais adventistas

  1. "The Sabbath or the Lord's Day?" Ministry Magazine, out. 1960. https://www.ministrymagazine.org/archive/1960/10/the-sabbath-or-the-lords-day

  2. "The Breaking of Bread in Acts 20:7-11". Ministry Magazine, abr. 1962. https://www.ministrymagazine.org/archive/1962/04/the-breaking-of-bread-in-acts-207-11

  3. "Sabbath and Sunday Observance in the Early Church". Ministry Magazine, jan. 1977. https://www.ministrymagazine.org/archive/1977/01/sabbath-and-sunday-observance-in-the-early-church

Fontes patrísticas citadas pelas obras adventistas acima

  1. Sócrates Escolástico, História Eclesiástica 5.22.

  2. Sozomeno, História Eclesiástica 7.19.

  3. Justino Mártir, Primeira Apologia 67 (c. 155 d.C.).

  4. Epístola de Barnabé 15 (c. 130-138 d.C.).

  5. Inácio de Antioquia, Aos Magnésios 9.

  6. Plínio, o Jovem, Epístolas 10.96 (c. 112 d.C.).