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    Jesus está vivendo e atuando numa segunda fase expiatória?
    Juízo Investigativo

    Jesus está vivendo e atuando numa segunda fase expiatória?

    Análise bíblica e reformada da doutrina adventista da segunda fase expiatória de Jesus. Veja se o ensino do juízo investigativo é realmente bíblico.

    December 26, 20258 min min readBy Rodrigo Custódio

    Introdução

    A doutrina da segunda fase do ministério da expiação de Jesus constitui o cerne do sistema teológico da Igreja Adventista do Sétimo Dia, especialmente em sua compreensão do santuário celestial e do juízo investigativo. Essa construção doutrinária afirma que a obra expiatória de Cristo não se completou na cruz, mas prossegue atualmente no Céu, em uma fase complementar de “purificação do santuário”. O presente artigo propõe uma análise crítica dessa concepção à luz das Escrituras, da tradição reformada e dos fundamentos exegéticos sólidos da fé cristã ortodoxa. Examinar-se-á: 1) A teologia da expiação adventista e seus pressupostos, 2) A compreensão bíblica da suficiência da cruz, 3) O problema hermenêutico do juízo investigativo, e 4) As consequências soteriológicas desse ensino em contraste com o Evangelho bíblico. A intenção principal é oferecer, em termos acadêmicos e analiticamente rigorosos, uma resposta fundamentada para leitores adventistas que questionam se Jesus possui realmente uma “segunda fase” de ministério expiatório segundo o Novo Testamento.

    1. A Teologia Adventista da Expiação: Bases, Distintivos e Pressupostos

    A doutrina adventista da expiação em duas fases representa uma das ideias mais singulares do adventismo, diferindo substancialmente da ortodoxia cristã histórica. Fundamentando-se em uma leitura tipológica do santuário levítico (Lv 16), os adventistas postulam que a cruz de Cristo correspondeu apenas ao sacrifício expiatório, mas a reconciliação e o pleno “apagamento” dos pecados ocorre em um fase posterior, o chamado juízo investigativo iniciado, supostamente, em 1844.

    1.1 Pressuposto Soteriológico

    O núcleo desse ensino está na separação operada entre propiciação e expiação. Segundo Jon Paulien (Salvation: Contours of Adventist Soteriology, p. 189), para o adventismo:

    “Quando os adventistas falam de expiação, referem-se especificamente ao que Jesus está fazendo agora no santuário celestial. Já estudiosos de outras tradições cristãs referem-se à cruz e ao que ocorreu ali.”

    Essa distinção, no entanto, carece de base escritural inequívoca e resulta numa escatologização artificial da obra salvífica consumada em Jesus.

    1.2 Influência de Ellen G. White e dos Pioneiros

    Ellen G. White, considerada profetisa e intérprete autorizada das Escrituras para o adventismo, reforça a ideia de que a cruz foi apenas o início da expiação, cabendo ao Cristo ressuscitado completar o processo de purificação em diferentes fases.
    Uriah Smith, pioneiro influente, afirmou categoricamente:

    “A morte de Cristo e a expiação não são a mesma coisa. Cristo não fez expiação ao derramar seu sangue na cruz.” (Advent Review & Sabbath Herald, 19/10/1876)

    Wolcott Hackley Littlejohn segue a mesma linha:

    “Creio que não há nenhuma passagem bíblica que prove que a expiação ocorreu na cruz.” (AR & SH, 16/09/1884)

    Tais posicionamentos subvertem categorias bíblicas elementares da redenção, contrariando frontalmente a doutrina apostólica.

    2. O Testemunho Bíblico Sobre a Suficiência da Expiação na Cruz

    A centralidade da cruz na teologia do Novo Testamento não permite margens para uma complementação expiatória posterior. O conceito de um ministério de expiação em duas etapas é estranho à literatura apostólica e contradiz os testemunhos explícitos de que a obra de Cristo foi absoluta e definitivamente eficaz na cruz.

    2.1 Hebreus: Consumação e Suficiência da Obra de Cristo

    O livro de Hebreus é decisivo nesse tema. Escreve o autor:

    “Mas agora, ao fim dos séculos, uma vez por todas, se manifestou para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.” (Hebreus 9:26)

    E ainda:

    “Depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas.” (Hebreus 1:3)

    Percebe-se que a purificação dos pecados é passada e consumada. No contexto da expiação veterotestamentária, o dia da expiação (Yom Kippur) aponta tipologicamente para o sacrifício único e suficiente de Cristo, não para fases futuras ou complementares.

    2.2 O Efeito Pleno do Sangue de Cristo

    Paulo declara:

    “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores... agora, justificados pelo seu sangue, seremos salvos da ira por meio dele.” (Romanos 5:8-9)

    A justificação pelo sangue é definitiva e sua eficácia decorre da morte de Cristo, não de um ritual pós-sacrifício.
    A adição de rituais celestes como necessários para remissão e reconciliação agride frontalmente a promessa de:

    “Jamais me lembrarei dos seus pecados e de suas iniquidades.” (Hebreus 10:17)

    No adventismo, tal promessa é esvaziada em favor de um longo processo celestial, subordinando a segurança da salvação ao desempenho judiciário de Cristo no Céu.

    2.3 Argumentação Paulina: Reconciliação Consumada

    Em 2 Coríntios 5:18-19:

    “Deus nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo... Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões.”

    A reconciliação já ocorreu na cruz e é apropriada pela fé, sem necessidade de investigações ou fases intermediárias no céu.

    3. O Juízo Investigativo e a Distinção Entre Tipologia e Realidade no Novo Testamento

    A doutrina do juízo investigativo é uma construção adventista baseada em uma leitura alegórica de Daniel 8:14 e da tipologia levítica. Tal ensino prescreve que, desde 1844, Cristo estaria “investigando” os crentes para determinar quem é digno de ser salvo, “aplicando” a expiação realizada na cruz.

    3.1 Problemas Hermenêuticos e Exegéticos

    A utilização de Daniel 8:14 como prova do início de um ministério investigativo celestial carece de sustentação exegética. O contexto imediato desse verso refere-se à purificação do santuário terrestre profanado por Antíoco Epifânio, figura do Antigo Testamento. Os autores do Novo Testamento jamais usaram este texto acerca de um juízo celestial precedendo a volta de Cristo.

    • O endosso neotestamentário é inexistente: Nenhum evangelho, carta paulina ou carta geral faz referência a tal fase investigativa pós-cruz.

    • A tipologia do Sumo Sacerdote: Como elucidado em Hebreus 9:12,

      Entrou uma só vez no Santo dos Santos, tendo obtido eterna redenção.”

      Não há ciclo ou fase a ser repetido – a entrada única de Cristo significa a realização completa do tipo mosaico.

    3.2 A Pós-Ortodoxia da Soteriologia Adventista

    Ao estabelecer um juízo celestial que antecede a efetivação da salvação, o sistema adventista mina o princípio reformado da sola fide (salvação somente pela fé). Torna-se impossível ao crente saber se de fato sua situação diante de Deus está garantida, pois é dependente da decisão futura do Cristo soteriológico-adventista.

    • Negação da certeza da salvação: A promessa bíblica de que a “vida eterna” já foi concedida (1 João 5:13) é obscurecida e relativizada.

    • Retorno ao modelo sacerdotal intermediário: O juízo investigativo, em sua essência, restaura a incerteza do sacrifício levítico repetido ano a ano, abolido pela nova aliança (Hebreus 7:27).

    4. Consequências Soteriológicas e Eclesiológicas: Uma Teologia de Insegurança

    A doutrina adventista da dupla expiação não é meramente uma variante teológica, mas uma séria distorção do Evangelho bíblico e de sua oferta de graça. Suas implicações ultrapassam a especulação escatológica e atingem diretamente a fé, a adoração e a certeza dos fiéis.

    4.1 Implicações para a Certeza da Salvação

    Ao postergar o perdão definitivo para uma fase investigativa celestial, a teologia adventista contradiz a mensagem do Novo Testamento quanto à segurança da salvação em Cristo. Paulo assevera:

    “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” (Romanos 8:1)

    Não há menção bíblica de que tal isenção da condenação seja condicional a uma verificação judicial futura, mas, sim, decorrente da união presente com Cristo.

    4.2 Distanciamento do Evangelho de Graça

    O novo pacto prometido em Jeremias 31:34 é categórico:

    “Pois perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei.”

    Retornar à ideia de um exame celestial para determinar quem merece tal perdão é, em última análise, uma negação do pleno alcance do Evangelho.

    • Acrescenta mediações supérfluas

    • Cultiva ansiedade religiosa

    • Conduz à dependência de performances morais para a aceitação final

    4.3 O Cristo Adventista versus o Cristo Bíblico

    A identificação de um “Cristo” cuja obra é processual, inacabada e condicionada aos mecanismos ritualísticos celestiais exige uma distinção radical em relação à cristologia bíblica e histórica. O Cristo das Escrituras proclama:

    Está consumado.” (João 19:30)

    A obra redentora não precisa de acréscimos investigativos ou fases purificadoras no Céu. Isto redimensiona a própria natureza da fé cristã, centrada na suficiência de Cristo.

    Conclusão

    A análise crítica da doutrina adventista da segunda fase da expiação revela que tal ensino é teologicamente insustentável e biblicamente injustificável. Ao dividir a obra de Cristo em etapas – sacrifício consumado na cruz e uma suposta aplicação posterior e investigativa no Céu – o adventismo se afasta das evidências escrituralmente estabelecidas sobre a suficiência e consumação da redenção em Jesus. O ensino de Hebreus, Romanos e todas as epístolas apostólicas coloca a cruz como o centro da história redentora, não aceitando quaisquer complementações rituais posteriores.

    Para o leitor adventista que sinceramente busca uma fé alicerçada na Palavra de Deus e na tradição da Reforma, é essencial considerar que:

    • Toda expiação foi consumada na cruz (Hebreus 9:26; João 19:30; Romanos 5:9).

    • O perdão é definitivo e presente (Hebreus 10:17; 1 João 5:13).

    • Qualquer doutrina que condicione a paz com Deus à performance religiosa ou a processos investigativos carece de respaldo neotestamentário (Romanos 8:1).

    A fé cristã verdadeira repousa na obra completa de Cristo e em sua eficácia plena para salvar todo aquele que crê, dispensando etapas intermediárias e julgamentos posteriores aos méritos de Jesus.

    Tal reflexão convida todos os que sinceramente desejam seguir a verdade bíblica a rejeitarem doutrinas que fragmentam ou condicionam a dádiva da salvação consumada. O verdadeiro Evangelho é o da graça consumada, da paz já oferecida e da reconciliação já adquirida para todo aquele que tem fé em Jesus Cristo.

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