O Julgamento de Israel Dammon e as Origens do Adventismo
Israel Dammon, pregador millerita, presidiu uma reunião extática em 15 de fevereiro de 1845, com a presença de Ellen Harmon (futura White) e James White, resultando em um julgamento por desordem e fanatismo.
Por Rodrigo Custódio · Publicado em 24/05/2026 · 34 min
ISRAEL DAMMON (1811–1886): O Pregador Millerita, o Julgamento Esquecido de 1845 e o Que Ele Revela Sobre as Origens do Adventismo do Sétimo Dia
Resumo
Israel Dammon — ex-pregador batista de Livre-Arbítrio tornado millerita, residente em Exeter (condado de Penobscot, Maine) — presidiu, na noite de sábado, 15 de fevereiro de 1845, uma reunião extática na casa do agricultor adventista James Ayer Jr., em Atkinson (condado de Piscataquis). Na mesma reunião estavam fisicamente presentes a jovem Ellen Harmon (17 anos, futura Ellen G. White) e James White (23 anos). Testemunhas juramentadas no julgamento subsequente descreveram transes, gritaria contínua, rastejamento, beijos santos entre homens e mulheres, lava-pés, batismos noturnos em corrente gelada e ordens proferidas por Ellen Harmon de que pessoas "fossem para o inferno" se não fossem rebatizadas naquela mesma noite.
O julgamento ocorreu em Dover, Maine, em 17 e 18 de fevereiro de 1845, perante os juízes de paz Moses Swett e Seth Lee, com 38 testemunhas juramentadas (20 da acusação, 18 da defesa). Dammon foi acusado pelo lavrador Hartford J. Rowe de ser "vagabundo e ocioso… arruaceiro comum… negligente em seu ofício… desperdiçando seus ganhos e não provendo o sustento de sua família". Foi condenado a 10 dias na Casa de Correção, mas o advogado James Stuart Holmes apelou e, no termo de maio do tribunal distrital, o mandado foi anulado, de modo que Dammon nunca cumpriu pena.
A reportagem completa do julgamento foi publicada de forma abreviada no jornal Piscataquis Farmer (Dover, Maine), de 7 de março de 1845, redescoberta por volta de 1983 por Frederick G. Hoyt em microfilmes da Universidade do Maine, e publicada na revista Spectrum 17/5 (agosto de 1987), pp. 29–36, com mesa-redonda complementar nas pp. 37–50. O cotejo entre esse registro contemporâneo (sob juramento, 48 horas após os fatos) e o relato autobiográfico tardio de Ellen G. White (Spiritual Gifts, vol. 2, 1860, pp. 40–42) revela contradições graves sobre (a) a alegada paralisia sobrenatural de Dammon, (b) a resistência oferecida à polícia, (c) o suposto papel "anti-fanatismo" da profetisa e (d) detalhes verificáveis do julgamento.
Pontos Principais
1. Identidade e biografia de Israel Dammon
Nascido em 1811, falecido em 1886 (datas confirmadas por James R. Nix em The Ellen G. White Encyclopedia, 2013, pp. 358–360, com base em registros genealógicos e na nota fúnebre publicada em The World's Crisis, 24/11/1886, p. 90, com nota biográfica complementar em 15/12/1886, p. 102). Era pregador batista de Livre-Arbítrio havia pelo menos sete anos antes de 1845 (testemunhos de John Bartlett, John Gallison e Stephen Fish). Residia em Exeter, condado de Penobscot, Maine, onde, segundo o testemunho juramentado de Abraham Pease, tinha "uma pequena fazenda e uma família pequena". Casou-se em 1838 com Lydia Rich; teve ao menos três filhos (censos federais norte-americanos de Corinna, 1850, e Sangerville, 1860). Após sua ruptura com James e Ellen White (entre 1846 e 1847), Dammon migrou para o ramo dos Adventistas Cristãos — a denominação adventista guardadora do domingo à qual pertenciam Joshua V. Himes e Miles Grant — e nela atuou como ministro até o fim da vida.
A descrição corrente segundo a qual Dammon era um "ex-capitão do mar vindo de Exeter" (Bruce Weaver, Adventist Currents 3/1, 1988; Wikipédia, verbete "Israel Dammon trial"; verbete de James R. Nix, Ellen G. White Encyclopedia, 2013) tem fonte rastreável: Herbert E. Douglass, em Messenger of the Lord (Pacific Press, 1998), p. 473, afirma textualmente que "o aparente líder daquela noite era Israel Dammon, de Exeter, um ex-capitão do mar". Trata-se de uma tradição apologética secundária; nenhuma testemunha juramentada de 1845 menciona qualquer carreira marítima, e os depoimentos de Exeter o descrevem como pequeno fazendeiro-pregador que "trabalha parte do tempo e prega parte do tempo" (Job Moody).
2. A "casa de Dammon" em Exeter — local da visão do Noivo
Antes da reunião de Atkinson, Ellen Harmon viajou de Portland para Poland, Orrington, Garland, Exeter e Atkinson. Em casa de Dammon, em Exeter, em meados de fevereiro de 1845, ela recebeu sua "segunda visão" — a chamada Visão do Noivo — em que Jesus se ergueu do trono mediador e foi ao Santíssimo "como Noivo, para receber o seu reino" (carta de Ellen White a Joseph Bates, 13 de julho de 1847). Essa visão fixou doutrinariamente a "porta fechada" de 22 de outubro de 1844 e foi decisiva para a posterior elaboração do adventismo sabatista. Dammon aceitou então essa interpretação da porta fechada, mas com seu próprio teor radical — incluindo a crença de que os mortos haviam sido ressuscitados espiritualmente e que Cristo já viera espiritualmente em 22 de outubro de 1844.
3. Como Dammon conheceu Ellen Harmon e James White
O primeiro contato registrado se deu em Exeter, no início de fevereiro de 1845 (Nix, Ellen G. White Encyclopedia, 2013, pp. 358–360). James White e Ellen já haviam viajado juntos por algumas semanas. Conforme J. W. E. Harvey declarou no julgamento, sob juramento: "Dammon, [James] White e [Simeon] Hall eram os líderes" da reunião contínua em Atkinson, e "a primeira reunião durou oito dias". O outro pregador-companheiro era um certo "Élder Wood", de Orrington — peça importante na disputa sobre quem entrou no quarto com Dorinda Baker.
4. A reunião de 15 de fevereiro de 1845 em Atkinson — descrição contemporânea
Local e clima. Casa do agricultor adventista James Ayer Jr., na parte sudoeste de Atkinson. O registro meteorológico de Bangor descreveu aquele sábado como "nebuloso, com neve e granizo"; a temperatura máxima foi de cerca de 0,5 °C e caiu a cerca de −8 °C às 21 h; quase 23 cm de neve haviam caído naquele mês.
Presentes. Cerca de 50 a 60 pessoas, vindas de trenó de Exeter, Garland e Orrington. Duas "visionárias": Dorinda Baker (23–24 anos, de Orrington, descrita por Joshua Burnham como "moça doentia", cujo pai gastara mil dólares com médicos) e Ellen Harmon (17 anos, de Portland). Anciãos presentes: Dammon (presidente), Simeon Hall, James White e "Élder Wood".
Caráter extático. Sob juramento, o advogado William C. Crosby, 37 anos, testemunha da acusação, declarou: "Por vezes, todos falavam ao mesmo tempo, gritando a plenos pulmões… Uma mulher, deitada no chão de costas e com um travesseiro sob a cabeça, ocasionalmente se erguia para relatar uma visão que, segundo dizia, lhe fora revelada… Em certos momentos, era a assembleia mais ruidosa de que já participei — não havia ordem nem regularidade, tampouco qualquer coisa que se assemelhasse a qualquer outra reunião a que eu já tivesse comparecido." O diácono James Rowe, idoso, declarou: "Já fui jovem, agora sou velho, e de todos os lugares onde estive, nunca vi tamanha confusão, nem mesmo numa orgia de bêbados."
Ellen Harmon como "Imitação de Cristo". Loton Lambert (testemunha hostil): "A mulher que estava deitada no chão relatando visões era chamada pelo Élder Dammon e por outros de Imitação de Cristo… Dammon disse isso repetidamente — Dammon disse que Cristo revelava a ela, e ela aos outros… Diziam que, se o Todo-Poderoso tivesse algo a dizer, revelava a ela, e ela atuava como mediadora." Testemunhas da defesa (Osborn, Ayer Jr., Mason) negaram ter ouvido o termo — mas a forma da negação foi "não ouvi", e não "ela não foi chamada assim".
Visões de Ellen. Joel Doore (defesa) confirmou: "A senhorita Harmon relatou cinco visões na noite de sábado." Jacob Mason declarou ter visto James White "perto da irmã Harmon enquanto ela estava em transe — parte do tempo ele lhe segurava a cabeça". Lambert observou que Ellen permaneceu deitada de cerca das 19 h até "entre meia-noite e uma da manhã".
A fórmula "ir para o inferno" atribuída a Ellen Harmon. Cinco testemunhos — dois deles de testemunhas favoráveis. Lambert: "Disse a uma prima minha, em visão, que ela precisava ser batizada naquela noite ou iria para o inferno — ela objetou, porque já havia sido batizada uma vez"; "Ela chamou Joel Doore, disse que ele duvidara e não queria ser batizado de novo — disse: 'Irmão Doore, não vá para o inferno.' Doore ajoelhou-se a seus pés e orou." Isley Osborn (defesa): "Ela lhes disse que seus casos lhe haviam sido revelados pelo Senhor, e que, se não fossem batizados naquela noite, iriam para o inferno. Nós acreditamos nela." George S. Woodbury (defesa): "A irmã Harmon disse à minha esposa e às moças que, se não fizessem o que ela mandava, iriam para o inferno."
Batismos no Dead Stream. James Ayer Jr.: "Fomos à água depois das 11 horas — o irmão Dammon batizou duas pessoas." Eram duas moças de 17 anos (Joel Doore), uma delas filha de John Doore e já anteriormente batizada. Lambert: "Ela chorava amargamente e queria ver a mãe antes; disseram-lhe que precisava deixar a mãe ou ir para o inferno — uma voz disse: deixem-na ir para o inferno."
Beijo santo entre os sexos. James Ayer Jr. (defesa): "Faz parte da nossa fé beijarmo-nos uns aos outros — irmãos beijam irmãs e irmãs beijam irmãos; creio que temos autoridade bíblica para isso." Job Moody: "O beijo é uma saudação de amor; eu os saúdo assim — temos texto bíblico expresso para isso." Casos específicos: Dammon beijou a Sra. Osborn (Jeremiah B. Green, sob juramento, em reunião anterior, de 2 de fevereiro de 1845); Dammon beijou a Sra. Woodbury (o próprio Woodbury: "Tenho a impressão de que o prisioneiro beijou minha esposa"); Dammon "abraçando e beijando uma moça" depois da reunião em Garland (Joseph Knights); J. W. E. Harvey: "Vi o prisioneiro no chão com uma mulher entre as pernas dele — vi-os em grupos, abraçando-se e beijando-se uns aos outros… Uma vez vi o Élder Hall de botas tiradas, e as mulheres iam beijar-lhe os pés."
Rastejar. John H. Doore (defesa): "Vi tanto homens quanto mulheres rastejarem pelo chão sobre as mãos e os joelhos." George S. Woodbury: "Minha esposa e Dammon atravessaram o chão sobre as mãos e os joelhos."
O episódio do quarto com Dorinda Baker. Loton Lambert: "A senhorita Baker e um homem entraram no quarto — em seguida ouvi uma voz no quarto gritar 'Oh!'. A porta foi aberta — vi para dentro do quarto — ela estava na cama; ele a segurava; saíram do quarto abraçados, ela saltando e lançando as pernas por entre as dele… Pouco antes de irem à água para batizar, a senhorita Baker entrou no quarto com um homem a quem chamavam de Élder White — vi-o ajudá-la a subir na cama — a luz foi trazida para fora e a porta, fechada." A. S. Bartlett, advogado, sob juramento: "Ontem vi o Sr. Joel Doore e Loton Lambert conversando. Aproximei-me — ouvi Doore dizer-lhe que era o Élder White quem estava no quarto com a senhorita Baker — Lambert disse: 'Era isso que eu queria saber.'" Joel Doore (defesa) negou: "Penso que o Élder White não estava no quarto naquela noite; mas não sei quantos, nem quem, estavam lá." A defesa contra-atacou alegando que o homem visto trajava "um paletó curto de cor escura" e "calças claras" — vestimenta atribuída ao "irmão Wood", e não ao Élder White, que estaria de "sobrecasaca e calças escuras". Mas Thomas Proctor, sob juramento, declarou: "O prisioneiro [Dammon] me disse que a senhorita Baker tivera um 'exercício' no quarto, e que ele entrou e a ajudou a sair." Há ainda o famoso "beijo de reconciliação" entre Joel Doore e Dorinda Baker: "Quando ela me beijou, disse que havia luz adiante" (Doore); ela teria comentado "isto é bom" (Lambert, Downes).
Doutrina do não-trabalho. Ebenezer Trundy: "Dammon lhe disse [a Boobar] que ele devia viver dos que tinham propriedades, e que, se Deus não viesse, então todos teríamos de trabalhar juntos." Isley Osborn: "O Élder Dammon nos aconselha a abandonar todo trabalho." Woodbury: "O Élder Dammon aconselha que não trabalhemos, porque há o suficiente para viver até o fim do mundo."
Outro jornal millerita rival. O The Morning Watch, de 3 de abril de 1845, p. 111, advertiu os adventistas contra "Israel Dammon e John Moody, dois homens casados, e a senhorita DORINDA BAKER", viajantes que ensinavam "extravagâncias repugnantes" — prova de que mesmo dentro do adventismo millerita Dammon já era visto como fanático extremo.
5. Ellen White alegando "controlar" o corpo de Israel Dammon
No relato autobiográfico de Ellen White em Spiritual Gifts, vol. 2 (1860), pp. 40–42, quando o xerife veio prender Dammon, "o Espírito do Senhor repousou sobre ele, e sua força lhe foi tirada, e ele caiu ao chão, impotente… O Élder D. foi sustentado pelo poder de Deus por cerca de quarenta minutos, e toda a força daqueles homens não conseguia movê-lo do chão, onde jazia impotente". É o ponto em que Ellen, ela mesma prostrada em visão no chão, atribui a si — ou à presença de Deus mediada por seu transe — uma paralisia sobrenatural do corpo de Dammon. Nenhuma testemunha do julgamento confirma tal milagre, e o relato do xerife o contradiz diretamente.
6. A prisão
Após queixa formal de cidadãos (os vereadores Jacob Martin e Benjamin Smith testemunharam que moradores reclamaram), o subxerife Joseph Moulton, com três assistentes, chegou; foi-lhe negada a entrada e ele arrombou a porta. Moulton, sob juramento: "Várias mulheres se atiraram sobre ele — ele se agarrava a elas, e elas a ele. Tão grande foi a resistência que eu, com três assistentes, não consegui retirá-lo. Permaneci na casa e mandei buscar mais ajuda; depois que chegaram, fizemos uma segunda tentativa, com o mesmo resultado — mandei buscar mais ajuda novamente — depois que chegaram, dominamos a todos e o levamos para fora, sob custódia. Fomos resistidos tanto por homens quanto por mulheres. Não consigo descrever o lugar — era um griterio contínuo."
7. O julgamento (Dover, Maine, 17 e 18 de fevereiro de 1845)
Juízes: Moses Swett, juiz de paz de Foxcroft, associado a Seth Lee, juiz de paz de Atkinson; despacho inicial por Charles P. Chandler, juiz de paz de Piscataquis.
Acusador formal (queixoso): Hartford J. Rowe, de Dover, lavrador. Acusação textual: "Israel Dammon, residente em Atkinson… ocioso, é, e há vários dias tem sido, um vagabundo e pessoa ociosa, andando pela cidade de Atkinson… de lugar em lugar, mendigando; que o dito Israel Dammon é um arruaceiro ou desordeiro comum, negligenciando seu chamado ou ocupação, desperdiçando seus ganhos, e não provê o sustento de si mesmo e de sua família, contra a paz do Estado do Maine e contrariamente à forma do Estatuto previsto para tais casos." Base legal citada por Chandler: capítulo 178, seções 9 e 10, dos Revised Statutes of Maine (Estatutos Revisados do Maine).
Promotores: C. P. Chandler e H. G. O. Morison, "pelo Estado".
Advogado de defesa: James Stuart Holmes (1792–1879), primeiro advogado da comarca de Piscataquis, formado pela Universidade Brown em 1819, onde foi colega de turma e amigo de Horace Mann (que se formou orador da turma; Mann e Holmes manteriam correspondência por longos anos, conforme a história bicentenária da Foxcroft Academy). Era maçom (primeiro venerável mestre da Loja Maçônica de Foxcroft, instituída no próprio ano do julgamento) e religiosamente "livre-pensador", afiliado aos universalistas. Joseph D. Brown recordou o discurso de Holmes no julgamento como "uma das mais grandiosas defesas da tolerância e da liberdade religiosa que já tive o prazer de ouvir", um "argumento eloquente em favor da liberdade e da tolerância religiosas e do direito de toda pessoa de adorar a Deus segundo os ditames da própria consciência, debaixo da própria videira e da própria figueira" (Sprague's Journal of Maine History).
Declaração de Dammon: declarou-se inocente.
Testemunhas: 38 juramentadas (20 da acusação, 18 da defesa). A reportagem ocupou sete longas colunas do Piscataquis Farmer — espaço só concedido a discursos presidenciais.
Conduta do réu: "Na manhã de terça-feira, o prisioneiro, tendo tomado seu assento, levantou-se assim que o tribunal entrou e gritou 'Glória!' com toda a força dos pulmões." Antes do retorno dos advogados na tarde de terça, Dammon e suas testemunhas pediram permissão para cantar os hinos "While I was down in Egypt's land" e "Come Out of Her, My People".
Autodefesa de Dammon: leu Lucas 7,36; João 13; o último capítulo de Romanos; Filipenses 4; 1 Tessalonicenses 5; depois citou os Salmos 126 e 50, argumentando que "o dia da graça já passara, que os crentes haviam sido reduzidos em número, mas que o fim do mundo viria dentro de uma semana".
Veredito: culpado. Sentença: 10 dias na Casa de Correção.
Apelação: Holmes apelou. No termo de maio do tribunal distrital, o mandado foi anulado por defeito processual. Dammon escreveu em carta posterior, datada de Exeter, 28 de maio: "Fiquei adiado até o termo de maio; então o mandado foi anulado, e fui absolvido sem data marcada" (The Jubilee Standard, 5 de junho de 1845, p. 104). Dammon nunca cumpriu a pena.
8. As testemunhas (Piscataquis Farmer, 7 de março de 1845, reproduzido em Spectrum 17/5, agosto de 1987, pp. 29–36)
Acusação (20): Ebenezer Blethen; J. W. E. Harvey; William C. Crosby; Thomas Proctor; Moses Gerrish; Loton Lambert; William Ricker; Leonard Downes; diácono James Rowe; Jeremiah B. Green; Ebenezer Trundy; Joseph Moulton (subxerife); Jacob Martin (vereador de Atkinson); Benjamin Smith (vereador de Atkinson); Ebenezer Lambert; John Bartlett (Garland); A. S. Bartlett; Élder Flavel Bartlett; Joseph Knights (Garland); Plyn Clark.
Defesa (18): James Ayer Jr.; Job Moody; Isley Osborn; Abraham Pease (Exeter); Gardner Farmer (Exeter); Jacob Mason (Garland); Joel Doore (Atkinson); John H. Doore; George S. Woodbury; John Gallison; Abel S. Boobar; Joshua Burnham; Levi M. Doore; Stephen Fish (Exeter); Joel Doore Jr.; Abel Ayer; James Boobar.
Presentes mencionados, mas que não testemunharam: Ellen Harmon, James White, Dorinda Baker, Simeon Hall e "Élder Wood". Nem Ellen nem James foram intimados nem prestaram depoimento. É o ponto que o White Estate (FAQ "Israel Dammon", ellenwhite.org/faq/152) ressalta: "nenhuma das testemunhas no registro do julgamento de Israel Dammon alega qualquer atividade fanática por parte da jovem Ellen Harmon, de 17 anos".
9. A redescoberta de Hoyt e o debate acadêmico
Por volta de 1983, Frederick Gilman Hoyt (1920–2012), professor de história na Universidade La Sierra (Califórnia) — autoridade em história naval, mas também no adventismo primitivo — descobriu, examinando microfilmes da Fogler Library da Universidade do Maine, a edição de 7 de março de 1845 do Piscataquis Farmer. Ficou tão chocado que guardou o material em uma pasta por quatro anos, sem contar a ninguém, exceto à esposa.
Em julho de 1986, Bruce Weaver — ex-pastor adventista, então gerente de contas nacionais da Canon — descobriu independentemente o mesmo material em um microfilme da Fogler Library emprestado à biblioteca pública de Greensboro, Carolina do Norte. Walter Rea (autor de The White Lie, 1982, que documentou os plágios sistemáticos de Ellen White) pediu uma cópia a Weaver, prometeu sigilo e em seguida quebrou a promessa, enviando o material a Robert Olson (secretário do White Estate), com cópia para William G. Johnsson (editor da Adventist Review) e Neal C. Wilson (presidente da Conferência Geral), em 25 de novembro de 1986, e publicou-o no periódico dissidente Limboline (21 de janeiro de 1987), sem creditar Weaver.
Forçado pelo vazamento, Hoyt publicou na Spectrum 17/5 (agosto de 1987), pp. 29–36: "Trial of Elder I. Dammon Reported for the Piscataquis Farmer", com debate complementar de Rennie B. Schoepflin (editor), Jonathan M. Butler, Ronald Graybill e o próprio Hoyt nas pp. 37–50, sob o título "Scandal or Rite of Passage? Historians on the Dammon Trial".
Em abril de 1988, Weaver publicou seu artigo extenso "Incident in Atkinson: The Arrest and Trial of Israel Dammon" na Adventist Currents 3/1, pp. 16–36, com ilustração de Don Muth retratando Ellen no chão, cercada de cenas fanáticas.
Resposta inicial do White Estate: silêncio. Robert Olson, em memorando de 21 de outubro de 1987 ao conselho de curadores, declarou que "uma resposta formal do White Estate não é necessária" e que "aparentemente os membros da nossa igreja consideram o relato de pouca importância". Esse silêncio durou 17 anos.
Resposta oficial em 2004: James R. Nix, então diretor do White Estate, apresentou no Encontro de Cúpula Ellen G. White do Avondale College (Cooranbong, Nova Gales do Sul, Austrália, 2 a 5 de fevereiro de 2004) a palestra "Another Look at Israel Damman's Trial" — publicada em whiteestate.org/legacy/issues-israel_damman-html e posteriormente recolhida no verbete "Damman, Israel (1811–1886)" em The Ellen G. White Encyclopedia, ed. Denis Fortin e Jerry Moon (Hagerstown, Maryland: Review and Herald, 2013), pp. 358–360.
Outros estudos: Herbert E. Douglass, Messenger of the Lord: The Prophetic Ministry of Ellen G. White (Pacific Press, 1998), pp. 473–475; Merlin D. Burt, "The Historical Background, Interconnected Development, and Integration of the Doctrines of the Sanctuary, the Sabbath, and Ellen G. White's Role in Sabbatarian Adventism from 1844 to 1849" (tese de doutorado, Andrews University, 2002); Kevin M. Burton, "The Maine Event: Israel Dammon, Millerism, and Religious Intolerance in Nineteenth-Century America" (trabalho apresentado em cumprimento parcial dos requisitos do doutorado em religião, Florida State University, Departamento de Religião, 2016) — que declarou que a descoberta "enviou ondas de choque por toda a Igreja Adventista"; Michael W. Campbell, "Miles Grant, D. M. Canright, and the Credibility of Ellen G. White: A New Perspective on the Israel Dammon Trial" (Biblical Research Institute, Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia); Ronald D. Graybill, "Israel Dammon's Co-Defendant", Spectrum 52/2 (2024), pp. 50–56 — que assume posição mais crítica, descrevendo Ellen Harmon como "corré" em sentido moral.
10. As contradições essenciais entre Ellen White e o registro juramentado
Ponto | Ellen White (Spiritual Gifts II, 1860) | Testemunho juramentado |
|---|---|---|
Resistência à prisão | "Os servos de Deus… não ofereceram resistência" | Moulton: "Fomos resistidos tanto por homens quanto por mulheres" |
Duração / natureza da imobilização | "Cerca de quarenta minutos", sustentado pelo "poder de Deus" | Nenhuma testemunha menciona milagre |
Quem ofereceu o advogado | "Um advogado ofereceu seus serviços" | Joel Doore: "Fui eu que contratei advogado neste caso para defender o prisioneiro" |
Como Dammon expôs sua fé | "Pediram-lhe que desse uma síntese de sua fé" | "O tribunal permitiu que ele falasse" (foi ele quem pediu) |
Como surgiu o canto | "Pediram-lhe que cantasse um hino" | "O prisioneiro e suas testemunhas pediram permissão, e cantaram" |
Tempo prostrada em visões | Não mencionado | Cerca de 5 a 6 horas no chão (Lambert) |
Atuação anti-fanatismo de Ellen | "Tornou-se meu desagradável dever enfrentar isso" | Nenhuma testemunha registra Ellen condenando o fanatismo |
11. A ruptura final
Dammon, em carta de 28 de maio de 1845, publicada em The Jubilee Standard, 5 de junho de 1845, p. 104, dirigida ao editor Samuel S. Snow, ainda estava em pleno fervor da porta fechada e do ano do jubileu. Após encontros em Garland (final de 1845 e início de 1846), Ellen White (carta a J. N. Loughborough, 24 de agosto de 1874, Carta 2, 1874) relatou que Dammon liderara a crença de que "os mortos haviam sido ressuscitados" espiritualmente — heresia análoga à de Himeneu e Fileto (2 Timóteo 2,17-18) — que ela teve de repreender: "Enquanto eu repetia essa Escritura, o Élder Damon levantou-se e começou a saltar para cima e para baixo, clamando: 'Os mortos foram ressuscitados e subiram; glória a Deus! Glória, aleluia!'… 'Não consigo ficar sentado. O espírito e o poder da ressurreição estão agitando a minha própria alma.'" Conclusão de Ellen: "O Élder Dammon… tinha as mais positivas evidências de que as visões eram de Deus. Tornou-se meu inimigo apenas porque dei um testemunho que reprovava seus erros e seu rumo fanático, o qual feria a causa de Deus." James White também escreveu carta dura a Dammon, alimentando rixa duradoura (cf. Defense of Eld. James White and Wife: Vindication of their Moral and Christian Character, 1870, pp. 109–111).
Em 1874, Miles Grant, editor do World's Crisis e líder dos Adventistas Cristãos, em debate público com D. M. Canright (ainda adventista do sétimo dia na ocasião), publicou a citação direta de Dammon: "Já se passaram uns vinte anos ou mais desde que estivemos associados à Sra. W., mas nos lembramos muito bem de que sua primeira visão foi relatada tanto por ela mesma quanto por outros (especialmente pela Sra. W.) em conexão com a pregação da 'porta fechada', e serviu para sustentá-la. Enquanto estava sob aquela influência e pregava as visões, ela, em visão, viu N. G. Reed e I. Dammon no reino, em estado imortal e coroados. Depois, ela os viu finalmente perdidos. Como podem ambas as coisas ser verdadeiras? Penso que uma era tão verdadeira quanto a outra, e que Deus nunca lhe disse coisa alguma desse tipo" (Miles Grant, An Examination of Mrs. Ellen White's Visions, Boston: Advent Christian Publication Society, 1877, p. 70). Dammon, portanto, no fim da vida, rejeitou inequivocamente as visões de Ellen White como genuinamente divinas.
12. Caracterização de Dammon nas memórias dos Adventistas Cristãos
Isaac C. Wellcome, em History of the Second Advent Message and Mission, Doctrine and People (Yarmouth, Maine: I. C. Wellcome, 1874), p. 350, registrou que Dammon era "um dos homens mais barulhentos e incontroláveis", cuja pregação era "especialmente notável pela gritaria e pelos saltos". G. H. Wallace, em "Memories of Israel Damman", The World's Crisis, 24 de janeiro de 1904, p. 14, registra reminiscências semelhantes no folclore dos Adventistas Cristãos. Notavelmente, a denominação que o expulsou (os batistas de Livre-Arbítrio) e a denominação que o acolheu (os Adventistas Cristãos) concordam em descrevê-lo como excessivamente barulhento e descontrolado — caracterização que o próprio relato do Piscataquis Farmer confirma.
Desenvolvimento
1. O contexto: o fanatismo millerita no Maine pós-Desapontamento
A virada de 1844 para 1845 foi um período sem paralelo de turbulência religiosa no nordeste dos Estados Unidos. Após o "Grande Desapontamento" de 22 de outubro de 1844, dos estimados 50 mil a 100 mil seguidores de William Miller (conforme estimativa registrada na Encyclopædia Britannica, verbete "Millerism", apoiada em George R. Knight e Ronald L. Numbers), a maior parte reintegrou-se às denominações ortodoxas; uma minoria — particularmente no Maine — radicalizou-se em focos domésticos, dividindo-se em facções: adventistas do Noivo, "espiritualizadores", adventistas da porta fechada, defensores do não-trabalho, fixadores de datas. Havia práticas de "humildade voluntária" (rastejar como crianças, supostamente seguindo Mateus 18; beijos santos entre os sexos; lava-pés mistos; batismos múltiplos; "riso santo"), prostração extática, pretensos dons de cura, junto com a recusa de trabalhar — afinal, Cristo viria "esta semana". A comarca de Piscataquis foi a primeira a intervir civilmente; em seguida vieram Orrington, Bangor, Paris, Norway, Woodstock e Portland. Em 2 de abril de 1845, nove milleritas seriam acusados perante o tribunal de polícia de Bangor de serem "ociosos, vagabundos e perturbadores da paz pública" e condenados a penas de 5 a 30 dias na Casa de Correção.
Foi nesse contexto cultural e legal que a jovem Ellen Harmon, de 17 anos, gravemente enferma — Herbert E. Douglass, em Messenger of the Lord (1998), p. 473, escreve: "Sua saúde era extremamente frágil; estava devastada pela tuberculose, mal conseguia andar e estava 'marcada para a sepultura'" — partiu de Portland em janeiro de 1845, viajando de trenó com o cunhado Samuel Foss até Poland. Em fevereiro, encontrou-se com James White em Orrington — o "primeiro encontro", segundo a recordação dela de 1860, embora James White posteriormente recordasse tê-la visto antes, em 1843. Os dois viajaram juntos por Garland, Exeter (em casa de Dammon, onde Ellen teve a Visão do Noivo) e, finalmente, Atkinson, onde o desastre os engoliu.
2. Reconstrução cronológica detalhada da noite de 15 de fevereiro de 1845
A partir das 38 deposições juramentadas, reconstrói-se com alta confiabilidade:
Por volta das 19 h: os reunidos cantam hinos. Ellen Harmon prostra-se no chão, deitada de costas, com um travesseiro sob a cabeça. James White, sentado atrás dela, "parte do tempo" sustenta-lhe a cabeça nas mãos (testemunho de Jacob Mason). Dorinda Baker também "perde as forças" e cai no chão.
Das 19 h à meia-noite: Ellen permanece prostrada por 5 a 6 horas (Lambert), relatando cinco visões (Doore). Ergue-se ocasionalmente para apontar para alguém e dizer-lhe seu "caso", chamando-o pelo nome (Joel Doore, a prima de Lambert, a esposa de Woodbury, a esposa de Osborn), instando à submissão imediata sob ameaça de "ir para o inferno". Dammon, também deitado de costas parte do tempo, ergue-se e repete: "Cristo revelou a ela, e ela aos outros… ela atuava como mediadora" (Lambert). Esse mesmo Lambert ouve outros chamando-a de "Imitação de Cristo"; os defensores negam.
Cenas no chão: Dammon beija a Sra. Osborn (Green, sob juramento); abraça e beija a esposa de Woodbury; Harvey o viu "no chão com uma mulher entre as pernas e os braços ao redor dela"; "ele [Dammon] e Hall atravessam o chão de joelhos"; "mulheres beijavam os pés do Élder Hall". O lava-pés é misto: Green vira apenas "homens lavando homens e mulheres lavando mulheres" em reunião anterior, mas em Atkinson Isley Osborn diz preferirem "cumprir a ordenança do lava-pés em segredo" — o que sugere lava-pés entre os sexos naquela noite.
O quarto: em certo momento, Dorinda Baker, "perdendo as forças", é levada/conduzida ao quarto. Lambert e Downes juram tê-la visto na cama com um homem, inicialmente identificado como "Élder White", o que A. S. Bartlett confirma ter ouvido do próprio Joel Doore. A defesa contra-ataca apontando que a roupa do homem visto era a do irmão Wood (de Orrington — "calças claras, paletó escuro"), e não a do Élder White ("sobrecasaca e calças escuras"). James Ayer Jr. insiste em que nenhum homem foi ao quarto, e que a Sra. Osborn e o próprio irmão Wood ajudaram a senhorita Baker a sair da cama. Mas Thomas Proctor, sob juramento: "O prisioneiro [Dammon] me disse que a senhorita Baker tivera um 'exercício' no quarto, e que ele entrou e a ajudou a sair." O fato indisputado: uma mulher solteira de 23 anos foi para o quarto, sobre uma cama, com um ou mais homens, com a porta fechada e luz dentro, e saiu "abraçada com ele, saltando e lançando as pernas por entre as dele" (Lambert).
Depois das 23 h: o grupo desce ao Dead Stream (ou a um afluente) para batizar duas moças de 17 anos, uma delas já antes batizada — filha de John Doore. A jovem chora pedindo para ver a mãe; alguém grita "deixem-na ir para o inferno". É batizada, por coerção moral, em água gelada, a temperatura de cerca de −8 °C.
Entre meia-noite e uma da manhã: Lambert sai. Ellen continua deitada no chão; Dammon continua a pregar e cantar.
Manhã de domingo (16/2): dois homens olham pela janela. Ellen percebe-os: "Ficamos certos do propósito deles" (Ellen, Spiritual Gifts II, p. 40). Eles entram correndo e vão direto a Dammon. Ele "cai ao chão, impotente". Moulton: "Em nome do Estado do Maine, prendam este homem." Mulheres saltam sobre Dammon. Os quatro policiais não conseguem movê-lo. Moulton manda buscar reforço — duas vezes. As forças combinadas, por fim, o levam preso. Ellen White recordaria, 15 anos depois, um milagre de paralisia divina de 40 minutos.
3. O ponto sobre "Ellen White controlando o corpo de Israel"
A formulação tem duas dimensões. A primeira — teológica e narrativa — é que é Ellen quem, em seu relato de 1860, atribui a si mesma (ou à presença de Deus mediada por sua visão simultânea) a paralisia sobrenatural do corpo de Dammon durante a tentativa de prisão. Ela está deitada, prostrada, em visão; Dammon cai impotente e é "sustentado pelo poder de Deus" por 40 minutos. A segunda, simbólica, é que o grupo a descreve como "mediadora" entre Cristo e os irmãos ("ela atuava como mediadora" — Lambert) e como "Imitação de Cristo" — uma autoridade carismática que, do chão, indica quem deve ser batizado, quem deve ser perdoado, quem irá para o inferno. Ela exerce controle ritual sobre os corpos e os destinos dos presentes — controle que se estende a Dammon na ficção providencial de seu próprio relato.
A objeção apologética evangélica honesta é dupla: (1) nenhuma testemunha juramentada corrobora o milagre da imobilização; (2) o testemunho do xerife, sob juramento — o único oficial diretamente envolvido —, descreve resistência humana (homens e mulheres saltando sobre Dammon, agarrando-o, três investidas com reforços) que contradiz frontalmente a narrativa miraculosa da profetisa adventista. Quando uma alegação extraordinária colide com o registro contemporâneo, sob juramento, das pessoas que estavam fisicamente lá, a presunção evangélica de fidelidade à verdade exige privilegiar o registro juramentado.
4. O julgamento e a defesa de Holmes
O julgamento, em duas sessões (segunda-feira, 17, e terça-feira, 18 de fevereiro de 1845), foi tão volumoso que ocupou sete longas colunas do Piscataquis Farmer. A acusação produziu o testemunho devastador de Loton Lambert, corroborado por seu primo Leonard Downes. O xerife Joseph Moulton descreveu a violência da prisão. Os vereadores de Atkinson, Jacob Martin e Benjamin Smith, atestaram que os cidadãos pediam intervenção. Os advogados Crosby e Bartlett — ambos com interesse profissional em manter a integridade do sistema legal — descreveram a reunião como "a assembleia mais ruidosa de que já participei". A defesa, dirigida por James Stuart Holmes, apresentou 18 testemunhas, todas adventistas confessas, e três delas confirmaram substancialmente o testemunho de Crosby (Ayer Jr.: "Concordo substancialmente com Crosby e Lambert"; Osborn: "Penso que o testemunho do Sr. Crosby está correto"; Mason: "Ouvi Crosby depor e o considero correto"). Os pontos contestados foram apenas (a) se Ellen Harmon foi chamada de "Imitação de Cristo"; e (b) quem estava no quarto com Dorinda Baker.
Holmes — primeiro advogado do condado, formado pela Universidade Brown (1819) como colega e amigo de Horace Mann, maçom, livre-pensador afiliado aos universalistas — fez um apelo eloquente à liberdade religiosa garantida pela Primeira Emenda: "o direito de toda pessoa de adorar a Deus segundo os ditames da própria consciência, debaixo da própria videira e da própria figueira" (Brown, apud Sprague). Apesar disso, Moses Swett e Seth Lee condenaram Dammon a 10 dias na Casa de Correção. Holmes apelou; no termo de maio o mandado foi anulado por defeito processual. Dammon saiu "absolvido sem data marcada". Ironicamente, o defensor mais eloquente do millerita extremo era um livre-pensador universalista e maçom.
A questão da "esposa espiritual" foi respondida humoristicamente por Dammon: "[ele] tinha uma esposa legítima, e podia agradecer a Deus que ela tinha sido uma mulher muito espiritual desde que a conhecera" (Ellen White, Spiritual Gifts II, p. 42). Contudo, o testemunho de James Ayer Jr. sob inquirição é embaraçoso: "Dammon disse que tinha uma esposa espiritual e que estava contente com isso" — frase ambígua, que reflete a inquietação moral do grupo.
5. As testemunhas-chave em destaque
Loton Lambert (acusação): única testemunha que afirma o termo "Imitação de Cristo"; presenciou o episódio do quarto e o "isto é bom" após o beijo.
William C. Crosby (acusação): advogado de 37 anos, presente das 19 h às 21 h. Endossado pela defesa.
Diácono James Rowe (acusação): "Nunca vi tamanha confusão, nem mesmo numa orgia de bêbados."
Joseph Moulton (xerife): testemunho único sobre a resistência física à prisão; contradiz Ellen.
Jeremiah B. Green (acusação): viu Dammon beijar a Sra. Osborn em 2 de fevereiro de 1845.
James Ayer Jr. (defesa): dono da casa; reconhece o beijo entre os sexos; afirma: "Fomos à água depois das 11 horas — o irmão Dammon batizou duas pessoas."
Joel Doore (defesa): protagonista do "beijo de reconciliação" com Dorinda Baker.
John Gallison (defesa): testemunho considerado pela acusação como prova de insanidade; declarou explicitamente: "Nós lavamos os pés uns dos outros — rastejamos pelo chão de maneira muito decente."
Joshua Burnham (defesa): atestou o caráter de Dorinda Baker.
Stephen Fish (defesa, de Exeter): conhecia Dammon havia 7 anos, pelas reuniões trimestrais.
Élder Flavel Bartlett (acusação): "O prisioneiro não pertence à Igreja Batista de Livre-Arbítrio. Não está em comunhão com eles."
Sobre James White: mencionado por Harvey ("Dammon, White e Hall eram os líderes"); por Mason ("o Élder White… parte do tempo segurava-lhe a cabeça"); por Lambert ("Joel Doore me disse que era White quem estava no quarto"); e por A. S. Bartlett (que corroborou Lambert). White não testemunhou.
Sobre Ellen Harmon: mencionada por Ayer Jr. ("o nome dela é senhorita Ellen Harmon, de Portland"); por Mason ("a irmã Harmon tem dezoito ou dezenove anos"); por Lambert (a "mulher das visões"); e por Crosby (a "mulher no chão"). Não testemunhou.
6. A redescoberta e a resposta institucional
A descoberta da reportagem foi, nas palavras de Douglas Hackleman (Adventist Currents 3/1, abril de 1988, p. 3), "a descoberta histórica adventista da década — senão do século". Hoyt descobriu-a por volta de 1983, mas guardou-a por 4 anos. Em paralelo, Weaver descobriu o mesmo em julho de 1986. A "cadeia de custódia" envolveu Walter Rea — autor de The White Lie (1982), que documentou os plágios sistemáticos de Ellen White — que quebrou um acordo de confidencialidade. A Spectrum publicou em agosto de 1987, com debate (Hoyt, Schoepflin, Butler, Graybill). Weaver publicou na Adventist Currents em abril de 1988.
A resposta inicial do White Estate foi o silêncio. Robert Olson, em memorando de 21 de outubro de 1987, afirmou que "uma resposta formal do White Estate não é necessária" e que "aparentemente os membros da nossa igreja consideram o relato de pouca importância". Apenas 17 anos depois, em fevereiro de 2004, no Encontro de Cúpula Ellen G. White do Avondale College (Cooranbong, Austrália), James R. Nix apresentou "Another Look at Israel Damman's Trial". Nix defende três pontos: (1) Ellen estava ali não para apoiar, mas porque aquelas eram as "únicas pessoas que ouviriam" sua mensagem; (2) o relato do Piscataquis Farmer é "imperfeito" — o próprio repórter dizia ser inexperiente, "um trabalhador braçal"; (3) a "mentalidade espiritual" de Ellen "naturalmente tornaria sua perspectiva diferente da do xerife". Herbert E. Douglass, em Messenger of the Lord (1998), p. 474, oferece a famosa síntese apologética: "A Igreja Adventista do Sétimo Dia começou em meio a gritaria, rastejamento, abraços e alegorizadores do Segundo Advento? Definitivamente não. Ninguém em Atkinson era guardador do sábado, nem mesmo Ellen Harmon. Ninguém, naquela noite, compreendia o papel de Jesus como Sumo Sacerdote. Ninguém no círculo de Dammon tinha a menor noção do Tema do Grande Conflito e de suas implicações para eles."
A apologética adventista observa, com razão, que nenhuma testemunha alegou qualquer conduta indecente por parte de Ellen Harmon, de 17 anos (ellenwhite.org/faq/152). É verdade. Ela está deitada, à vista de todos, ministrando "casos" individuais — não rastejando, não beijando explicitamente nenhum homem, não no quarto. Mas a crítica evangélica responde: ela está no centro coreográfico do fanatismo; ela emite as ordens de "ir para o inferno se não for batizado nesta noite"; ela age como "mediadora" entre Cristo e os reunidos; e, em seu relato posterior, ela falsifica detalhes verificáveis. O White Estate critica o relato jornalístico como "imperfeito", mas o próprio repórter o publicou diante das mesmas testemunhas, oferecendo-se a correções: "Abreviei seu testemunho tanto quanto possível… esforcei-me, em todos os casos, por não os representar erroneamente." Nenhuma correção emergiu nos números seguintes do Piscataquis Farmer.
7. Implicações apologéticas evangélicas
Da perspectiva evangélica protestante histórica, o caso Dammon é um documento providencial.
Primeiro, demonstra que o movimento millerita pós-Desapontamento estava, em sua minoria mais radical, mergulhado em fenômenos extáticos indistinguíveis dos cultos entusiásticos do avivamento de Cane Ridge, de 1801, e dos abusos carismáticos posteriores — práticas que não fazem parte do depósito apostólico (Judas 3) e que violam o decoro reformado exigido nas Escrituras (1 Coríntios 14,40: "Faça-se tudo com decência e ordem"). Ninguém que conheça a austeridade dos puritanos coloniais, dos batistas de Spurgeon ou dos presbiterianos de Princeton reconheceria, nos transes de horas, nos beijos santos entre os sexos, no rastejamento, nos batismos noturnos compulsórios sob ameaça do inferno, ou na designação de uma adolescente como "Imitação de Cristo" e "mediadora", a marca da igreja apostólica.
Segundo, mostra que doutrinas como a porta fechada (refutada pela própria 2 Pedro 3,9: "O Senhor… é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça"), a ressurreição espiritual já realizada (refutada por 2 Timóteo 2,17-18, sobre Himeneu e Fileto, "que se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já se realizou") e a fixação obsessiva de datas (contrariando Mateus 24,36) foram precisamente as condições teológicas que deram origem ao adventismo do sétimo dia. É reconhecimento extraordinário de Herbert Douglass: a denominação que hoje se considera "remanescente fiel" da Igreja apostólica nasceu no lar de um homem que seria condenado por desordem pública, em uma reunião onde a sua profetisa adolescente jazia no chão dando ordens de batismo gelado a meninas de 17 anos sob ameaça do inferno.
Terceiro, a comparação entre o registro contemporâneo (sob juramento, com 38 testemunhas, dentro de 48 horas dos fatos) e a memória autobiográfica polida e providencializada de 15 anos depois é um estudo de caso devastador sobre o caráter da prosa profética de Ellen G. White — não só sobre seu plágio textual já documentado por Rea (1982), mas sobre a manipulação, consciente ou inconsciente, da memória histórica a serviço da legitimidade institucional. Se a profetisa contradiz, em pontos verificáveis e nominais, o testemunho juramentado do oficial responsável pela prisão, é o testemunho juramentado que deve prevalecer.