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    O Paradoxo Adventista diante dos Batistas do Sétimo Dia
    O Sábado

    O Paradoxo Adventista diante dos Batistas do Sétimo Dia

    Análise crítica mostra como o paradoxo entre adventistas e Batistas do Sétimo Dia expõe fragilidades teológicas do remanescente. Leia e reflita biblicamente

    December 31, 20256 min min readBy Rodrigo Custódio

    Introdução

    A Igreja Adventista do Sétimo Dia se entende como a “igreja remanescente de Deus”, baseada em Apocalipse 12:17: “os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus”. Nesse esquema:

    • O mandamento‑símbolo é o sábado do sétimo dia.

    • O testemunho de Jesus é identificado com o “espírito de profecia” em Ellen G. White.

    À primeira vista, o critério parece simples: quem guarda o sábado e tem o espírito de profecia é remanescente. Mas, quando se olha para outro grupo sabatista histórico — os Batistas do Sétimo Dia — a contradição aparece: o sábado, sozinho, não define o remanescente; o que define, na prática, é a adesão ao pacote teológico adventista centrado em Ellen White.


    1. O papel dos Batistas do Sétimo Dia na origem do sábado adventista

    • Os Batistas do Sétimo Dia guardam o sábado desde o século XVII, muito antes de existir adventismo sabatista.

    • Foi por meio de uma Batista do Sétimo Dia (Rachel Oakes) que Joseph Bates, um dos pioneiros adventistas, conheceu a doutrina do sábado e a abraçou.

    • Bates tornou‑se o principal propagador do sábado entre os mileritas, e a partir dele o sábado entrou na teologia adventista.

    Fontes adventistas admitem claramente:

    • O conhecimento do sábado entrou no movimento adventista por meio dos Batistas do Sétimo Dia.

    • Ellen White, em suas memórias, diz que inicialmente achou exagerada a ênfase de Bates no quarto mandamento, para depois aceitar a doutrina.

    Ou seja: o principal “sinal” identitário adventista foi recebido de um grupo sabatista anterior.


    2. Por que os Batistas do Sétimo Dia não são considerados “remanescente”

    Apesar disso, hoje os Batistas do Sétimo Dia não são reconhecidos como remanescente pela IASD. As razões não têm a ver com o sábado (que eles guardam), mas com a rejeição de elementos centrais do adventismo:

    1. Rejeição de Ellen White como profetisa

      • A crença fundamental adventista sobre o dom de profecia diz que esse dom “se manifestou no ministério de Ellen G. White” e é sinal da igreja remanescente.

      • Na prática, “ter o testemunho de Jesus” = aceitar o ministério profético de Ellen White.

      • Os Batistas do Sétimo Dia rejeitam totalmente o status profético de Ellen White.

    2. Rejeição do juízo investigativo de 1844

      • O juízo investigativo é considerado doutrina “cardinal” da fé adventista.

      • Ellen White declara que os pioneiros foram “divinamente guiados” a formular essa doutrina e que rejeitá‑la é afastar‑se da verdade.

      • Os Batistas do Sétimo Dia não aceitam a ideia de que, em 1844, Cristo começou um juízo pré‑advento no Santíssimo.

    3. Não adoção do “pacote adventista” (saúde + escatologia específica)

      • A identidade adventista inclui: mensagem de saúde (vegetarianismo, cuidados dietéticos), leitura particular de Apocalipse 13 (papado, EUA, leis dominicais, marca da besta como domingo forçado).

      • Os Batistas do Sétimo Dia, embora sabatistas, não seguem essa moldura profético‑dietética.

    Conclusão: no esquema adventista, o sábado é necessário, mas não suficiente. O filtro decisivo é a adesão ao conjunto doutrinário moldado por Ellen White.


    3. A narrativa de exclusividade e o silêncio sobre outros sabatistas

    Nas grandes obras de identidade adventista:

    • O remanescente é apresentado como:

      • O pequeno grupo milerita que aceitou o sábado.

      • Que reconheceu as visões de Ellen White.

      • Que se organizou como Igreja Adventista do Sétimo Dia.

    Os Batistas do Sétimo Dia:

    • São mencionados, quando muito, como canal histórico pelo qual o sábado chegou a Bates.

    • Não aparecem como possíveis remanescentes, nem como parte do “povo de Deus” final.

    Razões prováveis para esse silêncio:

    1. Manter a narrativa de exclusividade

      • Se outro grupo, fora da IASD, guarda o sábado há séculos e ama a Cristo, isso enfraquece a afirmação de que apenas os adventistas cumprem Apocalipse 12:17.

    2. Evitar um sábado “sem Ellen White”

      • Dar destaque a Batistas do Sétimo Dia mostraria que se pode guardar o sábado biblicamente sem aceitar Ellen White.

      • Isso ameaçaria a ideia de que o “espírito de profecia” whiteano é indispensável para a compreensão correta da lei.

    3. Preservar o controle hermenêutico

      • Ellen White é apresentada como intérprete divina da história e da profecia.

      • Outro grupo sabatista, com leitura diferente, dificulta a manutenção desse monopólio interpretativo.


    4. O problema bíblico dessa construção

    Do ponto de vista bíblico, surgem vários problemas:

    1. Critério de pertença ao povo de Deus

      • Jesus define o Seu rebanho como aqueles que ouvem Sua voz e O seguem (João 10).

      • Paulo fala da circuncisão do coração, no Espírito, como marca do verdadeiro povo de Deus (Romanos 2).

      • Apocalipse 7 e 14 destacam fidelidade ao Cordeiro, pureza espiritual e perseverança, não a aceitação de um profeta do século XIX.

    2. Ampliação indevida da definição de remanescente

      • O adventismo não se contenta em dizer: “remanescente são os que guardam os mandamentos e têm fé em Jesus”.

      • Acrescenta: “e aceitam Ellen White, o juízo investigativo, a mensagem de saúde, nossa escatologia específica”.

    3. Exclusão injustificável de outros sabatistas

      • Se o sábado é de fato o grande teste final, seria coerente reconhecer como “povo de Deus” qualquer grupo que, por fé, guarde o sábado bíblico.

      • Ao excluir Batistas do Sétimo Dia (e outros sabatistas) apenas por não aceitarem Ellen White, a IASD mostra que o verdadeiro ponto de corte não é o sábado, mas o sistema adventista em si.

    4. Risco de repetir o erro dos discípulos

      • Quando os discípulos proibiram alguém de expulsar demônios em nome de Jesus, porque “não andava conosco”, o Senhor os corrigiu: “não o impeçais; quem não é contra vós é por vós” (Marcos 9:38–40).

      • A lógica adventista de “só nós somos o remanescente” ecoa, perigosamente, essa mesma atitude exclusivista.


    5. Entendendo o Problema

    A autoimagem adventista de ser o remanescente exclusivo de Deus, porque guarda o sábado, entra em choque com o fato histórico de que:

    • O sábado lhes chegou por meio dos Batistas do Sétimo Dia.

    • Esse grupo, mais antigo, fiel ao sábado e comprometido com a Escritura, é hoje descartado como não‑remanescente, não por desobediência, mas por recusar:

      • Ellen White como profetisa normativa.

      • O juízo investigativo e o arranjo escatológico de 1844.

      • A extensão do “espírito de profecia” para além da Bíblia.

    Na prática, o que define o remanescente, para o adventismo, não é apenas “guardar os mandamentos de Deus e ter a fé de Jesus”, mas ser membro de uma estrutura denominacional específica, submetida a um corpo de escritos extra‑bíblicos. Os Batistas do Sétimo Dia, ao mostrarem que é possível ser sabatista, bíblico e cristocêntrico sem esse aparato, expõem a fragilidade dessa construção.

    Para uma fé realmente alicerçada na Escritura, o remanescente não se confunde com um rótulo denominacional único, mas com todos aqueles, de qualquer grupo, que foram regenerados pela graça, seguem o Cordeiro onde quer que vá e obedecem a Deus por amor, sem subordinar a Palavra inspirada a qualquer outro magistério humano.

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