
Tatuagens e o Cristão: Uma Resposta Bíblica ao Pastor Leandro Quadros e à Interpretação Adventista
O Pastor disse que você não deve fazer tatuagens. Mas será que a Bíblia realmente ensina isso? Vamos direto ao ponto, com textos claros e verificáveis.
O Pastor Leandro Quadros, porta-voz oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, publicou recentemente um vídeo afirmando que cristãos convertidos não devem fazer tatuagens, embora admita que "não é questão moral". Esta contradição interna revela um problema teológico mais profundo: a imposição de regras extrabíblicas disfarçadas como "princípios cristãos". Este artigo examina criticamente cada argumento apresentado, demonstrando suas falhas exegéticas e hermenêuticas através de análise textual rigorosa e evidências verificáveis.
I. Levítico 19:28 — Análise Contextual e Exegética
1.1 O Texto em Seu Contexto Original
Levítico 19:28 (ARA)
"Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca de tatuagem em vós. Eu sou o SENHOR."
Este versículo está inserido no Código de Santidade (Levítico 17–26), uma seção legislativa que regulamentava a vida cultual, social e ritual de Israel sob o Antigo Pacto.
1.2 Estrutura Literária de Levítico 19
O capítulo apresenta uma mistura deliberada de três categorias de lei:
A) Leis morais universais (aplicáveis a todas as épocas):
"Não furtareis, nem mentireis" (v.11)
"Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (v.18)
B) Leis cerimoniais temporárias (abolidas em Cristo):
"Não plantarás… duas espécies de semente" (v.19)
"Não usarás roupa de dois tipos de tecido" (v.19)
C) Leis de separação cultural (distinguindo Israel das nações):
"Não cortareis o cabelo… nem danificareis as extremidades da barba" (v.27)
"Não fareis… tatuagem em vós" (v.28)
A proximidade textual é exegeticamente significativa: a proibição de tatuagens está imediatamente adjacente às proibições de cortar a barba e fazer incisões rituais de luto (v.27-28a).
1.3 Contexto Histórico-Cultural: O Antigo Oriente Próximo
Evidências arqueológicas e textuais demonstram:
Egito Antigo:
Múmias femininas datadas de c. 2000 a.C. apresentam tatuagens rituais associadas a fertilidade e proteção mágica
Sacerdotisas de Hathor possuíam marcas corporais permanentes como identificação cultual
Mesopotâmia:
Textos cuneiformes documentam marcação corporal de escravos e devotos de templos
O Código de Hamurabi (c. 1750 a.C.) menciona práticas de marcação permanente
Canaã:
Rituais de luto incluíam escarificação e tatuagens como invocação de divindades ctônicas
Cultos de Baal e Asherah empregavam marcas corporais como consagração religiosa
1.4 Interpretação Judaica Tradicional
Talmude e Mishnah:
A tradição rabínica (Makkot 3:6) especifica que a proibição de Levítico 19:28 aplica-se exclusivamente a marcas permanentes feitas com intenção idólatra ou ritualística.
Implicações exegéticas:
Tatuagens involuntárias (impostas por captores) não violam a lei
O critério decisivo é a intenção cultual, não o procedimento técnico
A proibição visava separação de práticas pagãs, não estética corporal
1.5 Conclusão Exegética
Levítico 19:28 é uma lei de santidade cerimonial e cultural, não um princípio moral transcultural. Sua função era estabelecer marcadores de identidade que diferenciassem Israel das nações idólatras circundantes.
Aplicar esta lei aos cristãos hoje requer:
Também proibir barbas aparadas (v.27)
Também proibir roupas mistas (v.19)
Também proibir plantio de culturas múltiplas (v.19)
A hermenêutica adventista seleciona arbitrariamente qual parte de Levítico 19 permanece válida, violando a integridade do texto.
II. O Silêncio do Novo Testamento: Argumento Teológico Decisivo
2.1 Jesus Cristo e os Evangelhos
Fato verificável: Jesus nunca mencionou tatuagens em nenhum dos quatro evangelhos canônicos.
Significado teológico:
Jesus confrontou extensivamente práticas judaicas contemporâneas:
Lavagem cerimonial de mãos (Marcos 7:1-23)
Leis dietéticas (Marcos 7:18-19)
Observância sabática (Mateus 12:1-14)
Tradições de pureza ritual (Lucas 11:37-41)
Se tatuagens fossem moralmente problemáticas para o discipulado cristão, este seria o momento exegético apropriado para Jesus abordá-las. Seu silêncio é teologicamente significativo.
2.2 Paulo e as Epístolas
Fato verificável: Paulo nunca menciona tatuagens em suas treze epístolas canônicas, apesar de:
Escrever extensivamente sobre liberdade cristã (Gálatas, Romanos)
Abordar questões de consciência detalhadamente (Romanos 14; 1 Coríntios 8-10)
Tratar de adornos corporais no contexto de adoração (1 Timóteo 2:9-10)
Enfrentar judaizantes que impunham práticas do Antigo Pacto (Gálatas 2-5)
2.3 O Concílio de Jerusalém (Atos 15)
Decisão apostólica oficial sobre quais leis do Antigo Testamento aplicam-se aos gentios:
Atos 15:28-29
"Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas."
Lista completa das restrições:
Idolatria
Imoralidade sexual
Consumo de sangue
Carne sufocada
Ausências notáveis:
Tatuagens
Barbas
Roupas mistas
Calendário religioso
Circuncisão (exceto v.21, cumprimento cultural voluntário)
Conclusão teológica: A igreja apostólica, sob orientação do Espírito Santo, deliberadamente excluiu regulações cerimoniais levíticas da obrigação cristã.
III. 1 Timóteo 2:9-10 — Eisegese Adventista Exposta
3.1 O Texto em Tradução Literal
1 Timóteo 2:9-10 (ARA)
"Da mesma sorte, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, mas com boas obras, como é próprio às mulheres que professam ser piedosas."
3.2 Análise Contextual Rigorosa
Contexto literário imediato:
Versículos 1-7: Oração pública por autoridades
Versículo 8: Conduta dos homens durante oração pública
Versículos 9-15: Conduta das mulheres no culto público
Contexto histórico-cultural:
Éfeso (destinatário da carta) era um centro de:
Culto à deusa Ártemis (Diana)
Prostituição cultual no templo
Ostentação de riqueza através de adornos elaborados
Competição social através de vestuário luxuoso
Contexto teológico:
Paulo está contrastando:
Falsa piedade → expressa através de aparência externa ostensiva
Verdadeira piedade → expressa através de caráter e obras
3.3 O Que Paulo NÃO Está Fazendo
1. Não está proibindo absolutamente joias ou adornos
Prova textual:
Pedro usa linguagem paralela em 1 Pedro 3:3-4:
"Não seja o adorno das esposas o que é exterior… mas o homem interior do coração, unido ao traje incorruptível de um espírito manso e tranquilo."
Pedro estabelece um contraste de ênfase, não uma proibição absoluta.
2. Não está criando código de vestimenta universal
Evidência:
Paulo usa metáforas de adorno positivamente em outros textos:
"Revesti-vos do novo homem" (Efésios 4:24)
"Tomai… o capacete da salvação" (Efésios 6:17)
Apocalipse descreve a noiva de Cristo "adornada" para o noivo (Apocalipse 19:7-8; 21:2)
Se adorno externo fosse intrinsecamente problemático, essas metáforas seriam teologicamente inadequadas.
3. Não está abordando tatuagens
Razão hermenêutica:
Tatuagens no mundo greco-romano do século I eram socialmente estigmatizadas, associadas a:
Escravos marcados por proprietários
Criminosos marcados pelo Estado
"Bárbaros" não-helênicos
Cidadãos greco-romanos livres não se tatuavam. Não era uma prática que Paulo precisaria abordar no contexto de mulheres cristãs em Éfeso.
3.4 A Eisegese do Pastor Leandro Quadros
O que ele faz:
Extrai o versículo do contexto específico (mulheres no culto em Éfeso)
Generaliza para "cristãos devem chamar atenção pelo que são, não pelo que usam"
Aplica essa generalização a tatuagens (não mencionadas no texto)
Conclui: "portanto, não faça tatuagens"
Isso é eisegese clássica: impor ao texto um significado que ele não carrega.
IV. Princípios Bíblicos de Liberdade Cristã
4.1 Gálatas 5:1 — Liberdade da Lei
Gálatas 5:1
"Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão."
Contexto teológico:
Paulo está combatendo judaizantes que impunham:
Circuncisão obrigatória (5:2-6)
Observância de calendário religioso (4:10)
Regulações dietéticas (2:11-14)
Princípio estabelecido:
Impor qualquer regulação do Antigo Pacto como condição ou evidência de discipulado verdadeiro é retornar à escravidão da Lei, contra a qual Cristo nos libertou.
4.2 Romanos 14 — Questões de Consciência
Romanos 14:1-4
"Acolhei o que é fraco na fé, não, porém, para discutir opiniões. Um crê que de tudo pode comer, mas o que é fraco come só legumes. Quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio?"
Categoria teológica: Adiaphora
Paulo estabelece que existem questões moralmente neutras (adiaphora) onde:
A Escritura não dá mandamento claro
Cristãos maduros podem discordar legitimamente
Cada um deve decidir por consciência diante de Deus
Ninguém pode impor sua convicção aos outros
Romanos 14:5
"Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente."
Romanos 14:22-23
"A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus… Tudo o que não provém de fé é pecado."
Princípio aplicado:
Tatuagens são adiaphora: a Escritura não as proíbe explicitamente no Novo Pacto, portanto são questão de consciência individual, não mandamento universal.
4.3 1 Coríntios 10:23-24 — Liberdade com Responsabilidade
1 Coríntios 10:23
"Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas são lícitas, mas nem todas edificam."
Estrutura do argumento paulino:
Tese: Liberdade ampla em Cristo
Qualificação: Exercer liberdade com sabedoria
Critérios:
Conveniência — isso me beneficia espiritualmente?
Edificação — isso edifica outros?
Glória de Deus — "Fazei tudo para a glória de Deus" (v.31)
Aplicação:
Paulo não restringe a liberdade, mas exige que seja exercida com consideração pastoral e amor.
V. Controle Eclesiástico Disfarçado: Análise Crítica
5.1 A Técnica Retórica Adventista
Estrutura do argumento do Pastor Leandro:
Concessão inicial: "Ter tatuagem não é questão moral"
Inserção de "princípio": "Mas Deus propõe um estilo de vida diferente"
Aplicação seletiva: "Se você se converteu, não faça"
Linguagem pastoral: "Não estou julgando, estamos aprendendo juntos"
Análise:
Isso é legalismo sofisticado: criar uma regra extrabíblica, embalá-la como "princípio espiritual", e impô-la como marcador de discipulado autêntico.
5.2 Contradição Interna Exposta
Declaração 1: "Ter tatuagem não tem nada a ver com moralidade."
Declaração 2: "Se você conheceu Jesus e ainda não fez tatuagens, não o faça."
Pergunta lógica:
Se não é questão moral, por que é proibido? Se é proibido, então é questão moral.
A contradição revela que o pastor sabe que não há base bíblica para proibição absoluta, mas impõe a regra mesmo assim.
5.3 Duplo Padrão Pastoral
Para quem já tinha tatuagens antes da conversão:
"Continue no seu amor por Cristo, não ligue para comentários."
Para quem se converteu sem tatuagens:
"Não faça, porque agora você sabe que o cristão deve ser diferente."
Análise teológica:
Se tatuagens fossem pecado, a resposta apropriada seria arrependimento e remoção (como em Atos 19:19, onde convertidos queimaram livros de magia).
Se tatuagens não são pecado, não há base para proibir novos convertidos de fazê-las.
O duplo padrão revela casuística legalista, não teologia bíblica.
VI. Evidências Históricas: Cristãos e Tatuagens
6.1 Cristianismo Copta (Egito, Séculos III-VII)
Evidência arqueológica:
Múmias cristãs coptas apresentam tatuagens de cruzes no pulso e testa como:
Identificação religiosa pública
Proteção contra perseguição islâmica posterior
Símbolo de consagração a Cristo
6.2 Cruzados (Séculos XI-XIII)
Prática documentada:
Cavaleiros cruzados tatuavam cruzes antes de partir para Jerusalém, garantindo:
Identificação como cristão se morressem em batalha
Sepultamento cristão adequado
Memorial permanente de voto sagrado
6.3 Peregrinos a Jerusalém (Idade Média até Presente)
Tradição contínua:
Cristãos peregrinando à Terra Santa recebiam tatuagens de símbolos cristãos (cruzes, cordeiro, peixe) como recordação permanente da peregrinação.
Conclusão histórica:
A relação do cristianismo com tatuagens sempre foi contextual e cultural, nunca baseada em mandamento moral absoluto.
VII. Critérios Bíblicos para Discernimento
Questões que um cristão DEVE fazer
1. Minha motivação glorifica a Deus?
"Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus" (1 Coríntios 10:31)
2. Isso edificará meu próximo ou o fará tropeçar?
"Não ponhais tropeço ao vosso irmão" (Romanos 14:13)
3. Minha consciência está limpa diante de Deus?
"Tudo o que não provém de fé é pecado" (Romanos 14:23)
4. Estou exercendo liberdade ou sendo dominado?
"Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas" (1 Coríntios 6:12)
Exemplos de tatuagens legítimas biblicamente
✅ Versículos das Escrituras
✅ Símbolos cristãos históricos (cruz, peixe, âncora)
✅ Memoriais de entes queridos
✅ Testemunhos de redenção
✅ Arte que expressa fé genuína
Exemplos de tatuagens problemáticas biblicamente
❌ Símbolos ocultistas ou demoníacos
❌ Imagens pornográficas ou lascivas
❌ Marcas de pactos espirituais malignos
❌ Símbolos de gangues ou violência
❌ Blasfêmias ou profanação
O critério não é "tatuagem sim ou não", mas CONTEÚDO e MOTIVAÇÃO.
VIII. Conclusão
Resumo das Falhas Exegéticas do Pastor Leandro Quadros
Aplicação indevida de Levítico 19:28 — lei cerimonial do Antigo Pacto, não princípio moral universal
Eisegese de 1 Timóteo 2:9-10 — extração do contexto e aplicação forçada a tatuagens
Argumento da criação autocontraditório — levaria a rejeição de toda modificação corporal
Ignorância do silêncio do Novo Testamento — nem Jesus nem Paulo mencionam tatuagens
Violação de Romanos 14 — imposição de convicção pessoal como mandamento universal
Legalismo disfarçado — criar regra extrabíblica e apresentá-la como "princípio de Deus"
Ensino Bíblico Correto
Gálatas 5:1 — Cristo nos libertou da escravidão de regulações externas
Colossenses 2:16-17 — Ninguém pode julgar cristãos em questões cerimoniais
Romanos 14:4 — "Quem és tu que julgas o servo alheio?"
1 Coríntios 10:31 — "Fazei tudo para a glória de Deus"
Tatuagens são adiaphora: questões de liberdade cristã exercidas com sabedoria, não lei moral absoluta.
Que a graça de Cristo liberte você das tradições humanas e que o Espírito Santo guie sua consciência na verdade.
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Bibliographic References
1 Timóteo 2:9-10 (ARA). Bíblia.
QUADROS, Leandro vídeo afirmando que cristãos convertidos não devem fazer tatuagens. Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Levítico 19:28. Bíblia (ARA).
Levítico 17–26.
Makkot 3:6. Talmude e Mishnah.
Marcos 7:1-23.
Marcos 7:18-19.
Mateus 12:1-14.
Apocalipse 21:2. Bíblia.
Gálatas 5:2-6. Bíblia.
Gálatas 4:10. Bíblia.
Gálatas 2:11-14. Bíblia.
Lucas 11:37-41. Bíblia.
Gálatas. Bíblia.
Romanos. Bíblia.
Romanos 14. Bíblia.
1 Coríntios 8-10. Bíblia.
1 Timóteo 2:9-10. Bíblia.
Gálatas 2-5. Bíblia.
Atos 15. Bíblia.
Atos 15:28-29. Bíblia.
1 Pedro 3:3-4. Bíblia.
Efésios 4:24. Bíblia.
Efésios 6:17. Bíblia.
Apocalipse 19:7-8. Bíblia.
Gálatas 5:1. Bíblia.
Romanos 14:1-4. Bíblia.
Romanos 14:5. Bíblia.
Romanos 14:22-23. Bíblia.
1 Coríntios 10:23-24. Bíblia.
Atos 19:19. Bíblia.
1 Coríntios 10:31. Bíblia.
Romanos 14:13. Bíblia.
Romanos 14:23. Bíblia.
1 Coríntios 6:12. Bíblia.
Colossenses 2:16-17. Bíblia.
Romanos 14:4. Bíblia.