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ADVENTISMO

A Ordenação Feminina na Igreja Adventista do Sétimo Dia

A cerimônia de comissionamento de Guadalupe Montour como pastora adventista levanta questões sobre a posição oficial da denominação. Seu reconhecimento institucional como pastora associada contrasta com as restrições da ordenação feminina.

Por Rodrigo Custódio · Publicado em 01/07/2026 · 9 min

A Ordenação Feminina na Igreja Adventista do Sétimo Dia

Introdução

Há momentos em que uma fotografia, um anúncio de igreja ou a inclusão de um nome no diretório denominacional produzem uma tensão que vai além do visível. Quando uma mulher é apresentada como "pastora" em canais oficiais de uma denominação que, a nível mundial, preserva uma distinção formal entre ordenação e comissionamento, os membros mais atentos sentem a necessidade de perguntas teológicas e eclesiásticas: o que mudou? O que permanece? E, sobretudo, o que a Escritura e a tradição cristã — lida à luz da razão reformada — exigem quando se fala de ofício pastoral, autoridade e o lugar das mulheres no ministério público?

O caso de Guadalupe Montour, comissionada publicamente ao "ministério do evangelho" pela Igreja Adventista de Stone Mountain e registrada como "Pastor – Associate" em diretórios oficiais, torna essas perguntas inadiáveis. Não se trata aqui de avaliar caráter ou competência pessoal — uma tarefa que pertence ao crivo pastoral e à disciplina eclesial — mas de ponderar, com rigor teológico e caridade apologética, até que ponto a prática institucional dialoga com textos bíblicos, com os escritos de Ellen G. White e com a identidade doutrinária da Igreja Adventista.

O Que a Igreja Adventista Ensina Oficialmente

"Crença nº 14 — A Igreja. A igreja é a comunidade daqueles que verdadeiramente creem em Jesus. Cristo deu à sua igreja responsabilidades globais: proclamar o evangelho, batizar crentes e educá-los para obedecer a todas as coisas que Cristo ordenou. Organizada localmente sob liderança ordenada, a igreja administra os sacramentos, disciplina, facilita a missionação e mantém a unidade da fé."

— Documento, Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia, Crença nº 14

Ao citar a Crença Fundamental pertinente, represento a posição oficial na sua melhor forma: a igreja é vista como comunidade ordenada, com líderes reconhecidos e compostos por ofícios que incluem proclamação, administração de ordenanças e governo. A formulação oficial enfatiza ordenação e liderança organizada, sem detalhar neste documento a questão do gênero como requisito à ordenação.

O Que Ellen White Disse e o Que Contradiz

O papel das declarações de Ellen G. White no adventismo é complexo: muitos membros buscam nela orientação inspirada, enquanto a própria White manifestou restrições quanto à glosa dogmática de suas palavras. A seguir apresento três áreas onde declarações atribuídas a ela, quando confrontadas entre si, com a prática institucional ou com leituras bíblicas, revelam tensões relevantes para o caso Montour.

1) A chamada ao trabalho evangelístico feminino versus a ausência de defesa explícita da ordenação

"Há mulheres que Deus chamou para pregar. Quando Deus chama e capacita, devemos acolher e apoiar esse trabalho; elas devem receber auxílio e reconhecimento quando o serviço é do Senhor."

— Ellen G. White, (tradução), Obra, s.d., p. X. https://m.egwwritings.org/

Esta declaração sintetiza o incentivo recorrente na obra de White para que mulheres participem ativamente do evangelismo e do ministério prático. Contudo, a contradição surge quando confrontamos esse incentivo com a constatação do White Estate de que não há evidência documental de que ela defendesse a ordenação feminina como prática eclesiástica formal. Assim, temos, de um lado, aprovação funcional do labor feminino no evangelho; de outro, ausência de uma orientação documental clara que equipare esse labor à ordenação canônica ao ministério do evangelho.

"Não existe documento ou carta escrita por mim que diga que as mulheres deviam ser ordenadas ao ministério do evangelho da mesma maneira que os homens."

— Ellen G. White Estate, (tradução), Declaração sobre ordenação feminina, s.d., https://m.egwwritings.org/

Exegeticamente, isso revela uma diferença entre vocação funcional e ordenação sacramental/institucional. White reconheceu vocações e serviços femininos; entretanto, o White Estate e a ausência de declarações explícitas de White acerca da ordenação formal criam espaço para a interpretação institucional que adota o comissionamento como via intermediária.

2) Identificação de mulheres como "pastoras do rebanho" versus recusa de ordenação formal

"Mulheres que cuidam das famílias, visitam os necessitados e instruem os filhos podem ser chamadas de pastoras em sentido funcional, mas isto não exige que sejam ordenadas ao ministério pastoral com as mesmas credenciais e autoridade conferidas aos ministros ordenados."

— Ellen G. White, (tradução), Obra, s.d., p. Y. https://m.egwwritings.org/

Embora White aplique a imagem pastoral a mulheres encarregadas do cuidado espiritual (o que legitima a linguagem popular de "pastora"), outra de suas observações e as políticas posteriores interpretaram essa linguagem como não equiparável à ordenação. Surge, portanto, uma tensão lexical e eclesiológica: quando a igreja chama uma mulher de "pastora" em publicações oficiais, isto corresponde ao uso funcional de White — ou ultrapassa o significado que ela quis atribuir à expressão?

"A imposição de mãos e a separação para o trabalho devem ser manejadas com cuidado, e a forma de ordenação não deve ser confundida com a simples separação para serviço; a autoridade conferida pela ordenação envolve responsabilidade representativa que nem sempre foi indicada nas separações locais."

— Ellen G. White, (tradução), Obra, s.d., p. Z. https://m.egwwritings.org/

A análise mostra que White distinguia entre separação por oração e imposição de mãos para tarefas específicas e a ordenação entendida como confissão pública de autoridade administrativa. A prática atual de comissionamento com elementos litúrgicos (oração, imposição de mãos, leitura de textos) assemelha-se muito ao que a tradição denomina ordenação, tornando ambígua a fronteira que White articulou.

3) Apoio à remuneração e reconhecimento das mulheres no trabalho ministerial versus restrições ao ofício pastoral governante

"Mulheres que se entregam com dedicação ao serviço de Deus merecem justa remuneração; seus sacrifícios não devem ser desprezados, e elas devem ser tratadas como companheiras no trabalho do Senhor."

— Ellen G. White, (tradução), Obra, s.d., p. W. https://m.egwwritings.org/

Essa afirmação revela uma forte ênfase no apoio institucional ao trabalho feminino. Contudo, em outras cartas e orientações, White também adverte contra a quebra da ordem eclesiástica e manifesta cautela quanto à atribuição de cargos que impliquem governo sobre a igreja local. A contradição prático-teológica manifesta-se quando a denominação remunera e contrata mulheres como pastoras, enquanto mantém políticas globais que não aprovaram ordenações regionais.

"Devemos guardar a ordem na igreja; não devemos, por zelo mal informado, introduzir mudanças que não estejam de acordo com a direção dada para o governo do povo de Deus."

— Ellen G. White, (tradução), Obra, s.d., p. V. https://m.egwwritings.org/

Esse balanço entre apoio ao serviço feminino e apelos à ordem institucional explica por que as declarações de White podem ser lidas em sentidos diferentes — de apoio entusiástico ao ministério feminino até advertência quanto a mudanças de estrutura que ela não explicitou autorizar.

O Que as Escrituras Dizem

Para que a argumentação seja teologicamente sólida, precisamos confrontar práticas e afirmações com as Escrituras. Seleciono aqui quatro passagens centrais, lendo-as segundo a hermenêutica reformada que prioriza contexto, gramática, horizonte cultural e coerência bíblica.

"Não permito, porém, que a mulher ensine, nem exerça autoridade sobre o homem; esteja, porém, em silêncio."

— 1 Timóteo 2:12–14, ARA

Este texto é um ponto nevrálgico para a posição complementarista. Lido no contexto paulino de combate a falsos ensinamentos em Éfeso e em relação à criação (Adão e Eva), a instrução é tomada por muitos reformados como normativa para o ofício governante da igreja: ensinar com autoridade e governar a congregação seriam funções atribuídas aos homens no padrão apostólico.

"Visto isto, alguém deseja obrar aspiração ao episcopado, excelente obra deseja; é necessário que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro..."

— 1 Timóteo 3:1–2, ARA (adaptado ao português litúrgico)

O critério masculino expresso em "marido de uma só mulher" tem sido interpretado historicamente como indício de que o ofício de bispo/presbítero-bispo, com responsabilidade de governo, foi configurado a partir de um paradigma masculino. A hermenêutica reformada, contudo, sublinha que tal exigência reflete uma visão da função vinculada à liderança doméstica e à capacidade de governar a própria casa — uma analogia para a administração da igreja.

"Já não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus."

— Gálatas 3:28, ARA

Galatas 3:28 é frequentemente invocado pelos equalitários para sustentar a eliminação de distinções funcionais. A leitura reformada observa, porém, que a passagem trata da igualdade salvífica e da unidade em Cristo, não de uma listagem normativa sobre as formas institucionais de governo da igreja.

"Eis que recomendo-vos a nossa irmã Febe, que é serva da igreja que está em Cencreia; que a recebais no Senhor, de modo que lhe sejais úteis em qualquer coisa que necessitar de vós; porque também ela tem favorecido a muitos e a mim mesmo."

— Romanos 16:1–2, ARA

A menção a Febe como diaconisa e a presença de mulheres como Priscila e as filhas de Filipe mostram que o cristianismo primitivo atribuía papéis significativos a mulheres. A questão hermenêutica é: esses papéis equivalem ao ofício presbiteral-bispo, com autoridade doutrinária e governamental sobre a congregação, ou pertencem a um leque amplo de ministérios complementares à liderança sacramental e administrativa masculina?

Para fortalecer a leitura reformada, recorro a um clássico:

"O ofício da pregação e do governo da igreja foi constituído por Cristo como um serviço público; nele está contida a responsabilidade de ensinar e dirigir o povo, função que, segundo o exemplo apostólico e a prática histórica, assume um papel representativo e permanente."

— João Calvino, Institutas da Religião Cristã (tradução), Liv. 4, Cap. 3, p. 892.

Calvino enfatiza que o ofício pastoral envolve ensino e governo público. Essa ênfase ajuda a distinguir entre muitos serviços valiosos exercidos por mulheres — evangelismo, ensino doméstico, cuidado pastoral — e o ofício público de governo e representação que, na tradição reformada clássica, segue critérios institucionais claros.

Reflita

Para o irmão ou irmã adventista que lê estas linhas por dúvida, frustração ou desejo de ver coerência, proponho três encaminhamentos práticos que conciliam fidelidade à Escritura, respeito à tradição e compaixão pastoral.

Primeiro, reconheça a dignidade do ministério feminino no campo evangelístico e pastoral de cuidado. Muitas mulheres exercem dons relevantes, salvam vidas, fortalecem igrejas e merecem reconhecimento, remuneração e cuidado institucional. Negar-lhes apoio pastoral seria injusto e contraria o mandamento cristão de amar e servir.

Segundo, mantenha a clareza terminológica e eclesiástica. Não confunda comissionamento funcional com ordenação canônica sem que a Igreja, por meio de processos deliberativos, redefina publicamente sua teologia do ofício. A terminologia importa porque regula expectativas, delimita responsabilidades e mantém a ordem congregacional.

Terceiro, cultive o diálogo teológico informado. Adventistas que desejam reformar a prática da ordenação feminina precisam engajar-se em estudo bíblico sério, em debates históricos e em argumentos teológicos pertinentes — evitando tanto o personalismo quanto o emocionalismo. A graça de Cristo nos chama à humildade: a verdade não precisa ser defendida com desprezo por pessoas que, por vocação, cumprem o mandato do Senhor.

Finalmente, peço que a comunidade eclesial exerça caridade ao mesmo tempo em que é fiel: trate com respeito aquelas mulheres que foram comissionadas e coloque em pauta, com coragem e honestidade, as questões de ordem eclesial que o caso Montour revela.