Igreja Adventista processada em US$ 350 Milhões por esquema Ponzi
Uma ação coletiva movida em tribunal federal nos Estados Unidos colocou a Igreja Adventista do Sétimo Dia no centro de um dos maiores casos de fraude financeira envolvendo a comunidade haitiana-americana.
Por Rodrigo Custódio · Publicado em 03/06/2026 · 4 min
Uma ação coletiva movida em tribunal federal nos Estados Unidos colocou a Igreja Adventista do Sétimo Dia no centro de um dos maiores casos de fraude financeira envolvendo a comunidade haitiana-americana. O processo, que pede US$ 350 milhões em indenizações, acusa a denominação e dezenas de seus pastores de terem conspirado com Eddy Alexandre, fundador da empresa EminiFX, para lesar cerca de 62 mil investidores.
O caso
A ação coletiva, intitulada Lorfils Joseph v. General Conference Corporation of the Seventh Day Adventist Church et al. (Caso nº 23-cv-21551), foi protocolada em 25 de abril de 2023 no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul da Flórida, Divisão de Miami. Dois advogados de Miami representam os investidores prejudicados, que teriam perdido coletivamente mais de US$ 300 milhões.
Segundo a denúncia, mais de cinquenta pastores haitianos da Igreja Adventista teriam atuado em conjunto com Alexandre. A lista de réus inclui o próprio Eddy Alexandre, a EminiFX, a esposa dele (que ocupava o cargo de diretora financeira da empresa), cerca de 100 igrejas adventistas e pastores individuais de estados como Colorado, Flórida, Nova York, Nova Jersey, Carolina do Norte, Ohio, Pensilvânia, Massachusetts, Rhode Island e Texas, além da Associação Geral (General Conference Corporation) e da Associação da Flórida da Igreja Adventista.
A promessa que atraiu os investidores
A EminiFX se apresentava como uma empresa de investimentos em ativos digitais. Alexandre prometia retornos de 5% por semana sobre os valores aplicados — um rendimento extraordinário que, em poucos anos, supostamente multiplicaria o capital dos investidores. Quem aplicasse pelo menos US$ 2 mil, dizia-se, poderia obter ganhos expressivos em curto prazo.
Atraídos pela promessa, muitos adventistas e não adventistas investiram suas economias. O resultado foi o oposto do prometido: tanto os “rendimentos” quanto o principal desapareceram. O painel digital dos investidores mostrava o dinheiro “crescendo”, mas a retirada dos valores tornava-se impossível — característica clássica de um esquema Ponzi, em que o dinheiro de novos investidores é usado para sustentar a ilusão de lucros.
Um relato citado no caso menciona um membro da diretoria de uma igreja adventista em Nova York que teria investido até US$ 80 mil.
A condenação de Alexandre
Eddy Alexandre foi preso em 12 de maio de 2022 no condado de Nassau, Nova York, pelo FBI, sob acusações de fraude eletrônica e fraude de commodities. Em 12 de fevereiro de 2023, declarou-se culpado de uma acusação de fraude de commodities e teve confiscados US$ 248 milhões em recursos dos investidores, devolvidos ao governo dos EUA.
Durante sua alocução perante o juiz John P. Cronan, do Distrito Sul de Nova York, Alexandre admitiu que sabia que sua conduta era ilegal e que agiu mesmo assim, com a intenção de fraudar os investidores. Apesar de mais de cem pessoas estarem supostamente envolvidas na conspiração, somente Alexandre foi preso e formalmente acusado — fato que motivou a ação coletiva, voltada a responsabilizar os demais supostos coconspiradores não indiciados.
Por que a igreja foi incluída
A pergunta inevitável é: como uma instituição religiosa acabou sendo processada num caso de fraude financeira? A ação sustenta que a igreja figura como coconspiradora pela alegada participação de suas estruturas e pastores no esquema. Segundo os autores, parte do clero não apenas investiu, mas influenciou ativamente outros membros e pessoas da comunidade a aplicar seu dinheiro.
O advogado Wil Morris, que representa os autores da ação, declarou ao jornal Documented que as vítimas foram enganadas e que alguns pastores e evangelistas sabiam tratar-se de uma fraude, mas convenceram as pessoas a investir mesmo assim, explorando sua fé e vulnerabilidade. Já o advogado Ralph Francois, de origem haitiana, argumentou que Alexandre jamais conseguiria sozinho retirar US$ 300 milhões de 62 mil pessoas — os pastores e as igrejas, segundo ele, teriam sido instrumentais na fraude e sabiam tratar-se de um golpe.
Uma reflexão necessária
O caso levanta questões espirituais e éticas que vão além do tribunal. A exploração da confiança religiosa para fins financeiros é uma das traições mais graves que se pode cometer contra uma comunidade de fé. Quando líderes que deveriam apontar para Cristo passam a apontar para promessas de enriquecimento rápido, a própria credibilidade do testemunho cristão é comprometida.
A advertência de Paulo a Timóteo soa especialmente atual:
“os que querem tornar-se ricos caem em tentação, em ciladas e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição” (1 Timóteo 6.9).
O amor ao dinheiro — e não o dinheiro em si — é descrito como raiz de todos os males.
Resta acompanhar o desdobramento do processo. Caso a igreja seja condenada, surge ainda uma preocupação adicional levantada por observadores: de onde sairiam os recursos para o pagamento das indenizações? Provavelmente, dos dízimos e ofertas dos próprios membros — o que faria com que fiéis honestos arcassem com as consequências da ganância de alguns.