"Não Me Toques": Doutrina Adventista das Duas Ascensões de Cristo
Ellen G. White, considerada profetisa pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, ensinou em sua obra O Desejado de Todas as Nações que Jesus Cristo ascendeu ao céu duas vezes: uma primeira ascensão temporária no próprio dia de Sua ressurreição para obter a confirmação do Pai de que Seu sacrifício havia sido aceito, e uma segunda ascensão definitiva quarenta dias depois, conforme registrado em Atos 1.
Uma Doutrina Sem Base Escriturística
Ellen G. White, considerada profetisa pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, ensinou em sua obra O Desejado de Todas as Nações que Jesus Cristo ascendeu ao céu duas vezes: uma primeira ascensão temporária no próprio dia de Sua ressurreição para obter a confirmação do Pai de que Seu sacrifício havia sido aceito, e uma segunda ascensão definitiva quarenta dias depois, conforme registrado em Atos 1.
Esta doutrina não apenas carece de suporte bíblico explícito, mas também contradiz a cronologia clara dos evangelhos e se baseia numa interpretação errada do grego de João 20:17. Este artigo demonstrará, através da exegese linguística e da análise cronológica das aparições de Jesus ressuscitado, que a teoria das duas ascensões é insustentável.

O Argumento Adventista Explicado
Alberto R. Timm, teólogo adventista e diretor associado do Ellen G. White Estate, apresenta a defesa oficial desta doutrina. Segundo ele, existe um contraste significativo entre duas passagens:
João 20:17 – Jesus diz a Maria Madalena: "Não me detenhas, pois ainda não subi ao Pai."
Mateus 28:9 – As mulheres "abraçaram os seus pés e o adoraram."
Timm argumenta: "O contraste entre o pedido inicial para não ser detido e a iniciativa posterior de Se deter com os discípulos sugere uma breve ascensão temporária de Cristo à presença do Pai nas cortes celestiais no próprio dia da ressurreição."
Ellen White é mais específica. Ela escreve:
"Jesus recusou receber a homenagem de Seu povo até haver obtido a certeza de estar Seu sacrifício aceito pelo Pai. Subiu às cortes celestiais, e ouviu do próprio Deus a afirmação de que Sua expiação pelos pecados dos homens fora ampla, de que por meio de Seu sangue todos poderiam obter a vida eterna."
A lógica adventista é a seguinte: Jesus não permitiu que Maria O tocasse porque ainda não tinha subido ao Pai. Mas mais tarde, no mesmo dia, Ele permitiu que outras mulheres abraçassem Seus pés. Logo, entre esses dois momentos, Jesus deve ter ascendido rapidamente ao céu e voltado.
O Problema Linguístico: O Que Jesus Realmente Disse em Grego
A interpretação adventista depende inteiramente de uma tradução errada de João 20:17. Vejamos o texto grego:
Μή μου ἅπτου (Mē mou haptou)
A expressão grega usada por Jesus não significa "não me toque", mas "pare de me segurar" ou "não continue me agarrando".
O verbo ἅπτω (haptō) está no presente imperativo na voz média. Em grego, o presente imperativo com negativa (μή) não proíbe uma ação que ainda não começou, mas ordena a cessação de uma ação já em andamento.
Em outras palavras, Jesus não estava dizendo a Maria "não Me toque" (como se ela ainda não tivesse tocado). Ele estava dizendo "pare de Me segurar" ou "solte-Me", porque Maria já estava agarrada a Ele.
Traduções Modernas Corrigem o Erro
Traduções contemporâneas reconhecem isso:
NIV (inglês): "Do not hold on to me" ("Não continue me segurando")
NVT (português): "Não se agarre a mim"
NTLH (português): "Não me segure"
O renomado teólogo católico que escreveu o artigo "'Não me toques' ou 'Não me busques'?" explica que o verbo ἅπτω, quando usado no contexto de pessoas, significa "pegar", "agarrar", "segurar", não simplesmente "tocar". Ele cita paralelos:
Mateus 8:15 – Jesus "pegou" (hêpsato) a mão da sogra de Pedro
Mateus 28:9 – As mulheres "pegaram" (ekrátēsan) os pés de Jesus
Maria Madalena, em sua alegria arrebatada ao reconhecer Jesus, lançou-se aos Seus pés e O agarrou com força, como quem não quer mais soltá-Lo. Jesus gentilmente lhe diz: "Para de Me segurar, Maria. Eu ainda não subi ao Pai definitivamente. Você terá outras oportunidades. Agora vá anunciar aos Meus irmãos."
Não há absolutamente nenhuma proibição de tocar. Há apenas um pedido para que ela O solte e vá cumprir uma missão.
A Cronologia Destrói a Teoria Adventista
Mesmo se ignorássemos a evidência linguística, a cronologia das aparições de Jesus no mesmo dia da ressurreição destrói completamente a teoria das duas ascensões.
Aparições Registradas no Primeiro Dia da Semana
Os evangelhos registram pelo menos cinco aparições de Jesus no domingo da ressurreição, todas ocorrendo em sequência, sem intervalo para uma viagem ao céu:
1. Maria Madalena (João 20:11-18)
De manhã cedo, no jardim, Jesus aparece a Maria. Ela O reconhece e agarra Seus pés. Jesus diz: "Pare de Me segurar... ainda não subi ao Pai." Maria então vai anunciar aos discípulos.
2. Outras Mulheres (Mateus 28:9-10)
Logo depois, enquanto as outras mulheres (que também estiveram no túmulo) voltavam para anunciar aos discípulos, Jesus lhes aparece. Mateus 28:9 registra: "Jesus lhes veio ao encontro... E elas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram."
Aqui está o golpe fatal à teoria adventista: se Jesus não permitiu que Maria O segurasse porque ainda não tinha subido ao Pai, por que Ele permitiu que outras mulheres abraçassem Seus pés minutos depois?
A resposta é óbvia: Jesus nunca proibiu o toque. Ele apenas pediu que Maria O soltasse e fosse cumprir sua missão.
3. Pedro (Lucas 24:34, 1 Coríntios 15:5)
Lucas 24:33-34 registra: "E, na mesma hora, levantando-se, voltaram para Jerusalém, onde acharam reunidos os onze e outros com eles, os quais diziam: O Senhor ressuscitou e já apareceu a Simão!"
Paulo confirma em 1 Coríntios 15:5 que Cristo "apareceu a Cefas [Pedro]". Esta aparição ocorreu no mesmo dia da ressurreição.
4. Discípulos no Caminho de Emaús (Lucas 24:13-35)
Lucas é explícito sobre o timing: "Naquele mesmo dia, dois dos seguidores de Jesus caminhavam para o povoado de Emaús."
Jesus caminhou com eles por aproximadamente 11 quilômetros, explicou as Escrituras detalhadamente, entrou na casa deles, e partiu o pão. Eles O reconheceram e Ele desapareceu. Lucas 24:33 continua: "E, na mesma hora, levantando-se, voltaram para Jerusalém."
Esta aparição durou várias horas. Lucas deixa claro que tudo aconteceu "naquele mesmo dia" da ressurreição.
5. Dez Apóstolos em Jerusalém (João 20:19-23)
João 20:19 é cristalino: "Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando os discípulos reunidos a portas trancadas, por medo dos judeus, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: 'Paz seja com vocês!'"
Jesus não apenas apareceu. Ele:
Mostrou-lhes as mãos e o lado (v. 20)
Falou-lhes sobre Sua missão (v. 21)
Soprou sobre eles e disse: "Recebam o Espírito Santo" (v. 22)
Deu-lhes instruções sobre perdão de pecados (v. 23)
Esta não foi uma aparição rápida. Foi um encontro prolongado e significativo.
O Problema Insolúvel
Como Jesus poderia ter passado horas com os discípulos de Emaús e depois com os onze apóstolos em Jerusalém se Ele estava no céu sendo apresentado ao Pai?
A cronologia de Lucas e João é incompatível com a teoria adventista. Não há nenhum espaço de tempo no dia da ressurreição em que Jesus poderia ter ascendido ao céu e retornado. Ele estava continuamente aparecendo e interagindo com pessoas na Terra.
As Outras Aparições nos 40 Dias
Atos 1:3 registra: "A estes [apóstolos] também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus."
Durante esses quarenta dias, Jesus apareceu múltiplas vezes:
Uma semana depois aos onze apóstolos, incluindo Tomé (João 20:26-29)
A sete apóstolos pescando no Mar de Tiberíades (João 21:1-23)
A mais de quinhentos irmãos de uma vez (1 Coríntios 15:6)
A Tiago, Seu meio-irmão (1 Coríntios 15:7)
Em nenhuma dessas aparições há qualquer indicação de que Jesus tinha ascendido anteriormente ao céu e retornado. Pelo contrário, Jesus age como alguém que está continuamente na Terra ministrando aos Seus discípulos antes de Sua ascensão definitiva.
A Única Ascensão Bíblica: Atos 1:9-11
A Bíblia registra apenas uma ascensão de Jesus ao céu, e ela aconteceu quarenta dias após a ressurreição:
Lucas 24:50-51: "Levou-os até Betânia e, erguendo as mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, apartou-se deles e foi elevado ao céu."
Atos 1:9-11: "E, havendo dito estas coisas, foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. E, estando eles com os olhos fitos no céu, enquanto Jesus subia, eis que dois varões vestidos de branco se puseram ao lado deles e lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir."
Note o que os anjos não disseram. Eles não falaram: "Esse Jesus que ascendeu pela segunda vez..." Não há menção de ascensão anterior. Os anjos tratam essa ascensão como o evento único e definitivo da partida de Jesus.
Ellen White contradiz a própria Escritura ao inventar uma ascensão secreta e temporária que nenhum evangelista registrou e nenhum apóstolo testemunhou.
Por Que Ellen White Inventou Esta Doutrina?
A resposta está na teologia adventista do santuário celestial. Ellen White e os primeiros adventistas precisavam justificar sua crença de que Cristo entrou no Santo dos Santos celestial apenas em 1844, não imediatamente após Sua ascensão.
Para harmonizar essa crença com a necessidade de que o sacrifício de Cristo fosse aceito pelo Pai imediatamente, White inventou uma ascensão temporária no dia da ressurreição, quando supostamente o Pai aceitou o sacrifício de Cristo.
Mas isso cria mais problemas do que resolve. A Bíblia ensina que Cristo uma vez por todas entrou no santuário celestial (Hebreus 9:12), não em duas ou três etapas. Hebreus 10:12 declara que após oferecer o sacrifício, Cristo "assentou-se à direita de Deus", não ficou de pé conduzindo investigações desde 1844.
Problemas Teológicos com Duas Ascensões
1. Compromete a Obra Completa de Cristo
Se Cristo precisou ascender ao Pai para obter confirmação de que Seu sacrifício foi aceito, isso sugere que havia incerteza sobre a eficácia da cruz. Mas Jesus declarou na cruz: "Está consumado" (João 19:30). A obra estava completa. Não havia necessidade de aprovação adicional.
2. Contradiz Hebreus
Hebreus 9:11-12 é claro: "Cristo... pelo seu próprio sangue, entrou uma vez por todas no Santuário, e obteve uma eterna redenção."
"Uma vez por todas" não significa duas vezes. A redenção foi obtida na cruz e apresentada ao Pai numa única ascensão definitiva, não em viagens múltiplas.
3. Não Há Testemunhas da Primeira Ascensão
Se Jesus realmente ascendeu ao céu no dia da ressurreição, por que nenhum dos apóstolos mencionou isso? Por que Lucas, que meticulosamente registra aparições múltiplas no mesmo dia da ressurreição, omite uma ascensão temporária?
A resposta óbvia: porque ela nunca aconteceu.
Conclusão: Uma Doutrina Construída sobre Areia
A teoria adventista das duas ascensões de Cristo colapsa sob o peso de três evidências esmagadoras:
Evidência Linguística: μή μου ἅπτου não significa "não me toque", mas "pare de me segurar", indicando que Maria já estava agarrada a Jesus.
Evidência Cronológica: Jesus apareceu continuamente ao longo do dia da ressurreição, sem tempo para uma viagem ao céu.
Evidência Escriturística: A Bíblia registra apenas uma ascensão, quarenta dias após a ressurreição, e os anjos a tratam como o evento único de Sua partida.
Ellen White construiu esta doutrina não sobre exegese sólida, mas sobre a necessidade de harmonizar suas crenças peculiares sobre 1844 e o santuário celestial com a narrativa evangélica. O resultado é uma teoria que contradiz a gramática grega, ignora a cronologia dos evangelhos, e adiciona à Escritura algo que ela nunca ensinou.
Como Paulo advertiu em Gálatas 1:8: "Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema."
A teoria das duas ascensões é exatamente isso: um evangelho além do que os apóstolos pregaram. E como tal, deve ser rejeitada por todo cristão que valoriza a autoridade da Palavra de Deus acima das visões de Ellen White.
A verdade é simples: Jesus ressuscitou, apareceu múltiplas vezes durante quarenta dias para provar Sua ressurreição, e então ascendeu uma única vez ao céu, onde está assentado à direita do Pai, tendo completado perfeitamente a obra de nossa redenção.
Não há segunda ascensão. Não há necessidade de aprovação adicional. Não há espaço na cronologia bíblica para a invenção de Ellen White.
A obra está consumada. O Rei subiu ao trono. E lá Ele permanece até o dia de Sua segunda vinda gloriosa.
Artículos Relacionados
Ver todos
A Heresia Oculta de Ellen White: Cristo Não é Deus em Personalidade

A Cristologia Adventista: Uma Análise Histórica Completa das Falhas Doutrinárias

Quando Jesus Entrou no Santo dos Santos?

