
Os Dez Mandamentos no Novo Testamento: Continuidade e Descontinuidade
Descubra uma análise bíblica aprofundada sobre os Dez Mandamentos no Novo Testamento, a relação com o sábado e o verdadeiro repouso em Cristo.
Introdução: Uma Questão Teológica Fundamental
Existe uma questão teológica que divide cristãos há séculos e que continua gerando intenso debate nas igrejas contemporâneas: qual é o status dos Dez Mandamentos na era do Novo Testamento? A resposta a essa pergunta determina se os cristãos devem guardar o sábado, se devem obedecer todos os dez mandamentos de forma idêntica ao Antigo Testamento, ou se houve uma mudança fundamental na forma como Deus trabalha com Seu povo através de Cristo.
Para responder adequadamente, é necessário distinguir entre dois conceitos críticos: continuidade (o que permanece válido) e descontinuidade (o que foi cumprido ou cancelado). O Novo Testamento oferece uma resposta clara e coerente: nove dos Dez Mandamentos foram reafirmados pelo Novo Testamento como moralmente vinculantes, enquanto um — o mandamento do sábado — foi explicitamente cancelado por ter sido cumprido em Cristo.

I. O Que Permaneceu: Os Nove Mandamentos Reafirmados
Listagem dos Mandamentos Reafirmados no Novo Testamento
Mandamento 1: "Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3)
Reafirmado em Mateus 4:10, onde Jesus diz: "Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele servirás."
Paulo reafirma em 1 Coríntios 8:4-6: "Sabemos que um ídolo nada é no mundo, e que não há senão um só Deus."
Mandamento 2: "Não farás para ti imagem de escultura" (Êxodo 20:4)
Reafirmado em 1 João 5:21: "Filhinhos, guardai-vos dos ídolos."
Paulo em Colossenses 3:5 expande o conceito: "Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra: a fornicação, a impureza, a paixão desonesta e a avareza, que é idolatria."
Mandamento 3: "Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão" (Êxodo 20:7)
Reafirmado em Tiago 5:12: "Acima de tudo, meus irmãos, não jureis, nem pelo céu, nem pela terra, nem por nenhuma outra coisa; mas que o vosso sim seja sim, e o vosso não seja não, para não cairdes em condenação."
Mandamento 4: "Honra a teu pai e a tua mãe" (Êxodo 20:12)
Reafirmado em Efésios 6:2-3: "Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa."
Paulo o chama de "primeiro mandamento com promessa," indicando sua continuidade na era cristã.
Mandamento 5: "Não matarás" (Êxodo 20:13)
Reafirmado em Romanos 13:9: "Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; e se há algum outro mandamento, tudo nesta sentença se encerra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo."
Jesus em Mateus 5:21-22 reafirma e aprofunda: "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e qualquer que matar será réu de juízo."
Mandamento 6: "Não adulterarás" (Êxodo 20:14)
Reafirmado em Mateus 5:28: "Eu vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela."
Paulo em 1 Coríntios 6:9-10: "Não sabeis vós que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas..."
Mandamento 7: "Não furtarás" (Êxodo 20:15)
Reafirmado em Efésios 4:28: "Quem furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade."
Mandamento 8: "Não dirás falso testemunho" (Êxodo 20:16)
Reafirmado em Efésios 4:25: "Pelo que deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros."
Mandamento 9: "Não cobiçarás" (Êxodo 20:17)
Reafirmado em Romanos 7:7: "Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conhecera o pecado senão pela lei; porque eu não conhecera a concupiscência, senão se a lei dissera: Não cobiçarás."
Síntese: A Continuidade dos Princípios Morais
Esses nove mandamentos representam princípios morais eternos que refletem o caráter de Deus. São reafirmados repetidamente pelo Novo Testamento, não como imposições legais antigas e superadas, mas como expressões do caráter divino que continuam vinculantes para os crentes.
Paulo em Romanos 13:8-10 resume essa realidade:
"A ninguém devais coisa alguma, senão o amor com que vos ameis uns aos outros; porque aquele que ama o próximo tem cumprido a lei. Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; e se há algum outro mandamento, tudo nesta sentença se encerra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor."
Esses mandamentos não foram "abolidos" — foram cumpridos e reafirmados em uma forma mais profunda através do ensino de Cristo.
II. O Que Foi Cancelado: O Mandamento do Sábado
A Descontinuidade Teológica do Sábado
Contrariamente aos outros nove mandamentos, o Novo Testamento é claro e consistente em sua descontinuidade com relação ao mandamento do sábado.
Colossenses 2:16-17: A Declaração Explícita
Paulo escreve aos Colossenses:
"Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombra das coisas futuras; mas o corpo é de Cristo."
Este é o texto mais claro: o sábado é descrito como "sombra" das coisas futuras. Uma sombra aponta para uma realidade futura; quando a realidade chega, a sombra cessa de ter função.
Romanos 14:5-6: Liberdade de Consciência
Paulo escreve:
"Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja plenamente convicto em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, faz-o para o Senhor; e o que não faz caso do dia, para o Senhor não faz caso, porque dá graças a Deus."
Paulo explicitamente permite que cristãos escolham observar dias ou não. Se o sábado fosse mandatório, Paulo não poderia permitir essa escolha. O fato de ele permitir demonstra que a observância do sábado não é requisito para o cristão.
Hebreus 4:9-10: O Repouso em Cristo
O livro de Hebreus fornece a teologia mais profunda sobre o sábado:
"Portanto, resta um repouso para o povo de Deus. Pois aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de seus trabalhos, como Deus dos seus. Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência."
Hebreus 4 explica que o "repouso sabático" não é sobre um dia específico da semana, mas sobre o repouso espiritual encontrado em Cristo. Os crentes entram neste repouso quando confiam na obra completa de Cristo, não através da observância de um dia.
Hebreus 7:18-19: A Abolição do Mandamento Anterior
Hebreus 7:18-19 é ainda mais explícito:
"Porque há derrogação do mandamento anterior, por causa da sua fraqueza e inutilidade (porque a lei nenhuma coisa aperfeiçoava), e introdução de uma melhor esperança, pela qual nos chegamos a Deus."
A palavra grega para "derrogação" (athetesis) significa literalmente "rejeição" ou "abolição." O autor de Hebreus afirma que um mandamento anterior foi abolido por causa de sua "fraqueza e inutilidade."
Gálatas 3:24-25: A Lei como Aio Temporário
Paulo em Gálatas explica a função temporária da lei:
"De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados. Mas, vindo a fé, já não estamos debaixo de aio."
O sábado era um sinal do Antigo Pacto (Êxodo 31:12-18), um sinal específico entre Deus e Israel. Quando o Novo Pacto foi institui pela morte e ressurreição de Cristo, o sinal anterior cessou.
III. A Razão Teológica da Descontinuidade: O Sábado como Sinal de Pacto
O Sábado: Um Sinal Cerimonial, Não Moral
A distinção crítica está em compreender que o sábado não era meramente um "princípio moral" como o não roubar ou não matar. Era um sinal específico do Pacto Mosaico.
Êxodo 31:13-18 deixa isto claro:
"Tu falarás aos filhos de Israel, dizendo: Certamente guardareis meus sábados; porque é sinal entre mim e vós nas vossas gerações... É sinal entre mim e os filhos de Israel para sempre."
O próprio Deus identificou o sábado como um sinal específico do pacto entre Deus e Israel.
O Fim do Pacto Mosaico
Quando Cristo morreu na cruz, cumpriu todas as exigências do Pacto Mosaico. A carta aos Hebreus explica isto claramente em Hebreus 8:13:
"Dizendo nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, aquilo que envelhece e se torna antiquado, está prestes a desaparecer."
E Hebreus 9:15:
"Por isso é mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia sob o primeiro testamento, recebam a promessa da herança eterna os que são chamados."
Os Nove Mandamentos: Princípios Eternos
Os outros nove mandamentos expressam princípios morais eternos que refletem a natureza imutável de Deus: Deus sempre foi contra idolatria, mentira, assassinato, roubo, adultério. Esses princípios transcendem o Pacto Mosaico específico.
Mas o sábado era diferente: era um dia específico, em um tempo específico, como sinal de um pacto específico. Quando aquele pacto foi substituído pelo Novo Pacto em Cristo, o sinal cessou.
IV. O Consenso do Novo Testamento
Não há registros de Imposição do Sábado para Gentios
O Conselho de Jerusalém (Atos 15) é particularmente revelador. Quando decisões importantes foram tomadas sobre o que impor aos crentes gentios, nenhuma menção foi feita ao sábado. Se fosse obrigatório, seria mencionado aqui.
Atos 15:28-29:
"Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne de animado preso, e da fornicação; das quais coisas, se vos guardardes, bem fareis. Bem vos vá."
Nenhuma menção ao sábado. Se fosse mandatório para a salvação ou para piedade cristã, seria mencionado.
A Mudança Histórica para o Domingo
A Igreja primitiva mudou de forma consistente para a observância do domingo (o primeiro dia da semana) como dia de encontro e adoração, não por uma conspiração ou por compromisso com o paganismo (como alguns críticos argumentam), mas como expressão teológica de que o repouso verdadeiro foi encontrado em Cristo ressuscitado.
Hebreus 10:11-14 resume a obra completada de Cristo:
"E todo o sacerdote fica de pé, cada dia ministrando, e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados; mas Cristo, oferecendo um único sacrifício pelos pecados, assentou-se para sempre à destra de Deus, esperando daí em diante até que seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Porque com uma só oferta aperfeiçoou para sempre os que se santificam."
V. A Objeção Mais Comum: Mateus 5:17-18
A Reinterpretação Correta
Muitos usam Mateus 5:17-18 para argumentar que nada foi alterado:
"Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo se cumpra."
O que Jesus quis dizer?
Jesus não diz que a lei continuará em vigor perpetuamente. Ele diz que a lei será cumprida — toda sua função será realizada. A diferença é crítica.
Quando você "cumpre" um contrato, não significa que o contrato permanece indefinidamente em vigor. Significa que você realizou suas obrigações, e o contrato é considerado completo.
Jesus cumpriu a lei em todos os seus aspectos:
Obedeceu perfeitamente (não matou, não roubou, não cometeu adultério)
Completou o sistema de sacrifícios através de seu próprio sacrifício
Realizou todas as tipologias e sombras apontadas pela lei
Uma vez cumprida, a lei mosaica (como um sistema) deixa de ser operativa como estava no Antigo Testamento.
A Prova em 2 Coríntios 3:11
Paulo escreve sobre os "mandamentos escritos em pedra" (claramente referindo-se aos Dez Mandamentos):
"E se o que é passageiro teve glória, muito mais será excelente o que é permanente. Portanto, tendo esta esperança, usamos de muita confiança. E não somos como Moisés, que colocava um véu sobre o rosto, para que os filhos de Israel não atentassem para o fim daquilo que era transitório. Mas os seus sentimentos foram endurecidos; porque até ao presente, na leitura da velha aliança, fica o mesmo véu..."
E o conclusão em v. 11:
"Porque se o que era transitório teve glória, muito mais terá glória o que é permanente. Pois se aquilo que se desvanecia teve glória, quanto mais será assim o que permanece em glória!"
Os mandamentos "escritos em pedra" fazem parte de um sistema que "se desvanecia" e passou.
VI. A Aplicação Prática: Repouso em Cristo
Entendendo o Repouso Verdadeiro
Se o sábado não é obrigatório para os cristãos, qual é a implicação? Significa que os crentes encontram seu repouso verdadeiro não em guardar um dia específico da semana, mas em repouso em Cristo.
Mateus 11:28-29:
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis repouso para as vossas almas."
Hebreus 4:3:
"Ora, nós que temos crido entramos no repouso, como disse: Assim jurei na minha ira, Se entrarão no meu repouso, ainda que as obras desde a fundação do mundo estavam acabadas."
O repouso verdadeiro não vem de cessar do trabalho físico um dia por semana. Vem de cessar da tentativa de se justificar através de obras e descansar na obra completa de Cristo.
Conclusão: Unidade na Multiplicidade
O Novo Testamento apresenta um quadro coerente e integrado:
Nove dos Dez Mandamentos foram reafirmados como expressos permanentes da lei moral de Deus
O mandamento do sábado foi cumprido e abolido como requisito cerimonial específico do Pacto Mosaico
O cristão encontra repouso em Cristo, não em observância de um dia
A liberdade de consciência é preservada: crentes podem escolher guardar dias ou não, desde que o façam conscientemente e com graças a Deus
Esta não é uma contradição ou negação caprichosa da lei. É o cumprimento gracioso e ordenado da lei, onde a sombra dá lugar à substância, a preparação dá lugar à realização, e a lei serve como pedagogo que conduz ao Messias.
Referências Acadêmicas
Blomberg, Craig L. The New American Commentary on Matthew. Broadman & Holman, 1992.
Keller, Timothy. "Old Testament Law and the Charge of Inconsistency." Gospel in Life, 2012.
Schreiner, Thomas R. 40 Questions About Christians and Biblical Law. Kregel Academic, 2010.
Strachan, Owen. The Fact of the Atonement: Christ's Work and Why It Matters. Crossway, 2015.
Snodgrass, Klyne R. Interpreting the Bible: A Handbook of Terms and Methods. Hendrickson, 2006.
Osborne, Grant R. The Hermeneutical Spiral: A Comprehensive Introduction to Biblical Interpretation. Inter-Varsity Press, 2006.
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