
A Conferência Bíblica de 1919 e as consequências reais
A Conferência Bíblica de 1919 foi uma conferência pioneira (para o Movimento Adventista do Sétimo Dia) realizada pela Igreja Adventista do Sétimo Dia de 1º de julho a 9 de agosto de 1919. Foi presidida por A. G. Daniells, então presidente da Conferência Geral. Foi a primeira grande discussão realizada pelo movimento sobre a inspiração dos escritos de Ellen G. White após sua morte em 1915, o que gerou bastante controvérsia.
Introdução
A Conferência Bíblica de 1919 constitui um marco crítico na história doutrinária da Igreja Adventista do Sétimo Dia, sobretudo no exame da inspiração dos escritos de Ellen G. White e sua relação com a inerrância bíblica. Realizada em um contexto de intensos conflitos teológicos entre liberalismo e fundamentalismo, a conferência não apenas expôs divergências internas sobre a natureza da revelação, mas revelou que líderes adventistas nutriam, há décadas, dúvidas profundas quanto à autoridade profética atribuída aos escritos de Ellen White. Este artigo analisará criticamente: (1) o contexto histórico e teológico da Conferência de 1919; (2) os debates centrais sobre inspiração, inerrância e autoridade profética; (3) as consequências desta teologia para a doutrina da sola scriptura e para a eclesiologia adventista. Por fim, será apresentada uma resposta apologética à luz das Escrituras, questionando a sustentação doutrinária adventista a partir de um paradigma evangélico reformado.

1. Contexto Histórico e Teológico da Conferência Bíblica de 1919
1.1 Liberalismo, Fundamentalismo e o Adventismo
A Conferência Bíblica de 1919 ocorre em meio a uma profunda cisão teológica nos Estados Unidos, marcada pelo embate entre o liberalismo teológico e o movimento fundamentalista. O liberalismo promovia a hermenêutica racionalista, negando a inerrância bíblica e os milagres, enquanto o fundamentalismo resgatava doutrinas históricas, notadamente a inspiração plenária e verbal das Escrituras (2 Tm 3:16; cf. Jo 17:17).
Líderes adventistas, como A. G. Daniells e W. W. Prescott, foram profundamente influenciados por este cenário polarizado.
A identidade do adventismo, forjada em uma hermenêutica peculiar pós-millerita, foi posta à prova diante das tensões doutrinárias sobre inspiração e inerrância.
Segundo George Knight, o adventismo, ao se alinhar com o conservadorismo teológico — rejeitando abertamente o evolucionismo e o modernismo — buscava resguardar a singularidade de sua missão profética, mas sucumbiu a fortes contradições internas quanto à natureza da revelação.
1.2 Redescoberta das Atas e Seu Impacto
A redescoberta das atas da Conferência Bíblica de 1919, em 1975, revelou que lideranças adventistas cientes de problemas fundamentais na construção da autoridade profética de Ellen White não apenas admitiam falhas, mas debatiam abertamente revisões e adequações pós-morte da profetisa.
Tais atas expuseram fragilidades doutrinárias até então ocultadas, demonstrando que os escritos de White sempre foram tratados, no círculo íntimo, com critérios inferiores aos das Escrituras.
Isto evidencia uma falta de honestidade doutrinária perante o laicato, reforçando traços de manipulação hermenêutica.
Esse ponto é fundamental para uma análise crítica, pois repousa sobre o princípio reformado da transparência teológica (cf. Ef 4:15; 2 Co 4:2), que contrasta com uma postura institucional de ocultamento sistemático de controvérsias internas.

2. Inspiração dos Escritos: Entre White e as Escrituras
2.1 Visão Adventista sobre Inspiração e Inerrância
A Igreja Adventista do Sétimo Dia abraçou oficialmente em 1883 a inspiração de pensamentos tanto para a Bíblia quanto para os escritos de Ellen White. Segundo esta perspectiva:
Deus inspira pensamentos, mas as palavras são humanas e, portanto, passíveis de erro — base para justificar falhas nos escritos de White.
Citações de Ellen White corroboram essa visão, como citado em Testemunhos para a Igreja: “As palavras são humanas, mas os pensamentos são de Deus.”
Paradoxalmente, White também alegava que Deus lhe dava palavras específicas, entrando em grave contradição interna e tornando sua obra teologicamente indefensável.
Notavelmente, essa doutrina relativiza a inerrância (cf. Sl 19:7; Mt 24:35), solapando a base epistemológica da sola scriptura defendida pela Reforma.
2.2 Plágio e Autoridade Profética Questionada
A análise acadêmica demonstra que a concepção whiteana da inspiração foi, em parte, plagiada de C. E. Stowe, lançando dúvidas sérias sobre sua alegada originalidade inspirada. A apropriação não atribuída de conceitos críticos da teologia bibliológica evidencia, além de inconsistência, possíveis intenções de harmonização artificial para fins de autopreservação institucional.
É notável a admissão implícita de que a autoridade profética de Ellen White não poderia se comparar à dos profetas canônicos (Hb 1:1-2; 2 Pe 1:21).
A conferência de 1919 revelou preocupação em distinguir os Testemunhos (White) das Escrituras, porém mantendo-os funcionalmente no mesmo patamar para fins administrativos e disciplinares.
A rejeição da inspiração verbal e plena das Escrituras, configurada nesta teologia, ameaça o dogma adventista e, por consequência, o princípio reformado que identifica as Escrituras como infalíveis, necessárias, suficientes e autoritativas.
3. Debates Internos: Inerrância, Revisões e Doutrina da Sola Scriptura
3.1 Inerrância Bíblica vs. Inspiração dos Escritos de White
Durante a Conferência Bíblica de 1919, figuras como Daniells e Prescott rejeitaram a aplicação direta do conceito de inerrância aos escritos de Ellen White. Por outro lado, membros mais conservadores defendiam a equiparação da autoridade entre o Espírito de Profecia e a Bíblia, promovendo confusão doutrinária entre clero e leigos.
"Se sempre tivéssemos ensinado a verdade [sobre Ellen White], não teríamos nenhum problema ou choque na denominação agora." (George B. Thompson, Atas de 1919)
O fato de a denominação ter optado por não publicar as atas à época revela receio de uma crise de autoridade institucional.

A capacidade de revisar e corrigir os escritos de White pós-morte indica admissão tácita de equívocos, incompatível com a noção de inspiração profética canônica (Is 55:11; Jr 1:9).
3.2 Revisões de “O Grande Conflito” e Implicações Hermenêuticas
A edição revisada de 1911 de O Grande Conflito tornou-se central no debate, pois envolveu correções feitas por editores após o falecimento de White, inclusive mediadas por Daniells e Prescott. A discussão em torno de futuras revisões revelou:
A fragilidade hermenêutica da obra magna do adventismo, que requer intermediários humanos (editores, revisores e comitês) para suposta “clarificação” do texto inspirado.
A incomparabilidade entre os processos de transmissão textual bíblica — sujeitos à providência, mas guardados por Deus (cf. Sl 12:6-7; Mt 5:18) — e a transmissão dos escritos de White, explicitamente sujeitos à sujeição humana e à manipulação editorial posterior.
O adventismo, ao tentar nivelar Escritura e “Espírito de Profecia”, aplica um padrão inferior à Bíblia e, assim, compromete sua própria base doutrinária, abandonando na prática a doutrina sola scriptura.
4. Consequências Doutrinárias e Implicações para a Autoridade das Escrituras
4.1 Erosão da Sola Scriptura e Autoridade Final da Bíblia
A crítica central reside na recusa adventista em reconhecer a suficiência das Escrituras frente à dependência contínua dos Testemunhos de Ellen White para doutrina, vida e prática eclesiástica.
Critérios de autoridade. O adventismo, por sua teologia da inspiração de pensamentos, relativizou a inerrância bíblica, inserindo a figura da “profetisa menor” como mediadora essencial da verdade (cf. Gl 1:8-9), em direta oposição à supremacia escriturística.
Confusão eclesiológica. O duplo padrão de autoridade — ora equiparando, ora separando — perpetua uma crise de consciência no corpo denominacional, o que contribui historicamente para uma cultura de controle epistemológico e aversão à crítica pública.
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça.” (2 Tm 3:16, NVI)
O ensino reformado reitera que apenas o cânon bíblico é a Palavra de Deus escrita, inerrante e infalível, fundamento expresso em passagens como:
João 17:17 – "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade."
Gálatas 1:8 – "Ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregue outro evangelho..."
Apocalipse 22:18-19 – "Se alguém lhes acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas..."
Por isso, toda reivindicação de revelação pós-canônica — especialmente de caráter normativo e disciplinar — carece de legitimidade teológica, sendo, segundo padrões bíblicos, sujeita à reprovação (cf. Hb 1:1-2).
4.2 Honestidade Teológica e Transparência Pastoral
A ocultação das atas de 1919 por mais de meio século desafia todo argumento de honestidade teológico-pastoral no adventismo. O procedimento vai de encontro à ordem apostólica da transparência eclesiástica (2 Co 4:2) e do pastoreio baseado na verdade (Ef 4:15).
O laicato adventista permaneceu privado dos reais debates teológicos internos por décadas.
Erros dos líderes, revisões e contradições na profetisa foram ocultados, promovendo uma tradição de confiança cega, típica de movimentos sectários.
Reformadores da tradição protestante, como Martinho Lutero e João Calvino, enfatizavam o exame público, a prestação de contas e a reformabilidade contínua — princípios sistematicamente desconsiderados pelo adventismo institucional de então.
Conclusão
A Conferência Bíblica de 1919 revelou uma crise doutrinária de grandes proporções na Igreja Adventista do Sétimo Dia, especialmente no que concerne à inspiração, inerrância e autoridade profética dos escritos de Ellen G. White em comparação com as Escrituras. Ao relativizar o padrão bíblico inspirado e adotar um paradigma inferior à doutrina da sola scriptura, os líderes adventistas capitularam diante de inconsistências históricas, hermenêuticas e eclesiológicas, colocando em risco até mesmo o edifício essencial da fé cristã bíblica.
A tradição evangélica e reformada sustenta que só as Escrituras são infalíveis, inerrantes e suficientes para fé, vida e prática (2 Tm 3:16; Sl 19:7-8; Jo 17:17). A autoridade pastoral e doutrinária pertence exclusivamente à Bíblia, cuja inspiração é de origem divina, não sujeito a revisões editoriais pós-canônicas ou a arbitrários testemunhos privados.
Assim, exorta-se o leitor embasado na Palavra a rejeitar qualquer recurso intermediário para revelação normativa, reconhecendo que “toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Tm 3:16) e que não há outro fundamento seguro para fé cristã além do testemunho bíblico. A Conferência de 1919, longe de fortalecer a autoridade adventista, revelou, ao contrário, as profundas fragilidades de sua base profética. Conforme ensina o apóstolo Paulo:
“Mas, ainda que nós ou um anjo do céu vos pregue outro evangelho além do que vos temos pregado, seja anátema.” (Gl 1:8)
Que cada cristão adventista em crise se volte à suficiência absoluta das Escrituras e à verdade do evangelho puro — fundamento único, imutável e infalível da fé reformada.
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