
Ellen White e a Perfeição Inalcançável
Análise crítica do perfeccionismo segundo Ellen White e o adventismo à luz das Escrituras. Descubra por que a perfeição é apenas em Cristo.
Cristãos não podem, nesta vida, tornar‑se intrinsecamente perfeitos, impecáveis ou sem pecado em si mesmos; a perfeição que Deus aceita é a perfeição de Cristo creditada ao pecador pela graça mediante a fé, não um estado de impecabilidade produzido por “atos bem executados” ou por um “caráter bem equilibrado” conquistado por esforço humano. A teologia adventista de santidade, fortemente influenciada pelos escritos de Ellen G. White, aproxima‑se perigosamente do perfeccionismo — a ideia de que é possível (e necessário) chegar a uma condição de ausência total de pecado nesta vida — em contradição com o ensino claro das Escrituras e até com advertências de teólogos adventistas de que essa pretensão gera orgulho espiritual e neurose religiosa.
1. Antropologia bíblica e impossibilidade da impecabilidade humana
A antropologia bíblica é uniformemente realista quanto à condição pecaminosa humana.
Em Romanos 3:9–23, Paulo, sintetizando textos do AT (Salmo 14; 53; Isaías 59), conclui:
“Não há justo, nem um sequer… todos pecaram e carecem da glória de Deus.”
O particípio aoristo “pecaram” em Rm 3:23 aponta para um fato universal já consumado; o verbo “carecem”, no presente, descreve um estado contínuo de carência da glória de Deus. A combinação sugere tanto a culpa passada quanto a insuficiência presente, abrangendo a humanidade em geral, inclusive crentes que ainda aguardam a glorificação.
De modo semelhante, 1 João 1:8–10 afirma:
“Se dissermos que não temos pecado, enganamo‑nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós… Se dissermos que não temos cometido pecado, fá‑lo‑emos mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”
Essas declarações:
São advertências dirigidas à comunidade cristã (“nós”);
Negam legitimidade a qualquer reivindicação de impecabilidade presente ou passada.
O AT descreve o coração humano como “enganoso… e desesperadamente corrupto” (Jr 17:9) e afirma que “todas as nossas justiças são como trapo de imundícia” (Is 64:6). O salmista declara que não há quem faça o bem, “nem um sequer” (Sl 14:3; cf. Rm 3:10–12). A única exceção explícita é Cristo, de quem se diz que “não cometeu pecado” (1 Pe 2:22) e que foi “sem pecado” (Hb 4:15).
2. Perfeição em Hebreus 10:14: completude em Cristo, não impecabilidade intrínseca
Hebreus 10:14 é texto-chave:
“Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados.”
O verbo “aperfeiçoou” (τετελείωκεν) está no perfeito indicativo, indicando ação concluída com efeitos permanentes; o particípio “estão sendo santificados” (ἁγιαζομένους) está no presente passivo, indicando processo contínuo.
Em Hebreus, “aperfeiçoar” (teleioō) refere‑se sobretudo a:
qualificação cultual e acesso livre a Deus (Hb 7:11,19; 9:9),
consumação da obra redentora (Hb 2:10; 5:9).
Portanto:
A “perfeição” aqui é, primariamente, status diante de Deus em Cristo (aceitação plena, acesso ao santíssimo),
Não afirmação de impecabilidade ética existencial do crente nesta vida.
3. O perfeccionismo de Ellen White e do adventismo
3.1 Declarações centrais de perfeccionismo
Nas obras devocionais e testemunhos, Ellen White formula uma doutrina de “perfeição de caráter” explicitamente alcançável e, de fato, necessária:
Em “A Fé pela Qual Eu Vivo” (The Faith I Live By), ela declara:
“Como o Filho do homem foi perfeito em Sua vida, assim Seus seguidores devem ser perfeitos em sua vida. Um caráter bem equilibrado é formado por atos isolados bem executados. Um defeito, cultivado em vez de vencido, torna o homem imperfeito e fecha contra ele o portão da Cidade Santa… Em toda a hoste dos remidos não se verá um único defeito.”
Em “Testemunhos para a Igreja”, volume 2 (Testimonies, vol. 2), afirma:
“A conversão não está completa até que ele alcance a perfeição de caráter cristão.”
Em “Atos dos Apóstolos” (Acts of the Apostles), lemos:
“Os seres humanos podem, nesta vida, alcançar a perfeição de caráter.”
Em “Mensagens Escolhidas”, volume 1 (Selected Messages, vol. 1), afirma:
“A perfeição de caráter é atingível por todo aquele que por ela se esforça.”
Tomadas em conjunto, essas declarações:
Transformam a impecabilidade prática em alvo realista;
Vinculam a conclusão da conversão e o acesso à Cidade Santa à erradicação de todo defeito cultivado;
Deslocam o eixo da soteriologia da obra consumada de Cristo para a performance moral do indivíduo.
3.2 Condicionar a habitação de Cristo ao abandono prévio do pecado
Outras declarações agravam o problema:
Em artigos da “Revista Adventista” (Review and Herald) e do “Sinais dos Tempos” (Signs of the Times), Ellen White escreve que:
“Para deixar Jesus entrar em nosso coração, devemos cessar de pecar.”
“Ser redimido significa cessar do pecado.”
Logicamente, isso implica:
Uma ordem invertida em relação ao Evangelho: primeiro cessar de pecar, depois Cristo habitar;
Uma soteriologia em que a graça é, na prática, resposta à auto‑purificação prévia, e não poder que alcança o pecador em sua miséria.
3.3 Confissão de imperfeição e exigência contínua de perfeição
Em 1915, pouco antes de sua morte, Ellen White declarou, no “Pacific Union Recorder”:
“Não digo que sou perfeita, mas estou procurando ser perfeita… Nenhum é perfeito. Se alguém fosse perfeito, estaria preparado para o céu. Enquanto não formos perfeitos, temos um trabalho a fazer para nos preparar para ser perfeitos.”
Ainda que admita sua imperfeição e a de todos, ela mantém:
Que apenas o perfeito está “preparado para o céu”;
Que há um “trabalho a fazer” até alcançar essa perfeição.
Isso configura um perfeccionismo nunca alcançado, mas sempre exigido, com efeito de corroer a segurança da salvação baseada na obra consumada de Cristo (cf. Jo 5:24; 1 Jo 5:13).
4. Crítica doutrinária e pastoral ao perfeccionismo
4.1 Vozes adventistas críticas: Edward Heppenstall
Edward Heppenstall, um dos principais teólogos adventistas do século XX, escreve no folheto “É Possível a Perfeição?” (Is Perfection Possible?):
“A pretensão à perfeição sem pecado em qualquer momento desta vida terrena é a raiz do orgulho espiritual e da justiça própria… Salvação pela graça somente significa que perfeição absoluta e ausência de pecado não podem ser realizadas aqui e agora.”
Sua análise reconhece que:
A ideia de impecabilidade nesta vida gera farisaísmo em alguns e desespero em outros;
A salvação pela graça exclui a possibilidade de fundamentar aceitação diante de Deus em qualquer grau de perfeição própria.
4.2 Crítica evangélica: David Seamands
David Seamands, em “Cura para Emoções Feridas” (Healing for Damaged Emotions), descreve o perfeccionismo religioso como:
“uma contrafação da perfeição cristã, da santidade, da vida cheia do Espírito… Em vez de produzir pessoas santas e personalidades integradas — isto é, pessoas inteiras em Cristo — o perfeccionismo nos deixa fariseus espirituais e neuróticos emocionais.”
Na prática pastoral, isso se manifesta em:
Crentes obcecados por desempenho, inseguros do amor de Deus;
Incapacidade de repousar na suficiência da cruz;
Ciclos de culpa, autoexame mórbido e comparação constante.
5. “Sede perfeitos como vosso Pai”: leitura de Mateus 5:48
Perfeccionistas adventistas apelam frequentemente a Mateus 5:48:
“Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.”
O termo grego teleios (“perfeito”) pode significar “completo, maduro, íntegro”. No contexto do Sermão do Monte:
Jesus contrasta o amor restrito (apenas aos amigos) com o amor abrangente do Pai, que faz nascer o sol sobre bons e maus (Mt 5:43–47).
A “perfeição” do Pai é ilustrada por sua misericórdia inclusiva, não por uma enumeração de pecados ausentes.
Exegética e teologicamente:
Trata‑se de um ideal normativo que revela nossa imperfeição e nos impulsiona à dependência da graça;
Não de uma descrição de estado impecável alcançável antes da glorificação.
Essa leitura é confirmada por outros textos que associam a plena conformidade a Cristo ao estado futuro de glorificação (1 Jo 3:2; Fp 3:20–21), não a uma elite de “última geração” que alcançaria impecabilidade pré‑advento.
6. Conclusão: perfeitos em Cristo, não em si mesmos
Sintetizando:
A Escritura afirma a realidade contínua do pecado na vida dos crentes, ao mesmo tempo em que garante plena aceitação em Cristo e um processo de santificação em curso.
A perfeição de Hebreus 10:14 é status relacional e cultual em Cristo, não impecabilidade moral intrínseca aqui e agora.
As declarações de Ellen White sobre “perfeição de caráter” alcançável nesta vida, como condição para completar a conversão e entrar na Cidade Santa, configuram uma doutrina perfeccionista incompatível com a justificação pela fé e com a antropologia bíblica.
Teólogos adventistas como Edward Heppenstall e autores evangélicos como David Seamands reconheceram o perigo espiritual e psicológico desse perfeccionismo.
À luz disso, um padrão acadêmico de avaliação deve concluir que:
A esperança do crente não repousa em sua própria “perfeição de caráter”, mas na perfeição de Cristo, imputada e aplicada pela graça.
Qualquer sistema — inclusive o adventista clássico influenciado por Ellen White — que condicione a salvação final a um estado de impecabilidade nesta vida distorce o evangelho neotestamentário e precisa ser revisto à luz da Escritura.
O chamado bíblico continua sendo à santidade real e progressiva, mas sempre sob a consciência de que, até a glorificação, permanecemos pecadores justificados, “aperfeiçoados para sempre” em Cristo, enquanto ainda “estamos sendo santificados”.
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Referências Bibliográficas
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Mateus 5:48. Bíblia.
Salmo 53. Bíblia.
Romanos 3:23. Bíblia.
Jeremias 17:9. Bíblia.
Isaías 64:6. Bíblia.
Salmo 14:3. Bíblia.
Romanos 3:10–12. Bíblia.
1 Pedro 2:22. Bíblia.
Hebreus 4:15. Bíblia.
Hebreus 7:11,19. Bíblia.
Hebreus 9:9. Bíblia.
Hebreus 2:10. Bíblia.
Hebreus 5:9. Bíblia.
Escritura.
Romanos 3:9–23. Bíblia.
Salmo 14. Bíblia.
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1 João 1:8–10. Bíblia.
WHITE, Ellen The Faith I Live By.
WHITE, Ellen Testimonies, vol. 2.
WHITE, Ellen Acts of the Apostles.
WHITE, Ellen Selected Messages, vol. 1.
WHITE, Ellen Review and Herald.
WHITE, Ellen Signs of the Times.
WHITE, Ellen Para deixar Jesus entrar em nosso coração, devemos cessar de pecar. Revista Adventista.
WHITE, Ellen Ser redimido significa cessar do pecado. Sinais dos Tempos.
WHITE, Ellen (1915). Não digo que sou perfeita, mas estou procurando ser perfeita… Nenhum é perfeito. Se alguém fosse perfeito, estaria preparado para o céu. Enquanto não formos perfeitos, temos um trabalho a fazer para nos preparar para ser perfeitos.. Pacific Union Recorder.
Jo 5:24. Bíblia.
1 Jo 5:13. Bíblia.
HEPPENSTALL, Edward É Possível a Perfeição?.
SEAMANDS, David Cura para Emoções Feridas.
Mt 5:43–47. Bíblia.
1 Jo 3:2. Bíblia.
Fp 3:20–21. Bíblia.