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    Jesus transformou água em vinho ou em suco de uva?
    Ellen White

    Jesus transformou água em vinho ou em suco de uva?

    Descubra se Jesus transformou água em vinho ou suco de uva e examine criticamente a doutrina adventista à luz da exegese bíblica e das línguas originais

    27 de dezembro de 20258 min min de leituraPor Rodrigo Custódio

    Introdução

    A doutrina adventista do sétimo dia, especialmente dentro de sua Mensagem de Reforma de Saúde, impõe a abstinência total de álcool como princípio inegociável, supostamente originado em visões de Ellen G. White. Este posicionamento teológico leva a uma defesa sistemática de que referências bíblicas positivas ao vinho seriam, na verdade, menções a suco de uva não fermentado. Tal interpretação confronta frontalmente a exegese bíblica honesta, especialmente ao considerar episódios como o milagre nas bodas de Caná (João 2) e outras passagens que exaltam ou legitimam o consumo sensato de vinho. Este artigo proporá uma análise crítica da doutrina adventista à luz da teologia bíblica e das línguas originais, examinando os fundamentos exegéticos, históricos e teológicos, além de apresentar 15 exemplos bíblicos em que a bebida alcoólica é aludida positivamente ou aceitada entre o povo de Deus. Convido o leitor a examinar profundamente, à luz das Escrituras, se a abordagem adventista encontra verdadeiro respaldo bíblico ou se constitui mais um acréscimo humano à revelação divina.

    1. Fundamentação da Doutrina Adventista: Saúde, Profecia e Hermenêutica Restritiva

    A teologia adventista sobre abstinência de álcool fundamenta-se principalmente em instruções oriundas de Ellen G. White, cuja autoridade é equiparada, na prática, à da própria Escritura dentro do movimento. Suas visões e orientações — especialmente Temperance, Ministry of Healing e Patriarchs and Prophets — estabelecem não apenas o afastamento de bebidas alcoólicas, mas também das carnes, do café e de uma ampla gama de alimentos considerados "prejudiciais". O argumento central reside na suposta revelação profética de uma vontade superior acerca da saúde humana, entendida como parte essencial do evangelho eterno.

    O ponto crítico está na hermenêutica adotada para interpretar textos bíblicos relacionados ao vinho (oinos): a negação do elemento alcoólico nas passagens em que o vinho é apresentado positivamente, postulando que o termo se refira a suco de uva fresco, não fermentado. Esta abordagem se tornou notória no comentário de Ellen White sobre João 2, onde Jesus transformaria água em suco de uva puro, excluindo qualquer possibilidade de fermentarão.

    • Defesa baseada na visão extrabíblica (White) e não em exegese direta.

    • Postulado hermenêutico que distingue "vinho bom" (não fermentado) e "vinho mau" (fermentado), sem respaldo lexicográfico sólido.

    • Negação da prática judaica e cristã histórica do consumo controlado de vinho.

    Essa postura revela dois graves problemas: a) sujeição da exegese bíblica à tradição profética adventista, subvertendo a sufficitura Scripturae; b) desconsideração das línguas originais e do cenário cultural-histórico da Antiguidade, comprometendo a integridade hermenêutica.

    2. Análise Exegética: Oinos, Yayin e a Linguagem das Escrituras

    A palavra-chave central "vinho", em grego oinos (οἶνος), e o equivalente hebraico yayin (יין), aparecem em inúmeras passagens onde, inquestionavelmente, o contexto indica fermentação alcoólica. A tentativa adventista de restringir "oinos" e "yayin" ao mosto ou suco de uva carece de respaldo lexicográfico, sem apoio nas fontes clássicas gregas, no uso rabínico ou patrístico.

    2.1 Oinos em João 2 e o Milagre de Caná

    O relato de João 2:1-11 é paradigmático e frequentemente reinterpretado pelo adventismo para evitar a associação de Jesus à produção e consumo de vinho fermentado. O texto, porém, não permite tal manobra sem violência exegética:

    "Disse-lhe o mestre-sala: Todo homem põe primeiro o bom vinho e, quando já têm bebido fartamente, então o inferior; tu, porém, guardaste até agora o bom vinho." (João 2:10)

    A surpresa do mestre-sala só faz sentido se o vinho previamente oferecido já tiver atingido o efeito esperado da fermentação, visto que o costume era servir o melhor vinho primeiro e, quando os convidados estivessem "já bebido bastante" (methysthosin), passava-se ao inferior. A hipótese de estar em questão o simples suco de uva ignora tanto o vocabulário quanto o contexto social e cultural.

    2.2 Oinos em Outros Contextos do Novo Testamento

    • Efésios 5:18 — "E não vos embriagueis com vinho (oinos), no qual há devassidão..." — A exortação contra o abuso só faz sentido se "oinos" for de fato alcoólico.

    • 1 Timóteo 5:23 — "Não continues a beber somente água, usa um pouco de vinho (oinos) por causa do teu estômago..." — Paulo recomenda vinho fermentado para tratamento medicinal, rejeitando, inclusive, a abstinência total.

    O léxico padrão das línguas originais apoia a conclusão de que oinos e yayin designam vinho fermentado, não sendo uma questão aberta à agenda adventista moderna.

    3. Prática Sacerdotal, Consumo Comunitário e Oferta: 15 Ocorrências Bíblicas Positivas sobre Vinho

    A Bíblia contém referência a pelo menos 15 episódios em que o vinho/alcoólico é permitido, aprovado ou ofertado a Deus, refutando inequivocamente a posição adventista de abstinência universal. Veja exemplos representativos, com breves comentários:

    1. Gênesis 14:18: Melquisedeque oferece pão e vinho a Abraão — prefiguração tipológica da Ceia do Senhor.

    2. Êxodo 29:40: Oferta de libação com vinho no altar do santuário.

    3. Levítico 23:13: Oferta de vinho nas festas judaicas prescritas por Deus.

    4. Números 15:5-10: Mandamento do Senhor de oferecer vinho como libação nEle próprio.

    5. Deuteronômio 14:26: Permissão específica para adquirir e beber "vinho ou bebida forte" nas festas de Jerusalém.

    6. Juízes 9:13: Parábola que valoriza o vinho por alegrar Deus e os homens.

    7. Salmos 104:14-15: "O vinho... que alegra o coração do homem." Refere-se à bondade da criação divina.

    8. Provérbios 3:9-10: Prospere seus lagares e vinho novo será abundante.

    9. Isaías 25:6: A promessa escatológica de um banquete com vinhos envelhecidos.

    10. Eclesiastes 9:7: "Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com bom coração o teu vinho."

    11. João 2:9-10: Jesus provê vinho (oinos) de melhor qualidade em Caná.

    12. Romanos 14:21: Paulo discute a liberdade cristã no contexto do vinho — evitando escândalo, não proibindo intrinsecamente.

    13. 1 Timóteo 5:23: Recomendação pastoral para uso medicinal do vinho.

    14. Amós 9:14: Restauração espiritual retratada com vinhas prosperando e vinho sendo desfrutado.

    15. Mateus 26:27-29: Jesus institui a Ceia com vinho — tipo da nova aliança em seu sangue.

    A recorrência desses textos atesta que o consumo moderado de vinho, incluído o fermentado, é parte da vida litúrgica, doméstica e simbólica do povo de Deus, invariavelmente proibindo apenas o excesso, não o uso.

    4. Hermenêutica Adventista versus Hermenêutica Reformada: Consistência e Autoridade Bíblica

    A hermenêutica adventista revela uma clara subordinação das Escrituras à tradição Whiteana, na medida em que textos são reinterpretados por critérios extrínsecos ao cânon bíblico. O princípio da sufficitura Scripturae — defendido historicamente pelo protestantismo reformado — é solenemente violado quando se reinterpreta, distorce ou minimiza dezenas de textos claros sobre vinho a fim de preservar uma ética de saúde peculiar.

    • Interpretação de textos narrativos como normativos, ainda que constituam especificidades de votos pessoais (voto nazireu, por exemplo) e não normatividade para todos.

    • Ignora a diversidade de situações em que o vinho é aceito, apreciado e ofertado no Antigo e Novo Testamento.

    • Aceita acréscimos doutrinários vindos de fontes pós-apostólicas (Ellen White) como vínculo hermenêutico obrigatório, promovendo confusão entre revelação e tradição particular.

    Em contraste, a hermenêutica reformada empreende leitura honesta dos termos originais, respeitando o contexto e a analogia da fé. A boa exegese distingue entre abuso (proibido) e uso responsável (permitido), conforme 1 Coríntios 6:12 e Efésios 5:18.

    "Não vos embriagueis com vinho, em que há devassidão, mas enchei-vos do Espírito." (Efésios 5:18)

    A ordem é contra o excesso e não contra qualquer consumo, refletindo uma ética equilibrada e madura.

    5. Apologia Bíblica: Abstinência Total, Liberdade Cristã e Santidade na Prática

    O ensino bíblico sobre álcool, vinho e liberdade cristã é muito mais nuançado do que a postura adventista admite. Conforme Romanos 14, 1 Coríntios 8–10 e Colossenses 2, o relacionamento do crente com elementos culturais — incluindo o vinho — está sujeito:

    1. Ao princípio do amor — evitar escândalo aos mais fracos, mas não por imposição normativa universal.

    2. Consciência livre diante de Deus — liberdade para consumir, abster-se ou recusar por razões devocionais ou conscientes, e não por coação institucional.

    3. Fidelidade à revelação bíblica — não proibir onde Deus não proibiu (cf. Mateus 15:9).

    O objetivo do cristianismo bíblico é promover santidade autêntica, não ascetismo legalista. Proibir terminantemente o vinho não tem respaldo nos escritos apostólicos, mas sim a admoestação ao domínio próprio:

    "Tudo me é lícito, mas nem tudo convém... Não me deixarei dominar por nenhuma delas." (1 Coríntios 6:12)

    A posição reformada e evangélica, portanto, rejeita a imposição adventista como acréscimo humano à fé, ecoando as advertências do apóstolo Paulo quanto à suficiência e perfeição da Palavra de Deus.

    Conclusão

    O exame crítico sobre a doutrina adventista do vinho versus a revelação bíblica sobre vinho e álcool revela uma profunda divergência entre tradição particular e a Escritura Sagrada. O adventismo, ao impor a abstinência total por revelação extrabíblica e reinterpretar forçadamente o sentido de termos originais (oinos, yayin), compromete o princípio protestante fundamental de sola Scriptura. A análise de João 2, a exegese vocabular do Novo Testamento e os múltiplos exemplos do Antigo Testamento refutam a tentativa de identificar "vinho" com suco de uva não fermentado.

    O ensino bíblico provê um equilíbrio ético: condena o excesso e o vício, mas aprova o uso legítimo, moderado e festivo do vinho como dom de Deus. A prática dos patriarcas, dos sacerdotes e do próprio Cristo desautoriza a tradição adventista. Desta forma, honestidade intelectual e fidelidade exegética exigem abandonar imposições religiosas não fundamentadas no texto sagrado.

    A reflexão prática ao leitor adventista é clara: a fé cristã verdadeira se baseia integralmente na Palavra revelada, não nos acréscimos de movimentos posteriores. Defenda sua liberdade em Cristo e submeta toda tradição ao crivo das Escrituras (Atos 17:11). Que a verdade bíblica, e não a tradição humana, seja o seu norte!

    "Assim, pois, não julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pôr tropeço ou escândalo ao irmão." (Romanos 14:13)

    "Alegrai-vos no Senhor, porque Ele vos deu o vinho que alegra o coração do homem..." (Salmos 104:15)

    A Escritura permanece: Jesus transformou água em vinho, não em suco de uva; e, por meio do vinho, selou uma nova aliança de liberdade e graça para o Seu povo.

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    Referências Bibliográficas

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