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ELLEN WHITE

O Espiritualismo Visível de Ellen White:

Descubra como as visões de Ellen White refletem espiritualismo comum ao século XIX, desmontando a tese adventista com análise acadêmica e bíblica sólida.

Por Rodrigo Custódio · Publicado em 11/07/2026 · 14 min

O Espiritualismo Visível de Ellen White:

Como o livro premiado de Ann Taves, "Fits, Trances, and Visions" (Princeton, 1999), prova que nenhum fenômeno das visões de Ellen White era exclusivo dela — e como o adventismo batizou de "ato de Deus" o mesmo espiritualismo que condenava nos outros.


Introdução: a pergunta que a igreja nunca respondeu

Imagine uma jovem que cai ao chão sem forças, para de respirar por até três horas, mantém os olhos abertos sem piscar, grita "Glória! Glória! Glória!" e "viaja" em espírito até outros planetas. Se essa cena acontecesse hoje num terreiro, num centro espírita ou numa sessão de hipnose, qual seria o veredito do pastor adventista? A resposta é óbvia: espiritualismo. Mediunidade. Engano de Satanás.

Mas essa jovem se chamava Ellen Gould Harmon, e a Igreja Adventista do Sétimo Dia decidiu que, no caso dela — e somente no caso dela —, esses mesmos fenômenos eram a "encarnação do Espírito de Profecia". O mesmo corpo em transe que seria demoníaco em qualquer outra pessoa tornou-se, nela, um ato de Deus.

A boa notícia para quem busca a verdade é que não precisamos mais discutir isso com base em opinião. A historiadora Ann Taves, professora da Universidade da Califórnia (Santa Barbara) e ex-presidente da American Academy of Religion, mapeou cientificamente todo o universo de transes e visões da América do século XIX. E o que ela demonstrou é devastador para a tese adventista: absolutamente nada no repertório físico de Ellen White era único. Tudo — a queda, a respiração suspensa, os gritos, as viagens espirituais, os testes com vela e espelho — já existia, catalogado, na cultura religiosa da época. Este artigo constrói essa ponte, texto por texto, fonte por fonte.

A ponte: quem é Ann Taves e o que o livro prova

Ann Taves publicou em 1999, pela Princeton University Press, a obra Fits, Trances, and Visions: Experiencing Religion and Explaining Experience from Wesley to James ("Ataques, Transes e Visões: experimentando a religião e explicando a experiência, de Wesley a James"). O livro venceu o prêmio de melhor livro acadêmico em Filosofia e Religião de 2000 da Association of American Publishers. Não é literatura de crítico amador: é o padrão-ouro acadêmico sobre o tema.

A frase de abertura resume o projeto: "This book is about the interplay between experiencing religion and explaining experience" — "Este livro trata da interação entre experimentar a religião e explicar a experiência" (Taves, 1999, p. 3). Taves cobre 160 anos, de John Wesley (década de 1740) a William James (década de 1900), e cataloga na mesma página 3 o repertório completo da época: "movimentos corporais incontrolados (ataques, exercícios corporais, cair como morto, catalepsia, convulsões); vocalizações espontâneas (gritar, bradar, falar em línguas); experiências sensoriais incomuns (transes, visões, vozes, clarividência, experiências fora do corpo); e alterações de consciência (sonhos, sonambulismo, transe mesmérico, transe mediúnico, hipnotismo, possessão)".

A tese central de Taves é o que chamaremos aqui de batalha interpretativa: o mesmo fenômeno físico recebia rótulos diferentes conforme quem o interpretava. Crentes chamavam de divino. Médicos céticos chamavam de mesmerismo (a hipnose da época). Outras igrejas chamavam de demoníaco. Médicos posteriores chamaram de histeria ou epilepsia. O fenômeno era um só; o rótulo era escolha da comunidade.

E Taves não deixou Ellen White de fora. Em 2014, ela escreveu o capítulo "Visions" no volume acadêmico Ellen Harmon White: American Prophet (Oxford University Press). Sua conclusão, resumida pelo revisor David Holland na revista adventista Spectrum: o cenário visionário de White foi moldado "pela promessa metodista da presença divina, pela capacidade do milerismo de produzir uma cacofonia de vozes carismáticas, e pela ameaça do mesmerismo como fonte rival de experiência visionária". Segundo Taves, após casar-se com Tiago White, Ellen "distanciou-se tanto do fanatismo quanto das acusações de mesmerismo, ambos os quais ela demonizou" — ou seja, demonizou as próprias origens.

O corpo da profetisa: os fenômenos documentados pelas fontes adventistas

Aqui está a beleza da metodologia "igreja contra si mesma": não precisamos de fontes hostis. Os próprios pioneiros adventistas descreveram tudo com riqueza de detalhes, porque acreditavam que os fenômenos provavam a inspiração divina.

A entrada em visão. J. N. Loughborough, que afirmou ter visto Ellen em visão cinquenta vezes, descreveu em The Great Second Advent Movement (1905, p. 204): "Ao entrar em visão, ela dá três gritos arrebatadores de 'Glória!', que ecoam e reecoam [...]. Por cerca de quatro ou cinco segundos, ela parece cair como uma pessoa desmaiada, ou que perdeu as forças; então parece ser instantaneamente cheia de força sobre-humana [...]. Seus olhos estão sempre abertos, mas ela não pisca; sua cabeça está erguida, e ela olha para cima."

A respiração suspensa. Tiago White escreveu em 1868: "Ela não respira. Durante todo o período em que permanece em visão, que variou de quinze minutos a três horas, não há respiração, como foi repetidamente provado pressionando-se o peito e fechando-se a boca e as narinas." O pastor Daniel Bourdeau testemunhou (Battle Creek, 4 de fevereiro de 1891): "Coloquei minha mão sobre sua boca, apertando suas narinas entre meu polegar e indicador, de modo que era impossível para ela exalar ou inalar ar [...]. Eu a mantive assim por cerca de dez minutos." David Seeley relatou que, na visão de 26 de junho de 1854, o Dr. Fleming "segurou uma vela o mais próximo possível de seus lábios sem queimá-la [...]. Não houve o menor tremular da chama." A própria Ellen escreveu: "Colocando um espelho diante dos meus lábios, descobriram que nenhuma umidade se acumulava no vidro" (Review and Herald, 14 de junho de 1906).

A Bíblia pesada. No início de 1845, aos 17 anos, Ellen teria erguido no braço esquerdo estendido, por cerca de meia hora, a Bíblia da família — que, segundo o próprio White Estate, pesa cerca de 8 quilos. Curiosamente, A. G. Daniells, presidente da Conferência Geral, admitiu nas atas da Conferência Bíblica de 1919: "Não sei se isso alguma vez aconteceu ou não. Não tenho certeza. Eu não vi, e não sei se alguma vez falei com alguém que viu" (Bible Conference, 30 de julho de 1919).

As raízes metodistas. Ellen cresceu na tradição dos "shouting Methodists" (metodistas dos gritos) de Portland, Maine. O próprio White Estate admitiu, na revista Ministry de agosto de 1984, que o grito triplo de "Glória!" era característica do movimento de santidade wesleyano — e aparece num livro que Ellen tinha na própria biblioteca, o Memoir of William Carvosso (1856).

O tribunal que fotografou o começo: o caso Israel Dammon

Se existe um documento que a igreja preferia que não existisse, é o relato do julgamento de Israel Dammon, publicado no jornal Piscataquis Farmer (Dover, Maine) em 7 de março de 1845 — apenas três semanas após os fatos. Dammon, pregador milerita, foi preso durante uma reunião fanática na casa de James Ayer Jr., em Atkinson, Maine, na noite de 15 de fevereiro de 1845. Entre os presentes: Tiago White e uma jovem visionária de Portland chamada Ellen Harmon.

Os testemunhos juramentados, colhidos dias depois do evento, descrevem a cena. O advogado William Crosby declarou: "Havia uma mulher no chão, deitada de costas com um travesseiro sob a cabeça; ela ocasionalmente despertava e contava uma visão que dizia ter-lhe sido revelada. Por vezes todos falavam ao mesmo tempo, berrando no topo de suas vozes." A testemunha de defesa James Ayer Jr. a identificou: "Vi a mulher com um travesseiro sob a cabeça — seu nome é senhorita Ellen Harmon, de Portland."

A testemunha Loton Lambert relatou o conteúdo das "visões": "Havia uma moça que, segundo diziam, precisava ser batizada naquela noite ou iria para o inferno." A testemunha de defesa Isley Osborn confirmou: "Eles perdem as forças e caem no chão. O Senhor se comunica com eles por meio de visão [...]. Ela lhes disse que seus casos lhe haviam sido revelados pelo Senhor, e que se não fossem batizados naquela noite, iriam para o inferno. Nós acreditamos nela." Outra testemunha, George Woodbury: "Minha esposa e Dammon atravessaram o chão de quatro, sobre mãos e joelhos."

Pelo cruzamento dos horários citados, Ellen Harmon permaneceu deitada no chão, em transe, por mais de cinco horas. Uma testemunha independente, Lucinda Burdick, escreveu em 1874 que os White, naquele período, "costumavam sentar no chão em vez de cadeiras e rastejar pelo chão como criancinhas". O documento foi redescoberto pelo historiador Frederick Hoyt por volta de 1984, publicado na Spectrum 17:5 (1987) e por Bruce Weaver na Adventist Currents (1988), e incluído como apêndice na 3ª edição de Prophetess of Health, do historiador Ronald Numbers (Eerdmans, 2008). Detalhe fatal: o relato de Ellen em Spiritual Gifts, vol. 2, pp. 40-42, alega que ela foi a Atkinson para combater o fanatismo. O registro do tribunal a coloca no centro dele.

Mesmerismo: a acusação que ela enfrentou em vida

O mesmerismo — o "magnetismo animal" de Franz Anton Mesmer, ancestral direto da hipnose e porta de entrada do espiritismo moderno — era febre nos Estados Unidos da década de 1840. Andrew Jackson Davis, o "vidente de Poughkeepsie", ditava revelações em transe clarividente desde 1844, incluindo descrições de outros planetas. E os contemporâneos de Ellen fizeram a conexão imediata.

Três críticos do próprio meio adventista — Sargent, Robbins e French — afirmavam que "o irmão White a mesmerizava, e que ela não podia ter visão na ausência do irmão White" (relato de Otis Nichols, arquivo do White Estate). A própria Ellen registrou o clima: "Muitos queriam me fazer crer que não havia Espírito Santo, e que todos os exercícios que homens santos de Deus experimentaram eram apenas mesmerismo ou enganos de Satanás" (Early Writings, p. 21). Ela chegou a relatar que um médico mesmerista tentou hipnotizá-la e falhou — episódio usado até hoje pela igreja como "prova" de imunidade.

Repare no que isso significa: a acusação de espiritualismo não é invenção de críticos modernos. Ela nasceu junto com as visões, feita por gente que assistia às cenas ao vivo. A resposta adventista nunca foi negar os fenômenos — foi apenas trocar o rótulo.

Quadro comparativo: a cultura do século XIX × Ellen White

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Fenômeno da época (Taves e fontes históricas)

Ellen White (fontes adventistas)

1

Cair como morto ("slain in the Spirit") nos camp meetings desde Cane Ridge (1801): pessoas caíam "como homens abatidos em batalha" (Taves, 1999)

"Ela parece cair como uma pessoa desmaiada, ou que perdeu as forças" (Loughborough, GSAM, p. 204)

2

O "grito" metodista ("Glória!", "Aleluia!") como marca dos shouting Methodists (Taves; Ministry, ago. 1984)

Três gritos de "Glória!" ao entrar em visão (Loughborough; M. G. Kellogg, 1853)

3

Clarividência viajante do transe mesmérico: o sujeito "viajava" a lugares distantes; A. J. Davis descrevia planetas desde 1844 (Taves, pp. 119-165)

"Fazendo movimentos como se viajasse pelo espaço", descreveu Júpiter e Saturno (Loughborough, GSAM, p. 258, visão de 1846)

4

Guias espirituais entregando objetos simbólicos na cultura visionária e mediúnica

O "guia" do sonho de 1842 entrega o cordão verde para guardar junto ao coração (Primeiros Escritos, pp. 79-81)

5

Testes físicos em mesmerizados: vela sob o nariz, espelho na boca, beliscões, para verificar o transe

Os mesmos testes feitos em Ellen — vela (Dr. Fleming, 1854), espelho (RH, 14/06/1906), narinas tapadas por 10 minutos (Bourdeau, 1891) — usados como prova de divindade

6

Quatro rótulos concorrentes para o mesmo fenômeno: divino, mesmérico, demoníaco, patológico (tese central de Taves)

As visões de Ellen receberam exatamente os quatro rótulos: divinas (igreja), mesmerismo (Sargent, Robbins, French), demoníacas (Robbins), histeria/epilepsia (Canright, 1919)

7

A virada médica (1890-1910): experiências religiosas reinterpretadas como histeria e dissociação (Taves, parte 3)

Hipótese de epilepsia do lobo temporal pela lesão craniana aos 9 anos (Delbert Hodder, 1981; Molleurus Couperus, Adventist Currents, jun. 1985)

8

Êxtase radical milerita pós-1844: "cacofonia de vozes carismáticas" (Taves, "Visions", 2014)

Julgamento Dammon: Ellen Harmon em transe no chão por mais de 5 horas, ultimatos de batismo (Piscataquis Farmer, 07/03/1845)

9

Rastejar, beijo santo e prostração nos extremos do avivamento

"Rastejavam pelo chão como criancinhas" (Lucinda Burdick, 1874); "saudai os irmãos com ósculo santo" (primeira visão)

10

Testes de discernimento concorrentes: Bíblia sobre o vidente, teste da respiração, caráter do sujeito

O teste da própria Ellen: o caráter do sonhador prova o sonho — "tais sonhos [...] contêm suas próprias provas de genuinidade" (Testemunhos, v. 1, pp. 569-570)

A batalha dos quatro rótulos — e a escolha adventista

Volte ao quadro e olhe a linha 6, porque ela é o coração do argumento. O adventismo não venceu a batalha interpretativa com evidência; venceu com decisão institucional. A moça que caía em transe era, para os vizinhos de Maine, uma fanática; para os médicos, uma mesmerizada; para as igrejas de onde sua família foi expulsa, uma enganada; e para o pequeno grupo que fundaria a IASD, a mensageira do Senhor. Nenhum dos quatro grupos viu um fenômeno diferente. Todos viram a mesma jovem no chão.

E aqui a espada corta os dois lados: se o adventista aceita que o transe de Ellen era divino apesar de ser fisicamente idêntico ao transe mediúnico, ele perde o direito de apontar para o médium espírita, para o pai de santo ou para a vidente pentecostal e dizer "isso é demônio". O critério não pode ser "é de Deus quando é da nossa fundadora". Ellen White carregava um espiritualismo visível — visível a ponto de ser testado com velas e espelhos como qualquer sonâmbula mesmerizada da época — e a igreja o canonizou como "Espírito de Profecia".

O que dizem os acadêmicos — inclusive os adventistas

O mais notável é que essa leitura não vem apenas de ex-adventistas. Ronald Numbers, historiador da ciência da Universidade de Wisconsin, demonstrou em Prophetess of Health (1976; 3ª ed. 2008) que os "conselhos de saúde" de Ellen estavam todos disponíveis na cultura da época, e descreveu a jovem Ellen na reunião de Atkinson como "envolvida no exato 'fanatismo' que mais tarde denunciaria: beijos, toques, rastejar e gritos". Ronald Graybill, que trabalhou no próprio White Estate, documentou em sua tese de doutorado (Johns Hopkins, 1983) e no artigo "Enthusiasm in Early Adventist Worship" (Ministry, out. 1991) que os primeiros adventistas praticavam prostração, gritos e beijo santo, ligando Ellen diretamente à tradição metodista do grito.

E A. Gregory Schneider, professor adventista do Pacific Union College, escreveu na Spectrum (2001), resenhando justamente o livro de Taves, que as inovações de Ellen "podem ter origem num caráter que não foi totalmente sincero sobre suas afiliações e influências — conclusão à qual acho que a evidência de fato nos obriga". Um professor adventista, numa revista adventista, dizendo que a evidência obriga a concluir que a profetisa escondeu suas fontes.

Nota de honestidade metodológica

Para que este material sobreviva ao escrutínio apologético, três ressalvas. Primeira: o relato do julgamento Dammon é um resumo feito por um repórter voluntário, não uma transcrição estenográfica — mas é a fonte contemporânea mais próxima dos fatos, publicada três semanas depois, e foi reproduzida em obra acadêmica revisada (Numbers, 2008). Segunda: a análise nominal de Ellen White por Taves está principalmente no capítulo "Visions" de 2014 (Oxford), enquanto o livro de 1999 fornece o quadro geral do mesmerismo e da religião (pp. 119-165) — não confundir as duas obras. Terceira: a hipótese de epilepsia do lobo temporal é hipótese médica contestada, não fato estabelecido; dos neurologistas consultados por Couperus, dois apoiaram e um discordou, e o comitê de Loma Linda (1983) a rejeitou. O argumento deste artigo não depende dela: depende dos paralelos culturais, que são incontestáveis.

Conclusão

A ponte está construída. De um lado, a ciência histórica de Ann Taves, mapeando um século de corpos caídos, respirações suspensas, gritos de glória, viagens clarividentes e guias que entregam objetos. Do outro, as fontes primárias adventistas descrevendo, com orgulho, exatamente os mesmos fenômenos no corpo de Ellen White. No meio, a decisão institucional de chamar de "Espírito de Profecia" aquilo que, em qualquer outro corpo, a mesma igreja chamaria de espiritismo.

"O próprio Satanás se disfarça de anjo de luz" (2 Coríntios 11:14). O teste bíblico nunca foi o fenômeno — foi a conformidade com a Escritura (Isaías 8:20). E quando se aplica esse teste, o transe de Portland não passa.