
A teoria da expiação defendida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia
Análise crítica da expiação na Igreja Adventista do Sétimo Dia com base bíblica. Descubra falhas doutrinárias e veja o que as Escrituras realmente ensinam.
Introdução
A teoria da expiação defendida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia constitui, sem dúvida, um dos pontos mais controvertidos de sua soteriologia. Enquanto afirma adotar uma expiação substitutiva, os adventistas explicitamente rejeitam a expiação penal substitutiva tal como concebida pela ortodoxia protestante histórica. Este artigo investiga criticamente a distinção semântica e teológica feita, especialmente à luz dos escritos de Norman R. Gulley e Jon Paulien, e avalia os pressupostos e implicações da doutrina adventista da expiação em contraste com o ensino bíblico e a tradição reformada. Será examinado: (1) o conceito adventista de expiação substitutiva, (2) a relação entre cruz e juízo investigativo, (3) fundamentos do Grande Conflito e sua influência, e (4) análise bíblica e implicações soteriológicas. A leitura oferece uma análise fundamentada para aqueles que buscam uma compreensão profunda e crítica sobre o que significa expiação no contexto adventista.
1. O Conceito Adventista de Expiação Substitutiva: Distinções e Problemáticas
A expiação substitutiva no adventismo é frequentemente apresentada como um conceito distinto da expiação penal substitutiva (PSA), central na teologia reformada. Norman R. Gulley, expoente desta abordagem, enfatiza que, para os adventistas, ser “substituto” de Cristo não implica que Sua vida perfeita seja imputada ao crente de tal modo que a obediência não mais seja requerida para a aceitação diante de Deus. Gulley escreve:
“Rightly used, the word ‘substitutionary’ in no way connotes that Christ took our place in living a perfect life so that we do not need to be fitted for heaven!... The word ‘substitutionary,’ properly employed, applies solely to Christ’s taking our place at the cross, doing for us what we could never do for ourselves... In paying the price for our sins He alone could be our substitute.” (Toward Understanding the Atonement, 1990, p. 68)
Esta definição revela duas tensões teológicas fundamentais:
Substituição limitada ao evento da cruz: Para a perspectiva adventista, a expiação tem foco restrito, não contemplando a imputação da justiça ativa de Cristo (Sua vida de perfeita obediência) ao crente.
Negação da suficiência da obra consumada: Recusa-se a ideia protestante de que a justiça de Cristo é suficiente para justificar o pecador, exigindo que o próprio crente seja “ajustado para o céu” (fitted for heaven), ou seja, alcance um nível de perfeição moral e legal.
No entanto, dentro da tradição reformada, a expiação implica plena substituição penal e imputação da justiça de Cristo (2 Coríntios 5:21). Ao negar esses elementos, o adventismo introduz um sinergismo soteriológico em oposição à monergia da graça bíblica. Tal abordagem, à luz de passagens como Romanos 4:5-8, não encontra respaldo exegético sólido:
“Mas àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.” (Romanos 4:5)
Portanto, a limitação da substituição apenas à cruz, excluindo a vida ativa e perfeita de obediência de Cristo como nossa, permanece uma grave lacuna teológica do adventismo.
2. Cruz, Santuário e Juízo Investigativo: Redefinição Adventista de Expiação
A análise do conceito de expiação na Igreja Adventista do Sétimo Dia evidencia uma redefinição semântica e conceitual: a cruz é apenas parte inicial de um processo de expiação que se prolonga no santuário celestial. Como afirma Jon Paulien:
“Quando Adventistas falam de expiação, referem-se especificamente ao que Jesus está fazendo agora no santuário celestial. Por outro lado, para os estudiosos fora do adventismo, expiação refere-se especificamente à cruz de Jesus e o que Deus estava fazendo ali.” (Salvation: Contours of Adventist Soteriology, cap. 10, p. 189)
Três problemas teológicos surgem dessa estrutura:
Expiação Inacabada: O adventismo postula que a cruz não completou a expiação; esta continua no céu através do chamado juízo investigativo iniciado em 1844. Tal posição contradiz a clareza exegética de Hebreus 9:12, segundo a qual Cristo “entrou no Santo dos Santos uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção”.
Mediador Inseguro: Se a obra expiatória de Cristo está em aberto e depende da avaliação da vida do crente, dissolve-se a certeza da salvação. Ainda que aceito, o crente permanece em constante exame, sujeito a ser rejeitado.
Doutrina Extra-Bíblica: O juízo investigativo carece de sustentação textual. Nenhum texto bíblico ensina tal doutrina; ao contrário, João 19:30 atesta: “Está consumado”, indicando completude da obra redentora.
O autor de Hebreus declara que os sacrifícios do Antigo Testamento eram “sombra dos bens futuros”, enquanto Cristo ofereceu “um único sacrifício pelos pecados” (Hebreus 10:12). Assim, a teologia adventista do santuário e do juízo investigativo fragmenta a suficiência da obra de Cristo, promovendo uma noção de expiação em aberto e condicional.
3. O Paradigma do Grande Conflito: Paradigma Extra-Bíblico e Suas Implicações
Fundamental à soteriologia adventista é o Grande Conflito, um conceito herdado e popularizado por Ellen G. White. Segundo essa cosmovisão, o conflito entre Cristo e Satanás deve ser finalmente resolvido pela vindicação do caráter de Deus através da demonstração de que Sua lei pode ser obedecida por seres humanos habilitados pela graça divina.
Interpretação da criação e queda: O mundo teria sido criado, em parte, como palco para a justificação pública do governo divino perante o universo, em resposta às acusações preexistentes de Satanás.
Função da missão de Cristo: Jesus veio não apenas para morrer pelos pecados, mas para ser o Exemplo supremo de obediência à lei; Sua missão teria duplo propósito: expiar e demonstrar a viabilidade da obediência perfeita.
Soteriologia baseada em demonstração humana: A doutrina exige que os crentes provem a “segurança para salvar” tornando-se moralmente impecáveis, completando assim o que Cristo começou.
Esta moldura levanta profundas objeções bíblicas:
Centralidade do homem na salvação: O foco desloca-se do mérito de Cristo para a performance humana como elemento decisivo na vindicação de Deus.
Ausência na revelação: Não há qualquer indicação em Efésios 1:4-6 ou no Evangelho de João de que a redenção seja concebida como uma “demonstração cósmica” ao universo criado antes da queda.
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” (Efésios 2:8-9)
A ideia de que a salvação do homem visa primordialmente refutar acusações satânicas, além de ser ausente nas Escrituras, corrompe o significado teológico do evangelho fundamentado unicamente na graça e glória de Deus (Efésios 1:6).
4. Análise Bíblica Comparativa: Expiação Adventista versus Substituição Penal Bíblica
A Igreja Adventista do Sétimo Dia propõe, portanto, uma expiação substitutiva restrita, enredada por paradigmas teológicos e extra-bíblicos conflitantes com a doutrina preconizada nas Escrituras e pelo protestantismo histórico.
O ensino bíblico da expiação: Textos como Isaías 53:5-6, 2 Coríntios 5:21 e Romanos 8:1-4 sustentam inequivocamente a substituição penal. Cristo não apenas sofreu no lugar do pecador, levando a culpa e a punição, mas também cumpriu a perfeita justiça requerida pela lei, e esta justiça é imputada aos que creem.
“Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” (Isaías 53:5)
“Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Coríntios 5:21)
Implausibilidade da perfeição final: A insistência adventista em uma demonstração final humana de perfeição (vindicação) fere frontalmente o ensino de Hebreus 10:14 e Romanos 8:1, que declaram que os salvos já não têm condenação e foram aperfeiçoados para sempre pelo único sacrifício de Cristo.
“Porque com uma só oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados.” (Hebreus 10:14)
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” (Romanos 8:1)
Inexistência do juízo investigativo: Não há absolutamente qualquer referência nas Escrituras a uma fase posterior da expiação, posterior à cruz, que condicione a justificação e a segurança eterna do crente.
Portanto, à luz da exegese honesta e da analogia da fé, a expiação adventista carece de respaldo bíblico, optando por uma estrutura lógica e teológica importada de paradigmas externos à ortodoxia cristã.
Conclusão
A análise crítica da teoria da expiação na Igreja Adventista do Sétimo Dia evidencia uma desconexão fundamental com a doutrina protestante histórica e a fé apostólica expressa nas Escrituras. Diferentemente do penal substitutionary atonement bíblico, no qual Cristo sofre, morre e cumpre a justiça exigida pela lei em lugar do pecador, a soteriologia adventista limita a substituição ao sofrimento vicário na cruz e introduz a necessidade da “preparação para o céu” por meio de obediência perfeita e juízo investigativo.
Tal posição não apenas carece de fundamento exegético, mas fere a suficiência da obra de Cristo e obscurece a glória do evangelho da graça soberana. As passagens bíblicas analisadas (Romanos 4:5, Hebreus 10:14, 2 Coríntios 5:21, Efésios 2:8-9) atestam com clareza que a salvação é um ato consumado e perfeito em Cristo, mediado pela fé, e não um processo dependente de obras humanas ou fases expiatórias pós-cruz.
Para o leitor adventista em busca de clareza, é imperativo reexaminar à luz das Escrituras a suficiência da cruz, a garantia absoluta da justificação em Cristo e a improcedência dos conceitos de juízo investigativo e perfeição final como condições para a salvação. A verdadeira expiação bíblica é penal, substitutiva, consumada—e nos chama à confiança plena na obra de Cristo apenas (solus Christus).
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