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    Ellen White e a Perfeição Inalcançável
    Ellen White

    Ellen White e a Perfeição Inalcançável

    Análise crítica do perfeccionismo segundo Ellen White e o adventismo à luz das Escrituras. Descubra por que a perfeição é apenas em Cristo.

    December 31, 20257 min min readBy Rodrigo Custódio

    Cristãos não podem, nesta vida, tornar‑se intrinsecamente perfeitos, impecáveis ou sem pecado em si mesmos; a perfeição que Deus aceita é a perfeição de Cristo creditada ao pecador pela graça mediante a fé, não um estado de impecabilidade produzido por “atos bem executados” ou por um “caráter bem equilibrado” conquistado por esforço humano. A teologia adventista de santidade, fortemente influenciada pelos escritos de Ellen G. White, aproxima‑se perigosamente do perfeccionismo — a ideia de que é possível (e necessário) chegar a uma condição de ausência total de pecado nesta vida — em contradição com o ensino claro das Escrituras e até com advertências de teólogos adventistas de que essa pretensão gera orgulho espiritual e neurose religiosa.​


    1. Antropologia bíblica e impossibilidade da impecabilidade humana

    A antropologia bíblica é uniformemente realista quanto à condição pecaminosa humana.

    Em Romanos 3:9–23, Paulo, sintetizando textos do AT (Salmo 14; 53; Isaías 59), conclui:

    “Não há justo, nem um sequer… todos pecaram e carecem da glória de Deus.”

    O particípio aoristo “pecaram” em Rm 3:23 aponta para um fato universal já consumado; o verbo “carecem”, no presente, descreve um estado contínuo de carência da glória de Deus. A combinação sugere tanto a culpa passada quanto a insuficiência presente, abrangendo a humanidade em geral, inclusive crentes que ainda aguardam a glorificação.​

    De modo semelhante, 1 João 1:8–10 afirma:

    “Se dissermos que não temos pecado, enganamo‑nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós… Se dissermos que não temos cometido pecado, fá‑lo‑emos mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”

    Essas declarações:

    • São advertências dirigidas à comunidade cristã (“nós”);

    • Negam legitimidade a qualquer reivindicação de impecabilidade presente ou passada.

    O AT descreve o coração humano como “enganoso… e desesperadamente corrupto” (Jr 17:9) e afirma que “todas as nossas justiças são como trapo de imundícia” (Is 64:6). O salmista declara que não há quem faça o bem, “nem um sequer” (Sl 14:3; cf. Rm 3:10–12). A única exceção explícita é Cristo, de quem se diz que “não cometeu pecado” (1 Pe 2:22) e que foi “sem pecado” (Hb 4:15).


    2. Perfeição em Hebreus 10:14: completude em Cristo, não impecabilidade intrínseca

    Hebreus 10:14 é texto-chave:

    “Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados.”

    O verbo “aperfeiçoou” (τετελείωκεν) está no perfeito indicativo, indicando ação concluída com efeitos permanentes; o particípio “estão sendo santificados” (ἁγιαζομένους) está no presente passivo, indicando processo contínuo.​

    Em Hebreus, “aperfeiçoar” (teleioō) refere‑se sobretudo a:

    • qualificação cultual e acesso livre a Deus (Hb 7:11,19; 9:9),

    • consumação da obra redentora (Hb 2:10; 5:9).

    Portanto:

    • A “perfeição” aqui é, primariamente, status diante de Deus em Cristo (aceitação plena, acesso ao santíssimo),

    • Não afirmação de impecabilidade ética existencial do crente nesta vida.


    3. O perfeccionismo de Ellen White e do adventismo

    3.1 Declarações centrais de perfeccionismo

    Nas obras devocionais e testemunhos, Ellen White formula uma doutrina de “perfeição de caráter” explicitamente alcançável e, de fato, necessária:

    1. Em “A Fé pela Qual Eu Vivo” (The Faith I Live By), ela declara:

    “Como o Filho do homem foi perfeito em Sua vida, assim Seus seguidores devem ser perfeitos em sua vida. Um caráter bem equilibrado é formado por atos isolados bem executados. Um defeito, cultivado em vez de vencido, torna o homem imperfeito e fecha contra ele o portão da Cidade Santa… Em toda a hoste dos remidos não se verá um único defeito.”​

    1. Em “Testemunhos para a Igreja”, volume 2 (Testimonies, vol. 2), afirma:

    “A conversão não está completa até que ele alcance a perfeição de caráter cristão.”​

    1. Em “Atos dos Apóstolos” (Acts of the Apostles), lemos:

    “Os seres humanos podem, nesta vida, alcançar a perfeição de caráter.”​

    1. Em “Mensagens Escolhidas”, volume 1 (Selected Messages, vol. 1), afirma:

    “A perfeição de caráter é atingível por todo aquele que por ela se esforça.”​

    Tomadas em conjunto, essas declarações:

    • Transformam a impecabilidade prática em alvo realista;

    • Vinculam a conclusão da conversão e o acesso à Cidade Santa à erradicação de todo defeito cultivado;

    • Deslocam o eixo da soteriologia da obra consumada de Cristo para a performance moral do indivíduo.

    3.2 Condicionar a habitação de Cristo ao abandono prévio do pecado

    Outras declarações agravam o problema:

    • Em artigos da “Revista Adventista” (Review and Herald) e do “Sinais dos Tempos” (Signs of the Times), Ellen White escreve que:

      • “Para deixar Jesus entrar em nosso coração, devemos cessar de pecar.”

      • “Ser redimido significa cessar do pecado.”​

    Logicamente, isso implica:

    • Uma ordem invertida em relação ao Evangelho: primeiro cessar de pecar, depois Cristo habitar;

    • Uma soteriologia em que a graça é, na prática, resposta à auto‑purificação prévia, e não poder que alcança o pecador em sua miséria.

    3.3 Confissão de imperfeição e exigência contínua de perfeição

    Em 1915, pouco antes de sua morte, Ellen White declarou, no “Pacific Union Recorder”:

    “Não digo que sou perfeita, mas estou procurando ser perfeita… Nenhum é perfeito. Se alguém fosse perfeito, estaria preparado para o céu. Enquanto não formos perfeitos, temos um trabalho a fazer para nos preparar para ser perfeitos.”​

    Ainda que admita sua imperfeição e a de todos, ela mantém:

    • Que apenas o perfeito está “preparado para o céu”;

    • Que há um “trabalho a fazer” até alcançar essa perfeição.

    Isso configura um perfeccionismo nunca alcançado, mas sempre exigido, com efeito de corroer a segurança da salvação baseada na obra consumada de Cristo (cf. Jo 5:24; 1 Jo 5:13).


    4. Crítica doutrinária e pastoral ao perfeccionismo

    4.1 Vozes adventistas críticas: Edward Heppenstall

    Edward Heppenstall, um dos principais teólogos adventistas do século XX, escreve no folheto “É Possível a Perfeição?” (Is Perfection Possible?):

    “A pretensão à perfeição sem pecado em qualquer momento desta vida terrena é a raiz do orgulho espiritual e da justiça própria… Salvação pela graça somente significa que perfeição absoluta e ausência de pecado não podem ser realizadas aqui e agora.”​

    Sua análise reconhece que:

    • A ideia de impecabilidade nesta vida gera farisaísmo em alguns e desespero em outros;

    • A salvação pela graça exclui a possibilidade de fundamentar aceitação diante de Deus em qualquer grau de perfeição própria.

    4.2 Crítica evangélica: David Seamands

    David Seamands, em “Cura para Emoções Feridas” (Healing for Damaged Emotions), descreve o perfeccionismo religioso como:

    “uma contrafação da perfeição cristã, da santidade, da vida cheia do Espírito… Em vez de produzir pessoas santas e personalidades integradas — isto é, pessoas inteiras em Cristo — o perfeccionismo nos deixa fariseus espirituais e neuróticos emocionais.”​

    Na prática pastoral, isso se manifesta em:

    • Crentes obcecados por desempenho, inseguros do amor de Deus;

    • Incapacidade de repousar na suficiência da cruz;

    • Ciclos de culpa, autoexame mórbido e comparação constante.


    5. “Sede perfeitos como vosso Pai”: leitura de Mateus 5:48

    Perfeccionistas adventistas apelam frequentemente a Mateus 5:48:

    “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.”

    O termo grego teleios (“perfeito”) pode significar “completo, maduro, íntegro”. No contexto do Sermão do Monte:

    • Jesus contrasta o amor restrito (apenas aos amigos) com o amor abrangente do Pai, que faz nascer o sol sobre bons e maus (Mt 5:43–47).

    • A “perfeição” do Pai é ilustrada por sua misericórdia inclusiva, não por uma enumeração de pecados ausentes.

    Exegética e teologicamente:

    • Trata‑se de um ideal normativo que revela nossa imperfeição e nos impulsiona à dependência da graça;

    • Não de uma descrição de estado impecável alcançável antes da glorificação.

    Essa leitura é confirmada por outros textos que associam a plena conformidade a Cristo ao estado futuro de glorificação (1 Jo 3:2; Fp 3:20–21), não a uma elite de “última geração” que alcançaria impecabilidade pré‑advento.


    6. Conclusão: perfeitos em Cristo, não em si mesmos

    Sintetizando:

    1. A Escritura afirma a realidade contínua do pecado na vida dos crentes, ao mesmo tempo em que garante plena aceitação em Cristo e um processo de santificação em curso.​

    2. A perfeição de Hebreus 10:14 é status relacional e cultual em Cristo, não impecabilidade moral intrínseca aqui e agora.​

    3. As declarações de Ellen White sobre “perfeição de caráter” alcançável nesta vida, como condição para completar a conversão e entrar na Cidade Santa, configuram uma doutrina perfeccionista incompatível com a justificação pela fé e com a antropologia bíblica.​

    4. Teólogos adventistas como Edward Heppenstall e autores evangélicos como David Seamands reconheceram o perigo espiritual e psicológico desse perfeccionismo.​

    À luz disso, um padrão acadêmico de avaliação deve concluir que:

    • A esperança do crente não repousa em sua própria “perfeição de caráter”, mas na perfeição de Cristo, imputada e aplicada pela graça.

    • Qualquer sistema — inclusive o adventista clássico influenciado por Ellen White — que condicione a salvação final a um estado de impecabilidade nesta vida distorce o evangelho neotestamentário e precisa ser revisto à luz da Escritura.

    O chamado bíblico continua sendo à santidade real e progressiva, mas sempre sob a consciência de que, até a glorificação, permanecemos pecadores justificados, “aperfeiçoados para sempre” em Cristo, enquanto ainda “estamos sendo santificados”.

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