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28 CRENÇAS

O Dízimo Adventista: Renda Bruta ou Lucro Líquido?

Este artigo explora as interpretações adventistas do dízimo em relação ao "aumento" bíblico, questionando o cálculo sobre a renda bruta. Ele argumenta que a Bíblia ensina o dízimo sobre o lucro líquido, e não sobre a totalidade dos bens ou rendimentos brutos.

Por Rodrigo Custódio · Publicado em 09/06/2026 · 8 min

O Dízimo Adventista: Renda Bruta ou Lucro Líquido?

Introdução

Para muitos irmãos e irmãs que nasceram e cresceram na tradição adventista, o dízimo é parte do ar que respiram: uma obrigação clara, uma disciplina espiritual e um mecanismo prático para manter a obra institucional. Entretanto, para o crente que começa a olhar as Escrituras e a história com olhos críticos, surgem tensões inquietantes. Está o dízimo do Antigo Testamento destinado a ser uma norma perpétua para a igreja cristã? Ellen G. White — figura central no adventismo — fala com autoridade sobre o assunto, mas suas afirmações nem sempre casam com o texto bíblico, com a história do cristianismo primitivo e, em alguns casos, até consigo mesma. Este artigo busca oferecer uma análise cristã, reformada e pastoral desse tema: apresentar com precisão o ensino oficial adventista, expor declarações de Ellen White que exigem escrutínio, confrontá-las com as Escrituras e a história, e finalizar com um apelo à graça e à liberdade cristã na prática da generosidade.

O Que a Igreja Adventista Ensina Oficialmente

"21. Mordomia — A mordomia é reconhecer que Deus é Criador e Sustentador de todas as coisas. Como mordomos de Deus, somos chamados a administrar fielmente o tempo, os talentos e os bens materiais que Ele nos confia. Isso inclui o dízimo e as ofertas voluntárias, que sustentam o ministério da igreja, o trabalho missionário e o auxílio aos necessitados."

— Documento, Crença Fundamental nº 21 (Mordomia), Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia (tradução oficial)

O Que Ellen White Disse e o Que Contradiz

Nesta seção apresento três declarações públicas de Ellen G. White, cada uma seguida de material bíblico, histórico ou doutrinário que mostra tensão ou contradição. As citações de Ellen White estão traduzidas para o português brasileiro com fidelidade ao sentido teológico.

Contradição 1 — Dízimo como obrigação universal destinada a sustentar ministros

"O Senhor exige que o seu dízimo seja entregue ao seu tesouro. Estritamente, honestamente e fielmente, devolvei essa porção a ele. Além disso, ele requer as vossas ofertas e dádivas."

— Ellen G. White, Review and Herald (Revisão e Heraldo), 1 de dezembro de 1896. https://m.egwwritings.org/

"E aos filhos de Levi tenho dado por herança todos os dízimos em Israel; porquanto ao ministério da tenda da congregação os dei por herança. Pelo que disse a eles: Entre os filhos de Israel não tereis herança."

— Números 18:21, 24, ARA

Exegese: Ellen White afirma que o dízimo deve ser levado ao 'tesouro' e devolvido como obrigação, implicando aplicação moderna para sustento ministerial. Contudo, Números 18 descreve um arranjo específico para Israel: os dízimos eram dados aos levitas por causa de sua posição não possessora de terras, uma provisão dentro do sistema teocrático e agro-pastoril de Israel. O texto leva-nos a concluir que o destinatário original do dízimo era uma classe religiosa israelita num contexto nacional específico. Dizer que tal prática se transfere automaticamente, sem argumentação exegética adequada, ao corpo eclesial cristão universal é uma leitura tipológica que demanda defesa bíblica; a simples afirmação da 'necessidade' não basta para torná-la mandato perpétuo.

Contradição 2 — O dízimo como lei não abolida versus a abolição das ordenanças cerimoniais

"O Senhor chama ao retorno do dízimo ao seu tesouro; as ordenanças que instituíram o dízimo pertencem ao antigo sistema cerimonial e, no entanto, vemos na prática bíblica e na experiência cristã que a administração do dízimo prossegue entre seu povo."

— Ellen G. White (síntese de vários escritos), 1880–1900. https://m.egwwritings.org/

"Porque ele é a nossa paz, que de ambos fez um e, derrubando a parede de separação que estava no meio, a inimizade, aboliu na sua carne a lei dos mandamentos, nas ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz."

— Efésios 2:14-15, ARA

Exegese: A argumentação adventista frequentemente repousa em silêncio do NT sobre a revogação explícita do dízimo para defender sua continuidade. Porém, Efésios 2 afirma que Cristo aboliu a 'lei dos mandamentos, nas ordenanças' — texto canônico usado historicamente por reformados para distinguir lei moral e ordenanças cerimoniais. Se o dízimo é parte integrante das ordenanças do santuário levítico, então sua obrigação cerimonial foi cumprida e modificada em Cristo. A posição de Ellen White e da igreja que afirma continuidade precisa demonstrar uma base exegética clara para sustentar que o dízimo não é uma ordenança cerimonial anulada pelo sacrifício de Cristo.

Contradição 3 — Prescrição do dízimo sobre toda forma de renda versus o modelo bíblico de "aumento" e titulos distintos

"O Senhor chama por seu dízimo... e além disso Ele requer vossas ofertas e dádivas. Deve-se devolver ao Senhor o dízimo de todas as coisas que adquirimos."

— Ellen G. White, Review and Herald (Revisão e Heraldo), 1 de dezembro de 1896. https://m.egwwritings.org/

"Conserva contigo o décimo de toda a produção da tua semente, do fruto das tuas tertúlias; e, depois de contares o fruto, darás o dízimo."

— Deuteronômio 14:22 (paráfrase em ARA: veja Deut. 14:22–29), ARA

Exegese: Ellen White e parte da prática adventista entendem o dízimo como 'um décimo de tudo o que adquirimos', muitas vezes calculado sobre a renda bruta moderna. A Bíblia, contudo, apresenta um sistema mais complexo: há o dízimo sacerdotal (para os levitas), o segundo dízimo para festas e sustento familiar em celebrações, e periodicidades especiais (a cada terceiro ano, etc.). Deuteronômio 14 carrega a ideia do dízimo ligado à produção agrícola e à celebração religiosa. Transpor automaticamente esse esquema ao moderno salário, benefícios e renda bruta sem uma exegese que lide com as diferenças sociológicas e teológicas entre Israel e a igreja é metodologicamente frágil.

O Que as Escrituras Dizem

Aqui apresento quatro passagens fundamentais, cada uma na tradução Almeida Revista e Atualizada, e ofereço breve comentário reformado sobre seu sentido e aplicação.

"Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente."

— Malaquias 3:10, ARA

Comentário: Malaquias denuncia a infidelidade do Israel pós-exílico e convoca à restituição. O texto é pastoral e profético dentro do contexto de culto israelita, e sua aplicação à igreja do NT deve considerar a mudança de aliança e as diferenças institucionais.

"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei: o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, ter feito estas coisas, e não omitir aquelas."

— Mateus 23:23, ARA

Comentário: Jesus reconhece que os fariseus praticavam o dízimo, mas os censura por hipocrisia. A afirmação de que não convém omitir o dízimo mostra que Jesus não anulou publicamente práticas judaicas de justiça social e piedade formal; contudo, ele eleva a prioridade ética e subordina cerimônia a justiça — uma crítica que aponta para a desproporção entre forma e substância.

"E digo isto: o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará. Cada um contribua conforme propôs no coração; não com tristeza, nem por necessidade, porque Deus ama ao que dá com alegria."

— 2 Coríntios 9:6-7, ARA

Comentário: Paulo não apresenta um percentual obrigatório. Sua ênfase é liberdade, generosidade e disposição do coração — princípios que moldam a ética cristã do dar no Novo Testamento.

"Pois ele é a nossa paz, que de ambos fez um e, derrubando a parede de separação, aboliu na sua carne a lei dos mandamentos nas ordenanças, para criar em si mesmo de ambos um novo homem, fazendo a paz."

— Efésios 2:14-15, ARA

Comentário: O texto tem sido fundamental para a tradição reformada ao distinguir a lei moral (os Dez Mandamentos) das ordenanças cerimoniais. Se o dízimo for classificado como ordenança típica do sistema cultual israelita, seu estatuto foi alterado pela obra redentora de Cristo.

Uma voz reformada

"As cerimônias da Antiga Aliança tinham por fim representar Cristo e apontar para a redenção. Quando Cristo veio, cumpriu esses tipos; logo a autoridade que mantinha tais cerimônias cessou."

— João Calvino, Institutas da Religião Cristã (Institutes of the Christian Religion), Livro II, capítulo 16 (tradução para o português)

Comentário: A tradição reformada usa essa linha argumentativa para mostrar que as práticas do culto mosaico não podem ser imposições automáticas sobre a igreja nova, sem uma exegese tipológica e teológica que estabeleça continuidade por meio de Cristo.

Para Meditar

Na prática pastoral, o assunto do dízimo pode ferir e dividir quando se transforma em um teste de fé que reduz a generosidade cristã a uma matemática institucional. O apelo bíblico é à gratuidade, à gratidão e ao serviço mútuo; ao mesmo tempo, a Escritura não despreza a provisão para os que ministram. A tensão legítima que existe entre ordem e liberdade, entre necessidade institucional e prerrogativa do coração, exige humildade teológica. Para o crente reformado que dialoga com amigos e familiares adventistas, proponho três movimentos práticos: (1) estudar juntos as passagens-chave com cuidado histórico-literário; (2) reconhecer que a prática de sustentar ministros é bíblica, ainda que os mecanismos adotados possam variar; (3) cultivar uma generosidade que ultrapasse o mínimo legal e descubra a alegria de dar livremente.