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    O Natal de Ellen White: Lucro, Incoerência e a "Santificação" do Comércio
    Michelson Borges

    O Natal de Ellen White: Lucro, Incoerência e a "Santificação" do Comércio

    Análise crítica revela incoerências e interesses financeiros de Ellen White no Natal adventista. Entenda por que este tema desafia a teologia da IASD.

    28 de dezembro de 20258 min min de leituraPor Rodrigo Custódio

    Em sua recente defesa contra textos apócrifos, o influenciador adventista Michelson Borges apresenta uma Ellen White "equilibrada", que aprovava o Natal como ferramenta missionária, repudiando alegações de que ela o considerava uma abominação pagã. Embora Borges esteja tecnicamente correto de que Ellen White não proibiu o Natal, ele omite o contexto comercial e ético de suas recomendações.
    Este artigo revela o lado oculto do "Natal Adventista" original: uma estratégia deliberada para desviar o poder de compra dos fiéis das lojas de brinquedos para as casas publicadoras da denominação (controladas pela família White). Enquanto proibia doces e brinquedos "inúteis" para a igreja, Ellen White presenteava seus netos com doces caseiros (divinity fudge) e livros seculares, e seu filho Willie se vestia de Papai Noel. A defesa de Borges, portanto, não salva a profetisa do fanatismo, mas expõe uma hipocrisia lucrativa: o Natal era "pagão" apenas quando o dinheiro saía da economia interna da igreja.


    1. A Economia da Santificação: O Natal como Modelo de Negócios

    Enquanto Michelson Borges apresenta a aceitação do Natal por Ellen White como prova de seu "equilíbrio" e "moderação", uma análise forense de seus escritos do final do século XIX revela uma motivação muito mais pragmática: o lucro. A "profetisa" não sugeriu apenas uma alternativa espiritual para a celebração mundana; ela arquitetou um funil financeiro que redirecionava os gastos de fim de ano da igreja diretamente para os seus próprios interesses editoriais.

    A Estratégia dos Livros "Seguros" e a "Sunshine": Monetizando o Feriado
    No final da década de 1870, Ellen White começou a expressar desconforto com o Natal, mas não por purismo teológico. Sua preocupação era financeira. Em 1879, ela escreveu na Review and Herald:

    "Aqui está um vasto campo onde o dinheiro pode ser investido com segurança... As séries Sunshine, Golden Grains, etc., são todos livros preciosos... As muitas ninharias geralmente gastas em doces e brinquedos inúteis podem ser economizadas para comprar esses volumes."
    — Review and Herald, 11 de dez. de 1879.

    O que Borges omite convenientemente é a propriedade desses títulos. James e Ellen White não eram apenas os promotores espirituais desses livros; eles eram os beneficiários financeiros.

    • O Estoque: A Oakland Publishing Company, gerenciada pelos White, produziu aproximadamente 240.000 cópias das séries Sunshine e Golden Grains e 24.000 cópias de Sabbath Readings.

    • A Receita: Com um preço de varejo de aproximadamente US$ 0,40 para os livretos menores e US$ 0,75 para os volumes maiores, o valor total de varejo desse estoque ultrapassava US$ 114.000 na moeda de 1880.

    • O Lucro Pessoal: Ellen White historicamente exigia royalties de 10% sobre seus materiais. Se totalmente vendido — como ela ordenou à igreja que fizesse — esse esforço de Natal representava um potencial influxo pessoal de US$ 11.400.

    • O Equivalente Moderno: Ajustado pela inflação (usando cálculos padrão de IPC de 1880 a 2024), esse cheque de royalties seria equivalente a aproximadamente US$ 376.000 hoje.

    A "santificação" do Natal consistia, na prática, em redirecionar o orçamento de presentes das famílias adventistas para o bolso da família White. O conselho espiritual ("não gaste com o mundo") tinha um beneficiário financeiro direto. Como seu antigo associado D.M. Canright expôs mais tarde: "Cada um desses livros era deles. O dinheiro entrava, e eles embolsavam tudo. Eu estava lá, e sei."

    2. A Guerra contra os Doces e a Hipocrisia Doméstica

    Michelson Borges pinta uma Ellen White moderada, argumentando que o conselho de White era sobre "evitar excessos". No entanto, seus escritos revelam um legalismo dietético extremo imposto aos fiéis, mas ignorado em sua própria casa.

    O Conselho Público (Para a Igreja):
    Para o adventista médio, açúcar era pecado. White equiparava comprar doces a uma traição espiritual:

    "Cada centavo gasto em doces... é dinheiro do qual teremos que prestar contas diante de Deus." (Carta 11, 1888).
    "Nossas crianças devem ser ensinadas a negar a si mesmas... para que possam colocar o dinheiro economizado... na caixa de abnegação." (Manuscrito 87, 1908).

    A Prática Privada (Em Elmshaven):
    Enquanto as crianças adventistas pobres aprendiam que comprar um pirulito era uma questão rigorosa para o Dia do Juízo, os netos de Ellen White desfrutavam de um padrão diferente. Grace Scott, neta de Ellen que viveu em Elmshaven, revelou em entrevista gravada que seus Natais incluíam o caseiro "Divinity Fudge" — um doce feito de açúcar, xarope de milho e nozes.

    Por que a "profetisa" não ordenou à sua própria cozinheira que colocasse o preço daquele açúcar e das nozes na "caixa de abnegação"? Por que o "centavo gasto em doce" era um pecado para o laicato, mas um deleite festivo para a matriarca? Esse padrão duplo revela que as mensagens de "reforma de saúde" e "mordomia" eram frequentemente ferramentas de controle para a massa, mas diretrizes opcionais para a elite no topo.

    Papai Noel e Literatura Secular
    Talvez o golpe mais prejudicial à narrativa de "pureza espiritual" seja a revelação de quais presentes eram realmente trocados na casa dos White. Ellen White comandava publicamente os pais a comprarem O Espírito de Profecia e a Série Sunshine para seus filhos.

    No entanto, Grace Scott lembrou que sua avó lhe dava "livros que nós gostaríamos" — mencionando especificamente títulos como "Eloe, the Eagle" e "Uncle Ben’s Cobblestones". Estes não eram os folhetos denominacionais maçantes e moralistas que ela forçava à igreja; eram livros de histórias envolventes e não denominacionais.

    Além disso, os elementos "pagãos" do Natal eram abraçados dentro da casa dos White. Grace lembrou que Willie White (filho de Ellen e principal administrador da igreja) costumava "se vestir de Papai Noel e entregar brinquedos para os netos".

    Essa desconexão entre o rigor imposto à membresia ("abnegação total") e a liberdade desfrutada pela liderança ("doces e Papai Noel") é a definição clássica de farisaísmo: atam fardos pesados que eles mesmos não movem com um dedo (Mateus 23:4). Considere a ótica:

    1. O Laicato: Proibido de comprar brinquedos; instruído a comprar os livros de Ellen White; ensinado que doce é pecado.

    2. A Liderança: Comprando livros seculares; fazendo doces de xarope de milho; vestindo-se de Papai Noel.

    Michelson Borges defende o conselho de Natal de Ellen White como "equilibrado". Um adjetivo mais preciso seria explorador. Ela construiu uma estrutura teológica que impunha culpa aos pais para que rejeitassem o mercado "mundano" (brinquedos e doces) em favor do mercado "santificado" (seus livros). Ela efetivamente monopolizou o mercado de feriados adventista, garantindo que a estação de dar se tornasse uma estação de receber — para ela.

    3. O Critério Seletivo do "Paganismo"

    Michelson Borges argumenta que Ellen White era "equilibrada" por não rejeitar o Natal devido à sua origem pagã. "As origens não devem ser o foco", diz ele, citando O Lar Adventista.
    Aqui reside a maior incoerência teológica do adventismo defendido por Borges:

    • Para o Domingo: A origem "pagã" (o Dia do Sol romano) é usada como prova cabal de que é a "Marca da Besta", uma abominação que selará a perdição eterna de quem o guarda.

    • Para o Natal: A origem pagã (Saturnais/Sol Invictus) é irrelevante, desde que a festa seja usada para "arrecadar ofertas" e promover a literatura da igreja.

    • Para a Aliança de Casamento: Ellen White condenava o uso de alianças ("o anel não tem valor, é costume pagão"), mas aceitava o uso de broches e correntes de relógio caros (que ela mesma usava).

    O critério não é bíblico nem histórico; é institucional. O que serve à instituição (Natal/Ofertas) é santificado, não importa a origem. O que compete com a identidade sectária (Domingo) é demonizado pela origem.

    Conclusão: A Defesa do Indefensável

    Michelson Borges está certo em dizer que os textos apócrifos são falsos. Ellen White não odiava o Natal; ela o amava — como uma oportunidade de negócios.
    Ao tentar "salvar" a profetisa dos extremistas, Borges acaba expondo a natureza mundana de seu ministério. A "inspiração" de Ellen White sobre o Natal não veio do Trono de Deus, mas do balanço contábil da Review and Herald. Ela transformou uma festa cristã em um esquema de fidelidade do consumidor, usando a culpa espiritual para garantir o monopólio do mercado de presentes adventista.
    O verdadeiro problema não é se Ellen White era a favor ou contra a árvore de Natal, mas sim a autoridade inquestionável que Borges e a IASD atribuem a uma liderança que historicamente manipulou a piedade dos fiéis para lucro próprio e controle institucional. Defender isso hoje sem reconhecer o conflito de interesse financeiro é participar da mesma decepção que começou há mais de um século.


    Referências

    • White, E. G. Review and Herald, 11 de dez. de 1879. (Sobre comprar livros da série Sunshine).

    • Canright, D. M. Life of Mrs. E. G. White. (Testemunho sobre os lucros dos livros).

    • Hess, Geraldine. Entrevista com Grace Scott. (Sobre o Natal em Elmshaven e os doces).

    • Anderson, Dirk. The Great Fake Controversy. (Análise financeira dos royalties).

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