
Quando a profetisa chama a lei de Deus de “restrição sem sentido”
Análise bíblica revela como Ellen White redefiniu o mandamento do sábado em Êxodo 35:3. Veja as implicações para a doutrina adventista.
No século XIX, Ellen G. White consolidou entre adventistas a ideia de que os judeus transformaram o sábado num jugo de escravidão ao cercá-lo de “requisitos sem sentido”. Em uma passagem de O Desejado de Todas as Nações, ela identifica como exemplo de “restrições absurdas” a proibição de acender fogo ou mesmo uma vela no sábado. O problema é que essa proibição não nasceu da “invenção farisaica”, mas de um mandamento explícito dado por Deus a Moisés em Êxodo 35:2-3.
O objetivo deste artigo é:
Explicar o mandamento bíblico sobre fogo no sábado.
Mostrar como Ellen White o reclassifica como tradição sem sentido.
Analisar o conflito teológico que isso gera para o sistema sabatista adventista.
Avaliar o impacto disso na credibilidade profética de Ellen White.
1. O mandamento bíblico: não acender fogo no sábado
1.1 Êxodo 35:2-3 e a legislação sabática
O texto é direto e inequívoco:
“Seis dias trabalho será feito, mas o sétimo dia vos será santo, sábado de descanso solene ao Senhor; todo aquele que nele fizer obra será morto. Não acendereis fogo em nenhuma das vossas moradas no dia de sábado.” (Êxodo 35:2-3)
Este mandamento apresenta três elementos:
O sábado como dia santo e de descanso solene ao Senhor.
Penalidade severa (morte) para quem fizer obra nele, no contexto da lei mosaica.
Uma aplicação concreta: proibição de acender fogo nas casas no sábado.
Não há:
Nenhuma indicação de que isso seja mera “tradição oral” ou exagero rabínico.
Nenhuma menção a escribas ou fariseus.
Nenhuma relativização do mandamento como algo “sem sentido”.
É, em seu contexto, lei divina positiva, vinculante para Israel sob a antiga aliança.
2. O retrato de Ellen White: “requisitos sem sentido” e “restrições absurdas”
2.1 A passagem em O Desejado de Todas as Nações
Comentando o clima religioso dos dias de Cristo, Ellen White escreve:
“Os judeus haviam de tal maneira pervertido a lei que a tornaram um jugo de escravidão. Seus requisitos sem sentido haviam-se tornado objeto de provérbio entre outras nações. Especialmente o sábado fora cercado de toda sorte de restrições absurdas. Não era para eles um deleite, santo do Senhor, e glorioso. Os escribas e fariseus haviam feito de sua observância um fardo intolerável. Ao judeu não era permitido acender fogo nem mesmo acender uma vela no sábado. Em consequência, o povo se via na dependência dos gentios para muitos serviços que suas regras lhes proibiam fazer por si mesmos. Não refletiam que, se esses atos fossem pecaminosos, os que empregavam outros para executá-los eram tão culpados como os que faziam o trabalho. Julgavam que a salvação se restringia aos judeus, sendo a condição de todos os demais já sem esperança, nada podia agravá-la. Mas Deus não deu mandamentos que não pudessem ser obedecidos por todos. Suas leis não sancionam restrições não razoáveis ou egoístas.”
Note a estrutura:
“Requisitos sem sentido” (meaningless requirements).
“Restrições absurdas” (senseless restrictions).
Exemplo citado: não acender fogo nem vela no sábado.
Contraste: “Deus não deu mandamentos que não pudessem ser obedecidos” e “Suas leis não sancionam restrições não razoáveis”.
O efeito do parágrafo é inequívoco:
A proibição de acender fogo/vela no sábado é apresentada como produto da “perversão” judaica.
Ellen White não alerta o leitor de que está mencionando um ponto que vem do próprio Êxodo 35:3.
2.2 De quem é, afinal, essa proibição?
Confrontando texto bíblico e comentário de Ellen White:
Bíblia: “Não acendereis fogo em nenhuma das vossas moradas no dia de sábado” (Êx 35:3) – mandamento de Yahweh.
Ellen White: “Ao judeu não era permitido acender fogo nem vela no sábado” – exemplo de “restrições absurdas” criadas pelos escribas e fariseus.
Logo:
O que a Torá apresenta como ordem divina é recodificado por Ellen White como restrição sem sentido fruto de tradição judaica.
A responsabilidade do “peso” não recai mais sobre a letra da lei mosaica, mas sobre o “exagero farisaico”.
Teologicamente, isso significa chamar, na prática, uma prescrição de Deus de “sem sentido”, ainda que o texto não use explícita e diretamente essa expressão para Êxodo 35:3.
3. A tradição judaica: da Torá à casuística sabática
3.1 O desenvolvimento rabínico em torno de fogo
A tradição judaica pós-exílica:
Partiu de mandamentos como Êxodo 35:3.
Desenvolveu um corpo complexo de leis sabáticas, incluindo as 39 categorias de trabalho proibidas (melachot) associadas à obra do tabernáculo.
Tratou “acender fogo” como uma dessas categorias de trabalho, levando a práticas como:
Preparar comida e combustível antes do sábado.
Evitar acender chamas novas durante o sábado.
Empregar, em contextos posteriores, não-judeus (shabbos goy) para fazer tarefas proibidas.
Essa casuística pode, sim, tornar-se pesada e exagerada em alguns detalhes; mas o ponto de partida – não acender fogo no sábado – vem diretamente da Torá, não da invenção de rabinos tardios.
3.2 Onde Ellen White acerta e onde erra
Ellen White não está errada em criticar:
A hipocrisia de usar gentios para fazer o que se dizia ser pecado para judeus.
A lógica incoerente de transferir a culpa.
A transformação do sábado num legalismo opressor, em vez de descanso e alegria.
Mas ela erra gravemente ao:
Colocar no pacote de “restrições absurdas” um mandamento mosaico claro (Êx 35:3).
Atribuir a escribas e fariseus aquilo que, em seu núcleo, vem da lei de Deus, ainda que a aplicação rabínica posterior seja mais rígida.
4. O dilema adventista: lei eterna ou lei contextual?
4.1 Sábado eterno, mas fogo relativizado?
O adventismo costuma afirmar que:
O sábado do quarto mandamento é moral, universal, eterno, anterior ao Sinai e à lei cerimonial.
A observância sabática deve seguir o padrão do Decálogo, com validade para todos os povos e épocas.
Entretanto, quando se olha mais de perto a legislação sabática:
Há elementos do sábado no Pentateuco que vão além do simples “não trabalharás”, como:
Não acender fogo nas moradas (Êx 35:3).
Não sair para colher maná (Êx 16).
Proibições específicas em contexto do acampamento israelita, sob teocracia.
Na prática, adventistas:
Mantêm o sábado como “lei eterna”, mas não se sujeitam literalmente a Êxodo 35:3.
Ligam fogões, acendem luzes, usam aquecedores, churrasqueiras, carros, etc., no sábado, sem considerar isso como quebra do mandamento mosaico.
4.2 Ellen White como “válvula de alívio”
Em vez de:
Enfrentar a questão hermenêutica de quais aspectos da lei sabática são contextuais/cerimoniais e quais são morais/universais,
Ellen White:
Desloca a proibição de fogo para a conta da “perversão” judaica.
Chama as restrições ligadas a fogo/luz de “sem sentido”.
Assim, libera o seguidor moderno de ter de explicar por que ignora Êxodo 35:3, ao mesmo tempo em que insiste na obrigatoriedade eterna do sábado.
Mas isso gera uma contradição:
Quando convém, a lei de Êxodo é moral, eterna e obrigatória.
Quando é incômoda (como no caso do fogo), vira “restrição sem sentido” da tradição judaica.
5. Consequências para a credibilidade profética de Ellen White
5.1 O padrão de reinterpretação
Colocando esse episódio ao lado de outros problemas (Assíria, rei Jarebe, Nínive, cronologias, etc.), vê-se um padrão:
Sempre que o texto bíblico e a história entram em choque com o sistema adventista, Ellen White:
Ou “especifica” detalhes que o texto não dá (por exemplo, identificar “rei Jarebe” com Senaqueribe – o que é historicamente insustentável).
Ou reclassifica elementos bíblicos como “tradições sem sentido” para aliviar a tensão com a prática moderna (como no caso de Êx 35:3 e o fogo no sábado).
Em ambos os casos, a estratégia não nasce de exegese sólida, mas da necessidade de proteger o sistema doutrinário adventista.
5.2 O teste de um profeta bíblico
Na Escritura, um profeta verdadeiro:
Pode não saber tudo de geografia e ciência, mas não distorce a lei de Deus para acomodar um programa doutrinário.
Fala para corrigir o povo e chamá-lo de volta à Palavra, não para reconfigurar aquilo que Deus escreveu, chamando de “sem sentido” o que vem da Torá.
Quando Ellen White:
Toma um mandamento mosaico e o apresenta ao leitor como “restrição absurda” criada por judeus,
E o faz sem qualquer aviso de que está questionando diretamente Êxodo 35:3,
ela deixa de ser voz que ilumina a Escritura, e passa a competir com ela.
Para um adventista honesto, isso exige uma decisão:
Ou a Bíblia é o padrão supremo e a leitura de Ellen White deve ser corrigida e, neste caso, rejeitada no que contradiz a lei de Deus,
Ou Ellen White é mantida como norma de leitura, e o texto bíblico é rebaixado ou deformado para caber nas categorias que ela propõe.
Entre Êxodo e Ellen White, a quem ouvir?
Deus ordena: “Não acendereis fogo em nenhuma das vossas moradas no dia de sábado.” (Êx 35:3) – um mandamento claro, dado a Israel na Antiga Aliança.
A tradição judaica, com todos os seus exageros possíveis, não inventou do nada a proibição de fogo; ela a desenvolveu a partir desse texto.
Ellen White, ao chamar as proibições ligadas a fogo/luz no sábado de “requisitos sem sentido” e “restrições absurdas” criadas por escribas e fariseus, desloca para o judaísmo o peso de uma norma que, em seu núcleo, é mosaica, não farisaica.
Esse movimento:
Pode aliviar a consciência adventista moderna quanto ao uso de fogo, luz, energia, veículos, etc. no sábado,
Mas o faz às custas da integridade do texto bíblico e da coerência da sua própria reivindicação profética.
Se a Escritura é a autoridade final, ela precisa julgar Ellen White, e não o contrário. Nesse ponto específico, o veredicto é claro: a profetisa errou, e o erro atinge diretamente a forma como ela trata a lei de Deus.
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Referências Bibliográficas
WHITE, Ellen G. O Desejado de Todas as Nações.
Êxodo 35:2-3. Bíblia.
Êxodo 35:3. Bíblia.
Êx 35:3. Bíblia.
Êx 16. Bíblia.
WHITE, Ellen as proibições ligadas a fogo/luz no sábado de “requisitos sem sentido” e “restrições absurdas” criadas por escribas e fariseus.