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    Ellen White não Conhecia Hebraico nem Grego
    Ellen White

    Ellen White não Conhecia Hebraico nem Grego

    Eric Richter tenta criar um mundo de contos de fadas adventista, onde Ellen White com superpoderes sobrenaturais alcança a plena compreensão linguística, desconsiderando que isso é uma mentira para enganar os dizimistas do sétimo dia.

    6 de enero de 20267 min min de lecturaPor Rodrigo Custódio

    Ellen White não conhecia hebraico nem grego, não completou o ensino primário e dependia inteiramente de traduções e de outros autores para construir suas narrativas “proféticas”. O artigo de Eric Richter tenta transformar dois exemplos frágeis em “prova” de inspiração sobrenatural, mas, quando analisado com cuidado, apenas mostra circularidade apologética e uso seletivo da pesquisa acadêmica.​

    1. O ponto de partida: a formação de Ellen White

    A própria literatura adventista admite que Ellen White abandonou a escola por volta dos nove anos de idade, sem completar o ensino básico. Não há qualquer registro de estudos formais – nem mesmo rudimentares – de hebraico, aramaico ou grego; ela dominava apenas o inglês e lia a Bíblia exclusivamente em traduções.​

    O estudo técnico de idiomas bíblicos é exigente: envolve alfabetização, gramática, sintaxe, léxicos e contato direto com manuscritos e edições críticas. Nada disso fazia parte do horizonte educacional de Ellen White, fato reconhecido inclusive por defensores adventistas, que insistem que sua compreensão de detalhes exegéticos só poderia ser “milagrosa”.​

    2. O erro metodológico central do artigo

    O artigo não começa perguntando “de onde Ellen White tirou seus detalhes extrabíblicos?”, mas parte de antemão da tese de que ela é profetisa inspirada pelo Espírito Santo. A partir dessa premissa, escolhe dois casos (Êxodo 5 e Mateus 2) e sai em busca de estudos linguísticos recentes que possam ser usados como confirmação posterior das cenas descritas por ela.​

    Esse procedimento é um exemplo clássico de raciocínio circular:

    • Assume‑se que Ellen White é inspirada.

    • Lê‑se a Bíblia à luz das cenas dela.

    • Em seguida, afirma‑se que qualquer nuance acadêmica compatível com essas cenas “prova” a inspiração que foi pressuposta desde o início.​

    Uma abordagem séria exigiria o movimento inverso: verificar se há explicações naturais (tradição devocional, imaginação teológica, uso de fontes, coincidência) antes de apelar para um milagre linguístico. O artigo simplesmente ignora essas alternativas.

    3. Êxodo 5 e a suposta “restauração do sábado”

    3.1 O que Ellen White narra

    Em Patriarcas e Profetas, Ellen White afirma que, ao retornar ao Egito, Moisés começou a restaurar a observância do sábado entre os israelitas, e que foi exatamente isso que provocou a ira de Faraó. Ela descreve um quadro no qual a guarda sabática, quase esquecida na escravidão, passa a ser reimplantada e “os esforços feitos para restaurar a observância do sábado foram notados por seus opressores”.​

    Nenhuma tradução corrente da Bíblia (incluindo as do século XIX) diz que Moisés iniciara uma reforma sabática em Êxodo 5. O texto menciona apenas que Faraó acusa o povo de “afastar‑se de suas tarefas”, julgando‑os ociosos.​

    3.2 O uso seletivo do estudo de Mathilde Frey

    Para defender Ellen White, o artigo apela a um estudo de Mathilde Frey, “Sabbath in Egypt? An Examination of Exodus 5”, que analisa a forma hifil do verbo shabat em Êx 5:5, seguida da preposição min e de um substantivo ligado a “trabalho”. Frey observa que essa combinação lembra a estrutura de Gênesis 2:3 (Deus “descansou de toda a sua obra”) e explora a possibilidade de um eco literário entre os dois textos.​

    O que Frey faz, porém, é discutir nuances literárias e possibilidades teológicas; ela não constrói a narrativa concreta de uma reforma sabática organizada por Moisés, nem afirma que os israelitas já guardavam formalmente o sábado nos moldes adventistas. A pesquisa é cautelosa, trabalha com hipóteses, examina vocabulário e contexto, e em nenhum momento tenta validar visões extrabíblicas de Ellen White.​

    3.3 De nuance exegética a “prova profética”

    O artigo adventista extrapola indevidamente o estudo de Frey. O fato de Êx 5:5 reforçar, em nível de linguagem, uma ligação com o tema do descanso de Gênesis não significa que o detalhe específico de Ellen White – “Moisés restaurou a guarda do sábado” – seja historicamente verdadeiro ou revelado.​

    Qualquer teólogo sabatista, lendo Êxodo à luz da ênfase no sábado, poderia ter deduzido que o descanso pedido ao povo tinha algum vínculo com a teologia do descanso criacional. Não é necessário hebraico para imaginar isso, muito menos visões. A cena descrita por Ellen White é um acréscimo devocional e doutrinário, e o artigo tenta revesti‑la de autoridade científica pegando emprestado o vocabulário técnico de Frey.

    4. Mateus 2 e a estrela de Belém como angelofania

    4.1 A versão de Ellen White

    Em O Desejado de Todas as Nações, Ellen White escreve que a estrela que guiou os magos era, na verdade, um grupo de anjos brilhantes: “aquela estrela distante era um longínquo grupo de anjos resplandecentes”, embora os magos não soubessem disso. O texto de Mateus, por outro lado, não identifica a natureza da estrela; apenas relata que “a estrela” apareceu, guiou e parou sobre o lugar onde estava o menino.​

    A identificação com anjos já é, portanto, uma hipótese interpretativa, não um dado explícito do evangelho.

    4.2 O argumento sintático com base em Raymond Brown

    O artigo cita o comentário de Raymond Brown, The Birth of the Messiah, que descreve a forma como Mateus introduz as aparições de anjos na narrativa da infância por meio de estruturas que combinam um elemento conjuntivo e a interjeição idou (“eis”).​

    Brown analisa a sintaxe de três angelofanias claras (1:20; 2:13; 2:19) e mostra que elas têm fórmulas semelhantes de introdução. O texto adventista, então, afirma que uma estrutura parecida em Mateus 2:9, quando a estrela reaparece, indicaria que se trata também de uma angelofania – ou seja, que a estrela é um anjo ou grupo de anjos, exatamente como Ellen White descreveu.​

    4.3 Exageros e omissões

    Há vários problemas aqui:

    • Brown nunca conclui que a estrela de Mateus é uma aparição angélica; ele descreve padrões literários, mas não identifica a estrela com anjos.​

    • O fato de uma narrativa usar fórmulas parecidas para descrever eventos guiados por Deus não obriga o leitor a igualar todos esses eventos; a sintaxe pode criar ritmo e coesão sem ser um código secreto de “angelofania”.​

    • A associação entre “estrelas” e “anjos” é antiga (Jz 5:20; Jó 38:7; Ap 1:20), de modo que pensar na estrela como manifestação angelical é um passo perfeitamente natural para qualquer pregador que conheça esses textos, sem necessidade de grego avançado.​

    Mais uma vez, o artigo parte do que Ellen White já afirmou e, em vez de perguntar se isso é apenas imaginação devocional, vasculha a exegese em busca de um ponto de contato que possa ser transformado em “confirmação”.

    5. O contexto ignorado: plágio, dependência literária e tradição

    Estudos históricos documentam extensos paralelos entre os escritos de Ellen White e autores anteriores, especialmente em obras como O Grande Conflito e O Desejado de Todas as Nações. Ela adaptava descrições, cenas e até redações inteiras, muitas vezes sem crédito, e a própria liderança adventista moderna reconhece que houve ampla dependência de fontes humanas.​

    Isso significa que:

    • As “informações extrabíblicas” nas suas narrativas se encaixam num padrão de apropriação literária e imaginação teológica, não de acesso direto a dados ocultos nas línguas originais.​

    • Antes de atribuir duas coincidências teológicas ao Espírito Santo, seria necessário descartar a possibilidade de que Ellen White estivesse ecoando tradições já existentes ou desenvolvendo, de forma criativa, temas teológicos comuns em seu meio protestante.​

    O artigo não enfrenta esse contexto incômodo; simplesmente o silencia.

    6. Implicações teológicas

    O próprio texto adventista admite que Ellen White não estudou hebraico nem grego e que seu nível de escolaridade era rudimentar. Em vez de aceitar as limitações humanas da autora, ele tenta transformá‑las em palco para “milagres linguísticos”, usando dois casos frágeis que dependem de leituras superestendidas de pesquisas alheias.​

    Quando a defesa de um profeta precisa recorrer a esse tipo de construção – selecionar a dedo estudos recentes, exagerar suas conclusões e ignorar explicações naturais bem documentadas –, o que se evidencia não é a força da inspiração, mas a fragilidade dela. Longe de provar que Ellen White tinha acesso sobrenatural ao hebraico e ao grego, o artigo apenas confirma o que a própria história mostra: uma líder religiosa de baixa escolaridade, profundamente moldada pelo ambiente protestante do século XIX, que escreveu de forma criativa, dependente de outros autores e limitada como qualquer ser humano, mesmo quando seus seguidores tentam vesti‑la com o manto da infalibilidade profética.

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